Descrição de chapéu Retrospectiva da década

Onda populista de direita teve auge atrapalhado pela pandemia

Movimentos nacionalistas e populistas devem seguir vivos mesmo com derrota de Donald Trump, seu maior símbolo

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

As notícias sobre a morte do populismo se mostraram exageradas. Muitos estudiosos previam que o apoio a líderes populistas desabaria após o desempenho pífio de muitos desses governantes durante a pandemia de Covid-19. Mas o populismo se provou resiliente, e a onda que tomou conta do planeta nos anos 2010 está longe de refluir.

Na última década, o mundo foi surpreendido pela eleição de Donald Trump nos EUA, em 2016, e pela vitória do brexit no Reino Unido, no mesmo ano. Países como Áustria, Brasil, Itália, Índia, Hungria e Polônia assistiram à ascensão de partidos e figuras populistas.

Ao lado desses recém-chegados da direita, persistiram regimes populistas de esquerda, como o chavismo na Venezuela, com Nicolás Maduro à frente, e o governo do também ditador Daniel Ortega na Nicarágua.

Ao final da década, cerca de 20 nações são governadas por líderes cuja visão maniqueísta de mundo é o “nós contra eles”: o povo genuíno, patriota, trabalhador, religioso, composto por cidadãos de bem, contra a elite arrogante, corrupta e traidora.

O presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington, um dia após autorizar oficialmente a transição do governo para o democrata Joe Biden - 24.nov.2020/Mendel Ngan/AFP

O coronavírus era visto como um divisor de águas. “O ano de 2020 foi muito ruim para os populistas, ficou claro que não se enfrenta uma pandemia com memes ou apelando para emoções e divisão do eleitorado”, diz Mauricio Santoro, cientista político e professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). “É preciso implementar medidas práticas como vacinação, quarentena, isolamento. E os populistas foram muito mal.”

Mas o populismo sobreviveu à incompetência atroz de vários de seus representantes. Ainda que tenha sido derrotado na eleição presidencial, Trump obteve mais de 74 milhões de votos —11 milhões a mais do que em 2016, um número que parece ignorar que os EUA são os recordistas em mortes em decorrência da Covid-19 e que a economia americana, grande trunfo do republicano, afundou em 2020.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro obteve nível recorde de aprovação, de 37%, em plena pandemia, apesar de o Brasil ter o segundo maior número de mortes por coronavírus e o desemprego ter atingido 14,6% no terceiro trimestre de 2020, diante de 11,8% no mesmo período do ano anterior.

Muitos dos populistas que já haviam consolidado seu poder aproveitaram a pandemia para intensificar a aplicação de medidas autoritárias. Na Hungria, onde o Fidesz voltou ao poder em 2010, o primeiro-ministro Viktor Orbán apertou o cerco contra a imprensa e as universidades.

Na Índia, o premiê Narendra Modi, em seu segundo mandato, continua a radicalizar a agenda de defesa da maioria hindu do país, em detrimento dos muçulmanos. Na Turquia, Recep Tayyip Erdogan ampliou os expurgos de oposicionistas.

O populismo continua vigoroso porque a matéria-prima que levou à ascensão desse estilo de governo nos anos 2010 ainda é farta. O evento catalisador da nova geração de populistas foi a crise financeira de 2008.

No Brasil, o movimento teve um certo atraso e ganhou corpo a partir das manifestações de 2013, na esteira dos escândalos de corrupção investigados pela Operação Lava Jato e da recessão econômica desse período.

Já havia populistas antes, mas a crise financeira fortaleceu o movimento ao deixar claro que gestões moderadas fracassaram frente a milhões de órfãos da globalização.

E é cada vez maior o choque entre os valores de uma elite de classe média alta dos grandes centros, instruída, cosmopolita, globalizada, em oposição à população menos instruída, que valoriza mais as tradições, a religião, a família e se sente oprimida pelo progressismo.

Essa guerra cultural foi traduzida à perfeição em discurso da então primeira-ministra britânica Theresa May em 2016, após o brexit. “Muitas pessoas em posições de poder se comportam como se tivessem mais em comum com as elites internacionais do que com as pessoas que encontram nas ruas”, disse ela, defendendo a opção de deixar a União Europeia, influenciada por sentimento anti-imigração.

A ex-primeira ministra britânica Theresa May não conseguiu chegar a um acordo para o Brexit - Hannah McKay/Reuters

Os populistas sempre exploraram essas divisões e esses ressentimentos. Para Kirk Hawkins, professor associado da Universidade Brigham Young, o que tornou essa onda única é que o populismo saiu de seus habitats naturais, como a América Latina, e chegou aos Estados Unidos e ao Reino Unido, que eram praticamente imunes.

Deborah Barros Leal Farias, professora assistente da Universidade de New South Wales, em Sidney, destaca que uma das inovações da geração mais recente de populistas é o uso massivo de campanhas de desinformação por redes sociais.

A ideia é eliminar o filtro da imprensa tradicional e se comunicar diretamente com os apoiadores, muitas vezes disseminando mentiras ou distorções, além de campanhas que acirram a polarização e a divisão na sociedade.

Essa onda de populismo veio, na maior parte das vezes, acompanhada do nacionalismo, o que teve grandes reflexos na ordem global. Com os Estados Unidos puxando a fila de países insurgentes contra um suposto globalismo, que seria a tentativa de instituições transnacionais desafiarem a soberania dos governos nacionais, o sistema multilateral se viu enfraquecido.

“Se os EUA, principais criadores dessa ordem global, vão se retirando, a China naturalmente ocupa esse espaço”, diz Guilherme Casarões, cientista político e professor da FGV-EAESP. “Quando os americanos dizem que a Organização Mundial da Saúde virou um puxadinho do Partido Comunista chinês, é quase uma profecia autorrealizável, porque, quando os americanos se retiram, aí, sim, os chineses aumentam influência.”

Embora o populismo esteja longe de morrer, ele inicia os anos 2020 transformado. Os populistas se elegeram como outsiders, mas agora são incumbentes e precisam explicar por que não conseguiram revolucionar a política.

Entretanto, enquanto os líderes moderados continuarem ignorando os problemas que levaram à ascensão desse movimento, o populismo vai continuar à espreita.

“Nos anos 2020, fatalmente teremos uma década de tensões sociais e desigualdade econômica, e um discurso populista continuará despertando apoio”, diz Casarões.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.