Descrição de chapéu Mundo leu refugiados

Em livro, ativista presa após ajudar refugiados evidencia vítimas da 'obediência civil'

Carola Rackete une desigualdade global e crise climática em obra sobre urgência de mobilização global

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São Paulo

Em junho de 2019, a ativista ambiental alemã Carola Rackete, 32, ganhou projeção internacional como uma espécie de heroína dos refugiados, alcunha que rejeita e ironiza.

"Eu entendo como isso funciona. Eu sou aquela pessoa branca, europeia...", diz. "E o argumento é que europeus e brancos vão se identificar mais facilmente comigo e com minhas motivações do que com alguém da África subsaariana que se lançou no mar em busca de refúgio na Europa", critica.

Naquele mês, Carola foi acionada pela ONG SeaWatch, que operava missões de resgate de refugiados no mar Mediterrâneo desde 2015. Havia uma tripulação de 22 pessoas e um navio prontos, mas o capitão inscrito para a missão havia tido um imprevisto.

A ativista Carola Rackete, capitã do barco de resgate SeaWatch 3, em frente a bloqueio dentro da floresta Dannenroeder, na Alemanha
A ativista Carola Rackete, capitã do barco de resgate SeaWatch 3, em frente a bloqueio dentro da floresta Dannenroeder, na Alemanha - Thomas Lohnes - 15.out.20/AFP

Carola trabalhava como voluntária para a SeaWatch por um mês ao ano, em média, e estava na lista de contatos de emergência da organização. Em três dias, chegou a Malta e assumiu a operação.

Como capitã do SeaWatch3, ela acabou resgatando um grupo de mais de 50 pessoas num bote inflável precário. Havia homens, mulheres e crianças. Treze estavam em situação emergencial e foram levados para a costa italiana. O restante ficou no SeaWatch à deriva.

Depois de semanas de negociações frustradas com autoridades locais e europeias, Carola desobedeceu a guarda costeira italiana e atracou no porto da ilha de Lampedusa, no sul da Itália, para desembarcar em segurança 40 solicitantes de refúgio, exaustos e desesperados. E foi presa.

Em 2019, mais de 110 mil pessoas entraram na Europa por rotas marítimas mediterrâneas, e pelo menos 1.286 morreram no percurso, segundo dados da Organização Internacional para Migrações (OIM).

Carola Rackete, 31, capitã do Sea-Watch 3 na chegada a Lampedusa, Itália
Carola Rackete, 31, capitã do SeaWatch 3 na chegada a Lampedusa, na Itália - Guglielmo Mangiapane - 29.jun.2019/Reuters

A imagem da jovem de cabelos rastafaris sendo conduzida por policiais correu o mundo. A cena foi celebrada pelo então ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, do partido de ultradireita Liga, que a chamou de criminosa.

Organizações de direitos humanos e autoridades europeias elogiaram a coragem de Carola, que teria colocado vidas acima de regulações migratórias, numa ação que a capitã classificou à época como desobediência civil.

Isso explica a dedicatória escolhida para o seu primeiro livro, "É Hora de Agir" (Arquipélago Editorial), lançado agora no Brasil: "A todas as vítimas de obediência civil". Estratégica, Carola aproveitou os holofotes para projetar na obra as causas ambientais e humanitárias nas quais está envolvida até o último dreadlock.

Trata-se de um chamado à ação, uma convocação, em que Carola articula destruição ambiental, crise climática e desigualdade social para indicar sua urgência em criar organização política e mobilização social para mudar estruturas de poder.

"No Mediterrâneo, fica muito claro como a União Europeia [UE] está fingindo proteger direitos humanos ou ser uma liderança em melhorias no campo climático, ao mesmo tempo em que não é nada disso. A Alemanha, por exemplo, gosta de ser retratada como a líder da transição energética ao mesmo tempo em que nós, alemães, concedemos os maiores subsídios de toda a Europa para companhias de combustível fóssil, as mais poluentes de todas", critica a ativista.

"O mesmo é verdade com direitos humanos. Gostamos de acusar a China ou os EUA por qualquer coisa que estejam fazendo, o que é importante e correto, mas ao mesmo tempo nós contratamos países como Turquia e Líbia para impedir pessoas de chegarem para pedir asilo", afirma.

"Estamos até mandando essas pessoas de volta para países onde sabemos que elas estão expostas a graves violações de direitos humanos. O muro de Donald Trump não está nem perto do que a UE está fazendo em termos de abusos de direitos humanos. É tudo completamente hipócrita."

Para Carola, ela teria praticado crime como capitã do SeaWatch3 se tivesse seguido as orientações das autoridades italianas, levando as pessoas salvas do afogamento de volta para o território de onde haviam fugido, a Líbia.

O país do norte da África está mergulhado numa guerra civil há quase dez anos, em meio a disputas entre milícias e denúncias de prisões, tortura e morte de refugiados que cruzam seu território para chegar ao Mediterrâneo.

"Desde 2016, quando fiz meu primeiro trabalho voluntário no Mediterrâneo, a situação mudou bastante. No começo, havia centros de coordenação dos resgates marítimos realizados pela guarda costeira, por forças da UE e por várias embarcações da sociedade civil —desde grandes ONGs como Save The Children e Médicos Sem Fronteiras, até pequenas, como a SeaWatch", lembra.

"Mas tudo mudou. Os europeus restringiram a entrada das pessoas e decidiram externalizar suas fronteiras marítimas e militarizar as fronteiras terrestres. Foram criados acordos com outros atores para restringir ao máximo a possibilidade de essas pessoas colocarem os pés numa embarcação no Mediterrâneo rumo à Europa."

Para completar o cenário, desde junho de 2019, quando Carola foi presa, o SeaWatch3 não está autorizado a navegar. "Autoridades alegam uma questão de segurança em relação ao número de banheiros, suficientes para determinada tripulação, mas não para centenas de pessoas resgatadas", conta ela, que enxerga o recrudescimento da fiscalização como uma estratégia de contenção da atuação das ONGs.

Carola Rackete é escoltada por policiais na Itália, dois dias após atracar o barco humanitário SeaWatch 3 na costa do país - Guglielmo Mangiapane - 1.jul.2019/Reuters

"É óbvio que isso é ridículo se você pensar que o sistema de banheiros de um navio faz com que pessoas morram no mar porque não existem navios de resgate suficientes ou apenas aqueles contratados para levar as pessoas para territórios onde elas estão em grande risco."

A criminalização de ajuda humanitária internacional independente já vinha sendo observada havia tempos por pesquisadores de movimentos sociais e da área da Justiça. Esses eventos foram batizados de crimes de solidariedade, um termo que parece obra do absurdo.

Para a ativista, a crise humanitária no Mediterrâneo é uma questão de justiça social que remete aos tempos da colonização. "A UE está protegendo seus interesses econômicos. Porque é evidente que a base de toda a riqueza do bloco está no seu passado colonial e na exploração do sul global. E eles querem apenas continuar a fazer isso porque seguem lucrando com ele."

É a economia, diz Carola, que conecta todos esses pontos. "Um sistema que busca mais e mais crescimento econômico a partir de uma exploração de recursos naturais que está destruindo o sistema climático. Ao mesmo tempo, esse sistema explora o trabalho das pessoas, desde os tempos da escravidão e chegando aos dias de hoje, quando temos contratos e condições horríveis de trabalho para garantir o lucro de um grupo de indivíduos ricos", analisa.

"Se as pessoas não fossem tão pobres a ponto de mal conseguirem sobreviver, sem segurança alimentar ou segurança do trabalho ou parâmetros mínimos de saúde ou algo parecido, elas não buscariam desesperadamente outro lugar para ir", diz. "E isso mostra que, se quisermos melhorar as coisas, tanto do ponto de vista do meio ambiente, tão explorado pela indústrias, quanto do ponto de vista das pessoas, vamos ter de chegar numa redistribição global das riquezas."

Para ela, são insuficientes as medidas hoje em debate para mitigar a crise climática, e é ilusão a crença de que o chamado capitalismo verde vá salvar o mundo. "Temos de deixar claro para as pessoas que comprar uma escova de dentes de bambu não é o suficiente. Precisamos organizar ações coletivas, mobilizações de larga escala e sempre conectar as questões de justiça social e justiça ambiental", diz ela.

"O maior desafio deste debate é ganhar disputas em torno da ideia de crescimento econômico verde, num discurso que tem força na UE e nos EUA de Joe Biden", avalia. "Simplesmente substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis pode sustentar o capitalismo em uma versão sustentável. Mas continuar explorando de maneira irresponsável as reservas de minérios ou a força de trabalho do sul global não resolve os problemas da ecologia nem as grandes questões de justiça social que hoje vemos."

É Hora de Agir

  • Preço R$ 49,90 (192 págs.)
  • Autor Carola Rackete
  • Editora Arquipélago Editorial
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