Itália projeta centros de vacinação com tema de flores para atrair pessoas para imunização

Construção foi desenhada pelo urbanista Stefano Boeri; espécie escolhida é primeira flor a brotar após inverno

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Jason Horowitz
Roma | The New York Times

Este foi um ano de sofrimento para a Itália. A primeira onda de coronavírus pegou o país de surpresa e fez dezenas de milhares de mortos. A segunda onda pegou o governo desprevenido, por alguma razão, e já matou outros milhares. E os italianos, loucos para receber a nova vacina, vêm tendo dificuldade em conseguir simples vacinas antigripais ou em entender se terão de passar as férias de fim de ano em casa.

Para alegrar as coisas enquanto a população aguarda a vacina, o governo buscou a ajuda do arquiteto e urbanista Stefano Boeri. Conhecido principalmente por converter arranha-céus de Milão em chamadas florestas verticais, ele está tentando ajudar seu país com “flower power” arquitetônico —projetando 1.500 pavilhões com tema de prímula nos quais a vacina contra a Covid será distribuída.

Imagem gerada por um computador mostra um dos pavilhões projetados pelo arquiteto Stefano Boeri em Roma
Imagem gerada por um computador mostra um dos pavilhões projetados pelo arquiteto Stefano Boeri em Roma - Stefano Boeri/via Reuters

“A prímula é a primeira flor que brota depois do inverno. Isso é algo que até qualquer criança sabe”, disse Boeri. Para ele, sua visão doos pavilhões transmite “uma mensagem forte que todos podem entender”.

A Itália aceitou a proposta. No domingo (27), profissionais de saúde foram os primeiros no país a receber a vacina, dada sob cartazes com o slogan do programa oficial de vacinação contra a Covid-19: “Com uma flor, a Itália revive”. O projeto começou há cerca de um mês, quando Boeri recebeu uma ligação de Domenico Arcuri, comissário especial para a emergência do coronavírus.

Arcuri explicou que hospitais e academias de ginástica vazias serão os principais locais de vacinação, mas que também haveria necessidade de pavilhões externos temporários. O programa que prevê vacinar pelo menos 40 milhões de italianos, para que o país possa alcançar a chamada imunidade de rebanho, está previsto para durar pelo menos um ano e meio.

Boeri aceitou o convite imediatamente. Ele e sua equipe trabalharam furiosamente por 15 dias para preparar uma proposta. O urbanista disse que eles buscavam uma imagem que pudesse ser reconhecida universalmente como positiva, quer fosse “por uma criança de quatro anos, um intelectual do Norte do país ou um jovem migrante”.

Foram desconsideradas imagens antagônicas que pudessem “promover ansiedade”, como uma simples barra atravessada em cima do vírus espinhoso, mas também houve o cuidado de não promover a ideia de que a vacina pode nos libertar. Então, a equipe rejeitou propostas como uma imagem de dois jovens abraçados ou de uma máscara voando para longe, para o espaço não contaminado.

Quando a ideia da flor foi aventada, achou aceitação imediata. “Começamos a pensar que a mensagem precisava ser tão direta que os próprios pavilhões deveriam se assemelhar a flores”, disse Boeri.

A dúvida seguinte foi qual flor escolher. É uma decisão complicada em um país onde diferentes flores frequentemente são identificadas com partidos políticos distintos. “Mergulhamos numa loucura sobre a relação entre política e botânica”, contou o arquiteto.

A ideia original do arquiteto era apostar em uma margarida, mas então ele e sua equipe lembraram que essa flor é associada a um partido de centro-esquerda que já não existe mais.

Eles rejeitaram uma flor alpina que é o símbolo da Liga nacionalista. Flertaram com a ideia de um girassol amarelo, mas isso parecia se assemelhar demais às estrelas amarelas do populista Movimento Cinco Estrelas. Quando a prímula entrou em consideração, todos acharam que era a escolha óbvia.

Boeri apresentou o plano ao primeiro-ministro Giuseppe Conte e ao ministro da Saúde italiano, Roberto Speranza. Eles apreciaram a “positividade da mensagem” e lhe agradeceram por seu trabalho, disse o arquiteto. Mas, como a prímula pode ter muitas cores distintas, “discutimos um pouco a questão da cor”.

Conte gostou da cor magenta escolhida por Boeri, mas também achou que amarelo seria atraente, contou o arquiteto. A escolha final foi pelo magenta. Agora o governo vai abrir uma licitação para construtoras e firmas de publicidade, que podem propor alterações.

Mas, segundo a proposta como está agora, os pavilhões serão construídos de madeira e tecidos biodegradáveis e terão boa ventilação, iluminação e salas de espera. A ideia é que sejam centros de vacinação convidativos.

Uma imagem gerada por computador mostra pavilhões para a campanha de vacinação contra a Covid-19, projetada pelo arquiteto Stefano Boeri, em diferentes lugares na Itália
Uma imagem gerada por um computador mostra pavilhões para a campanha de vacinação contra a Covid-19, projetada pelo arquiteto Stefano Boeri, em diferentes lugares na Itália - Stefano Boeri/via Reuters

O vídeo de divulgação do projeto mostra flores desabrochando em milhares de praças espalhadas pelo país. Foram imaginados modelos dos pavilhões redondos brancos, estampados por cima com flores de cor magenta, na Piazza del Popolo, em Roma, na Piazza del Duomo, em Milão, e em Triste, Nápoles e outras cidades. A impressão deixada pelos modelos é que Scooby-Doo deu uma volta pela Itália numa Máquina Misteriosa gigante, perdendo pneus ao longo do caminho.

Boeri disse que cidades menores terão coretos com formas de flores. Em todos os casos, a prímula vai assinalar o local onde são dadas as vacinas. Chegou-se a propor que as pessoas já vacinadas usem pins de prímula para se identificarem. “A prímula é o símbolo da vacinação”, disse Boeri. “Onde quer que você seja vacinado, haverá uma prímula.”

Tradução de Clara Allain

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