Descrição de chapéu Venezuela

'Não haverá solução para a Venezuela sem voto', afirma opositor

Ex-chavista, Henri Falcón defende participação na eleição para a Assembleia Nacional

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Buenos Aires

A maioria dos partidos de oposição na Venezuela decidiu boicotar a eleição legislativa no domingo (6) —e há alguns impedidos de concorrer pela ditadura de Nicolás Maduro. Entre as poucas siglas toleradas pelo regime está a Avanzada Progresista. E seu presidente, Henri Falcón, 59, divide opiniões no país.

Ex-chavista, ex-governador do estado de Lara e ex-militar, Falcón é visto pelo grupo opositor comandado pelo presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, como membro de uma oposição fantoche, amena e que aceita compor com a ditadura. Para outros, no entanto, Falcón oferece a única solução possível para vencer a ditadura: por meio do voto e do diálogo.

Ele, que liderava as pesquisas, foi o candidato derrotado por Maduro na eleição presidencial de 2018, em que várias irregularidades foram apontadas. À Folha, por telefone, diz ainda acreditar no voto.

Henri Falcón durante uma reunião com apoiadores em Caracas - Carlos Garcia Rawlins - 23.abril.2018/Reuters

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Por que o senhor crê ser importante participar dessas eleições? É preciso destacar que participar de qualquer eleição deve ser a convicção de todos os políticos que se consideram democráticos. Para estes, só existe o voto como recurso para a transformação de uma situação que não nos agrada ou que acreditamos que está prejudicando o país. A política com "p" maiúsculo é feita de voto, debate e diálogo.

Nosso partido sustenta uma posição coerente, por isso participamos em 2018 das eleições presidenciais e vamos participar de todos os processos que venham a ocorrer.

Como o senhor espera que seja essa nova Assembleia Nacional, sem a participação da maioria dos partidos de oposição? Nós esperamos que ela seja diversa e plural, como qualquer parlamento. Que ela produza leis, e não complicações para o país. E que exerça sua tarefa de controlar o Executivo, que faça parte do sistema de pesos e contrapesos de uma democracia.

O senhor não acredita que a atual Assembleia Nacional cumpra esse papel? De maneira nenhuma. É um parlamento de maioria opositora que chegou de modo legítimo ao poder. E, com essa legitimidade conquistada de modo limpo, poderia ter feito muito para melhorar as condições do país e para colocar freios ao Executivo. Porém, escolheram um caminho diferente, o do extremismo. Entraram numa aventura, criaram um atalho nada democrático que criou falsas expectativas na população que não foram cumpridas.

Conseguiu congregar muitos apoiadores, mas o que propôs foi um caminho sem rumo. Eles não podiam usar o voto de confiança que ganharam de seus eleitores para flertar com a ideia de um golpe de Estado, de uma invasão da Venezuela pelos Estados Unidos.

Pelo que os parlamentares da Avanzada Progresista irão lutar, caso sejam eleitos? Primeiro, para que a Assembleia Nacional não seja um ringue de boxe, que se possa dialogar e propor soluções para a crise que enfrenta nosso país. Defendemos que o Conselho Nacional Eleitoral precisa ser reformado, pois o que temos hoje é provisório, queremos um como manda a lei, que seja aprovado pelo Parlamento. E que possamos estabelecer um diálogo com outros setores da sociedade, com as universidades, com os sindicatos e a igreja. A solução para a crise da Venezuela excede o limite da política e deve envolver diversos setores.

Como a atual Assembleia Nacional poderia ajudar a solucionar a crise na Venezuela se foi esvaziada de poder, se muitos de seus integrantes foram presos ou perseguidos, se as leis que votaram foram vetadas pela corte suprema? Não acredito que isso teria ocorrido se eles tivessem se concentrado em fazer política. Se não tivessem adotado uma via extremista. Se não tivessem embarcado nessa ficção que é o tal governo interino, uma imensa construção de marketing. Sou crítico ao governo, somos opositores ao chavismo, mas não acredito que seja essa a forma de enfrentá-lo, pois isso apenas aumentou a crise humanitária e econômica que vive o país. O governo de Maduro é incapaz, mas a saída não é tirá-lo pela força ou por qualquer tipo de pressão que não seja o voto.

O senhor não acredita que haverá fraude nessa eleição? Na sua opinião, não houve fraude nas anteriores? Não houve fraude. Houve, sim, o uso irregular da máquina do Estado para fazer política, para pressionar o voto de funcionários públicos. Essa ideia que a própria oposição mais radical difunde de que haverá fraude com certeza colabora para que a participação seja baixa. E se a participação é baixa, só quem vota são os chavistas, e assim vamos ter uma Assembleia Nacional chavista.

Se houver uma votação massiva, não há possibilidade de o PSUV [partido do regime] ter maioria. Se todos forem votar, a tecnologia não será alterada, pois não há nada de errado com as máquinas ou com o sistema de contagem. Tanto que, em 2015, a oposição ganhou.

Somos opositores do chavismo e queremos uma mudança, e é por isso que chamamos ao voto. Quem boicota uma eleição e age de maneira belicosa não está colaborando para resolver o problema, e sim levando os venezuelanos para um caminho sem saída. Não haverá solução para a Venezuela sem voto.


Raio-x

Henri Falcón, 59

Presidente do partido Avanzada Progresista, de oposição ao ditador Nicolás Maduro. É ex-militar e ex-governador do estado de Lara.

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