Profissionais de saúde de Nova York começam a se digladiar para conseguir vacina

Funcionários de departamentos de risco mais baixo receberem imunizante antes de médicos da linha de frente

Joseph Goldstein
Nova York | The New York Times

No Hospital Infantil NewYork-Presbyterian Morgan Stanley, um dos mais conceituados de Nova York, espalhou-se um rumor que a fila para receber a vacina contra o coronavírus, no nono andar, não era vigiada e que qualquer pessoa podia entrar nela às escondidas e ser vacinada.

Segundo as regras, os profissionais de saúde mais expostos ao vírus deveriam ter prioridade, mas não demorou para funcionários de departamentos de risco mais baixo, incluindo alguns que passaram boa parte da pandemia trabalhando de suas casas, receberem o imunizante.

O lapso ocorreu nas primeiras 48 horas após a chegada das primeiras doses da vacina à cidade e provocou indignação entre profissionais do hospital, levando a direção a pedir desculpas.

Profisisonal de saúde de unidade especial para pacientes com Covid-19 em Nova York durante pausa
Profisisonal de saúde de unidade especial para pacientes com Covid-19 em Nova York durante pausa - Johannes Eisele - 17.mai.20/AFP

O dr. Craig Albanese, alto executivo do NewYork-Presbyterian Morgan Stanley, escreveu em e-mail aos funcionários do hospital ao qual o New York Times teve acesso: “Estou profundamente decepcionado e entristecido por isso ter acontecido”.

A chegada de milhares de doses da vacina a hospitais de Nova York foi saudada com expressões de esperança por parte de médicos e enfermeiros que trabalharam na primeira onda devastadora de Covid em março e abril. Mas os estoques disponíveis da vacina ainda são muito limitados, e alguns hospitais parecem estar se atrapalhando com sua distribuição.

Em entrevistas concedidas para esta reportagem, mais de meia dúzia de médicos e enfermeiros em hospitais da região de Nova York se disseram indignados com o modo como a vacina está sendo distribuída em seus locais de trabalho.

Eles descreveram ao New York Times o que aconteceu, mas a maioria pediu para seu nome não ser usado, isso porque os hospitais estão se mostrando dispostos a demitir ou punir funcionários por falarem com a imprensa durante a pandemia.

Médicos e enfermeiros de alguns grandes hospitais de Manhattan contaram que, as acessarem as redes sociais, pararam diante de cada selfie postada por um de seus colegas no momento em que foram vacinados para avaliar rapidamente: será que essa pessoa mereceu ser vacinada antes de eles próprios?

“Estamos nos sentindo desrespeitados e desvalorizados por termos sido colocados como segunda prioridade de vacinação”, escreveu um grupo de anestesistas do Hospital Mount Sinai em carta aos administradores do hospital, no fim de semana.

Profissionais de saúde disseram que rumores estão se disseminando em grupos de WhatsApp e bate-papos em salas de cirurgia. Começaram a circular boatos sobre um cirurgião plástico que conseguiu ser vacinado logo no início e sobre doses da vacina que teriam sido jogadas fora em um hospital de Manhattan devido a planejamento deficiente.

Em grupos, médicos discutem como tentar adiantar-se para receber a vacina e se devem ou não fazê-lo.

Alguns médicos do Hospital Mount Sinai disseram a outros que é possível “dar um jeito” de receber a vacina, simplesmente entrando na fila e dizendo que você realiza “procedimentos ligados à Covid”, contou um médico do hospital, pedindo anonimato por temer retaliações.

Um médico do Hospital Infantil Morgan Stanley comentou: “Uma coisa está clara: estamos dispostos a pisar em cima uns aos outros para conseguir a vacina primeiro”.

Muitos dos boatos que circulam já foram desmentidos. Mesmo assim, disse outro médico do Mount Sinai, eles exemplificam o clima de desconfiança crescente e uma atitude de “cada um por si”.

Profissionais de saúde, residentes e funcionários de casas de repouso para idosos formam a chamada Fase 1 do plano de distribuição da vacina anti-Covid no estado de Nova York.

Cerca de 2 milhões de pessoas estão nesse grupo, e a quantidade de doses da vacina recebida inicialmente pelo estado significa que a Fase 2, que abrange trabalhadores essenciais, não deve começar antes do final de janeiro. As autoridades já disseram que a distribuição ampla da vacina para a população não deve começar antes do verão (ou seja, por volta de julho-agosto, no hemisfério norte).

Mas o estado deixou a cargo de cada instituição como traçar seu próprio plano de vacinação na Fase 1.

Na primeira semana de vacinação, muitos hospitais escolheram uma gama grande de profissionais –enfermeiros, médicos, faxineiros— que trabalham em salas de emergência e UTIs para serem os primeiros a ser vacinados. Mas o ambiente nos hospitais mudou nos dias seguintes ao clima de festa que acompanhou as primeiras vacinações.

Questionada sobre profissionais furando a fila de vacinação no Hospital Infantil Morgan Stanley, a administração do hospital respondeu: “Temos orgulho por termos em pouco mais de uma semana vacinado milhares de funcionários que trabalham diretamente com pacientes. Vamos continuar a fazê-lo até que todos recebam a vacina. Estamos seguindo as diretrizes do Departamento de Saúde do Estado de Nova York sobre a prioridade para vacinação, enfocando inicialmente os funcionários da UTI e da sala de emergência, com acesso igual a todos.”

O New York Times, porém, entrevistou quatro profissionais de saúde do Hospital Infantil Morgan Stanley, todos os quais manifestaram mágoa de colegas e consternação porque a administração hospitalar permitiu que o sistema de distribuição da vacina deteriorasse.

Em alguns lugares, médicos e enfermeiros que trabalham em unidades dedicadas exclusivamente à Covid não foram incluídos no grupo prioritário.

Ivy Vega, terapeuta ocupacional que trata pacientes com Covid em outro hospital da rede NewYork-Presbyterian, o Centro Médico Irving da Universidade Columbia, disse que ficou frustrada esperando para ser vacinada enquanto outros o eram. Ela recebeu a primeira dose da vacina na quarta-feira (23).

“Sempre houve um clima de camaradagem entre nós. Foi o que nos ajudou a continuar firmes durante a pandemia”, disse ela. “Mas agora esta coisa que deveríamos estar festejando, a chegada desta vacina tão aguardada, está criando uma rivalidade. Há um clima de competição, de ceticismo e desconfiança.”

Alguns enfermeiros do Hospital Infantil Morgan Stanley contaram que ainda não foram vacinados, uma semana depois de a vacinação ter começado.

“Acho triste que as pessoas estão começando a se digladiar”, comentou um médico que trabalha no hospital. “Você pode honestamente dizer que esse funcionário administrativo merece ser vacinado antes de mim? Não, mas o fato é que ninguém merece receber a vacina antes de ninguém.”

Albanese, diretor operacional do hospital infantil, falou por e-mail da disputa generalizada por vacinas, atribuindo parte da culpa à equipe de vacinações por não ter se limitado a imunizar as pessoas que constavam em sua lista. “Temos que priorizar as equipes que correm o risco mais alto”, escreveu ele.

No Hospital Mount Sinai, a vacinação vem sendo realizada à vista de todos, no átrio do hospital, que os funcionários atravessam diariamente durante seu trabalho ou quando vão buscar um café.

Muitos médicos e enfermeiros disseram que olham para ver quem está na fila —e checar se a pessoa se enquadra nas recomendações do governo sobre quem deve ser priorizado.

“Apesar de nossas políticas rigorosas de vacinação, temos consciência de algumas acusações de impropriedades ocorridas”, disse o hospital em comunicado. “Por questões de confidencialidade, não podemos comentar qualquer caso individual, mas quaisquer alegações de erros serão investigadas.”

Na semana passada, anestesistas (que exerceram papel crucial no tratamento dos pacientes mais enfermos durante a pandemia em Nova York) se queixaram de ter visto outros profissionais sendo vacinados antes deles. Isso levou à carta anônima enviada aos administradores do hospital.

“O momento de revolta foi atingido quando testemunhamos vacinas sendo aplicadas, aparentemente de modo aleatório, a funcionários que não faziam parte do corte originalmente previsto”, diz a carta, enviada em nome de “membros docentes interessados” do departamento de anestesiologia e medicina perioperatória. A carta foi noticiada primeiramente pelo site Politico.

Entrevistados, vários anestesistas do Mount Sinai destacaram que seus colegas em alguns outros hospitais já receberam a vacina. Eles disseram que preveem exercer papel importante na segunda onda de infecções se as hospitalizações continuarem a aumentar.

Nos últimos dias, alguns membros do departamento foram vacinados.

Tradução de Clara Allain 

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