Governo Trump torna novo exame para cidadania dos EUA mais longo e mais difícil

Prova reformulada traz questões mais sutis e cobra conhecimentos sobre direitos estaduais e Guerra do Vietnã

Miriam Jordan Simon Romero
The New York Times

A administração Trump está introduzindo mudanças amplas no exame que imigrantes precisam fazer para se tornar cidadãos dos Estados Unidos, injetando elementos de filosofia conservadora e tornando a prova mais difícil para muitas pessoas que ainda não dominam o inglês.

O novo exame de cidadania que entrou em vigor na terça-feira (1º) é mais longo que antes. Os candidatos agora precisam acertar 12 de 20 perguntas, em testes nos quais antes eram dez perguntas e seis acertos exigidos. A prova também é mais complexa.

Perguntas simples de geografia foram eliminadas e dezenas de questões possíveis foram incluídas, algumas delas apresentadas em linguagem complexa e com nuances que podem confundir candidatos que não reflitam cuidadosamente sobre elas.

Das 18 questões do exame anterior que foram eliminadas, 11 eram questões com respostas simples, às vezes exigindo uma palavra apenas.

Imigrantes nos EUA participam de cerimônia de naturalização em Miami, na Flórida, em 2018
Imigrantes nos EUA participam de cerimônia de naturalização em Miami, na Flórida, em 2018 - Joe Raedle - 17.ago.18/Getty Images/AFP

O novo exame acrescenta mais um obstáculo para os imigrantes que almejam tornar-se cidadãos eleitores. Ele chega nos últimos dias de uma administração que já impôs barreiras novas e onerosas à imigração e que limita a capacidade de imigrantes que já vivem no país de aspirar à residência legal e, um dia, à naturalização.

Uma questão que está sendo especialmente criticada propõe uma nova resposta à pergunta “quem um senador dos EUA representa?”. Antes, a resposta correta era “todas as pessoas do estado”. No novo exame, é todos os "cidadãos” do estado.

Um tópico que mereceu uma questão nova é a 10ª Emenda constitucional, que reserva aos estados todos os poderes não especificamente previstos para o governo federal. É a parte da Declaração dos Direitos favorita de conservadores que questionam a autoridade federal.

Outra questão nova, “Por que os Estados Unidos entraram na Guerra do Vietnã?”, tem só uma resposta considerada correta: “Para barrar o avanço do comunismo”. O exame não leva em conta a questão dos protestos intensos ou do enorme número de mortes provocadas pela guerra.

Organizações de imigrantes, incluindo algumas entidades que ajudaram milhares de pessoas a completar seus pedidos de naturalização nos últimos dez anos, avisam que o novo exame pode dificultar o esforço de imigrantes pobres vindos de países que não falam inglês para se tornarem cidadãos, e, em última análise, pode limitar o número de imigrantes que votam.

Críticos disseram também que o novo exame pode gerar atrasos ainda maiores em um sistema já onerado por um acúmulo de processos atrasados.

“Trata-se de um último esforço feito por uma administração que está de saída para impedir pessoas de realizar seu sonho de se tornarem cidadãs dos EUA”, comentou Eric Cohen, diretor-executivo da organização sem fins lucrativos Immigrant Legal Resource Center, de San Francisco, que ajuda residentes permanentes a candidatar-se à cidadania americana.

“Não existe razão legal ou regulatória para fazer isso”, disse Cohen, destacando que o exame de cidadania não havia sido modificado desde 2008. “Decidiram por conta própria mudar a prova, por razões políticas.”

Dan Hetlage, porta-voz do Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA (USCIS), a agência que supervisiona o processo de naturalização, disse em comunicado que a prova foi revista “para garantir que continue a ser um instrumento que faz uma avaliação abrangente do conhecimento dos candidatos sobre a história, o governo e os valores americanos e que apoia sua assimilação”.

O presidente eleito, Joe Biden, tem a opção de revogar as modificações, mas, se isso for feito, é provável que só ocorra vários meses após o início do ano.

O novo exame será obrigatório para todas as pessoas que se candidatam à cidadania americana a partir de 1º de dezembro. Mas frequentemente há um lapso de vários meses entre o momento em que um candidato apresenta seu pedido e quando uma entrevista é marcada para ele com um representante do USCIS, de modo que alguns candidatos ainda vão fazer a prova antiga.

O índice de aprovação atual no exame de cidadania é de 91%, segundo o USCIS. Uma análise do novo exame feita pela Rede Católica de Imigração Legal sugeriu que 40 questões das cem originais permanecem iguais no novo exame. As restantes são questões novas ou reformuladas.

Alguns imigrantes já manifestam nervosismo em relação às mudanças no exame.

O eletricista salvadorenho Nefi Reyes fez o exame anterior neste ano e foi aprovado com 100% de acertos. Fazia 30 anos desde que ele atravessara a fronteira dos Estados Unidos para fugir da guerra civil em El Salvador. Ele votou nos EUA pela primeira vez em novembro.

“Sinto-me uma pessoa de sorte por ter conseguido fazer”, disse Reyes, falando das alterações na prova. Ele contou que teve dificuldade em memorizar os nomes das colônias americanas e que o novo exame exige que o candidato dê os nomes não de três dos 13 estados originais, como ele conseguiu fazer, mas cinco.

Luz Gallegos é diretora-executiva da organização sem fins lucrativos Todec, que presta assistência a imigrantes no sul da Califórnia. Ela contou que sua ONG assistiu a um aumento grande no número de imigrantes interessados em fazer o exame de cidadania, não apenas para poderem votar na eleição de novembro mas também porque muitos esperavam poder evitar o novo exame. “Já é difícil para eles decorarem todas as respostas da prova de educação cívica no exame atual”, disse ela.

Não são apenas imigrantes que acham difícil o exame de cidadania, mesmo em sua versão anterior.

Segundo pesquisa nacional feita em 2018 pela Woodrow Wilson National Fellowship Foundation, um em cada três americanos conseguiria passar em uma prova de múltipla escolha composta por questões tiradas do exame anterior. A maioria dos entrevistados na pesquisa não soube dizer quantos juízes compõem a Suprema Corte ou quais países os EUA combateram na Segunda Guerra Mundial.

O exame mudou consideravelmente ao longo do tempo. Décadas atrás havia uma questão que indagava a altura do Monumento de Bunker Hill –passando por cima, segundo críticos, da questão mais importante, que seria o que o monumento representa. Outra pergunta, “quantas estrelas há em uma moeda de 25 centavos?”, foi eliminada quando se notou que a resposta correta dependia da moeda.

A nova prova de cidadania é uma entre uma série de iniciativas adotadas pela administração Trump para barrar a imigração ilegal e também limitar a imigração legal. A administração dificultou o processo de obtenção de asilo, aumentou os custos do pedido de cidadania e, sob o manto do coronavírus, suspendeu a emissão de “green cards” para imigrantes que buscam trabalho temporário no país.

Tomadas em conjunto, essas medidas representam uma quebra em relação ao apoio historicamente bipartidário à naturalização de imigrantes que vivem e trabalham nos Estados Unidos e abraçam a oportunidade de tornar-se cidadãos americanos.

Os candidatos já precisam preencher um formulário de 20 páginas, ser aprovados em exames de antecedentes, apresentar uma série de documentos e passar em exames de inglês e educação cívica.

Neste ano, o governo quis elevar a taxa cobrada pela naturalização de US$ 725 (R$ 3.713) para US$ 1.170 (R$ 5.993) —ou US$ 1.160 (R$ 5.941) se a solicitação fosse encaminhada online—, mas em setembro um juiz federal da Califórnia bloqueou o aumento.

Tradução de Clara Allain

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