Suécia vive aumento de casos de Covid-19, e cientistas pedem lockdown

Crescimento no número de infecções força autoridades a mudar abordagem permissiva

Thomas Erdbrink Christina Anderson
The New York Times

A Suécia reagiu de modo original à epidemia do coronavírus: evitou os lockdowns e manteve aberta a maioria dos restaurantes, bares, escolas, cinemas e academias de ginástica. Embora as taxas de mortes tenham sido altas comparadas com as de seus vizinhos nórdicos, foram semelhantes às dos maiores países da Europa.

Agora, uma segunda onda trouxe um novo surto de infecções, e os serviços de emergência de Estocolmo, a capital, estão abarrotados, obrigando as autoridades a rever sua abordagem. Elas impuseram novas restrições no final de novembro que colocam a resposta do país mais em linha com o resto da Europa —por exemplo, cortes drásticos no tamanho das reuniões públicas e o fechamento de algumas escolas.

Como teleféricos de esqui, restaurantes e bares continuam abertos, porém, as restrições mais firmes da Suécia ainda parecem pálidas diante do resto da Europa. Há preocupações crescentes de que não sejam suficientes.

Pessoas sem máscara em vagão de metrô cheio em Estocolmo, na Suécia
Pessoas sem máscara em vagão de metrô cheio em Estocolmo, na Suécia - Jonas Gratzer/Getty Images

Os leitos de tratamento intensivo nos hospitais da área de Estocolmo estão totalmente ocupados, segundo afirmou o diretor de saúde regional, Bjorn Eriksson, em entrevista coletiva nesta terça-feira (15).

"Estamos muito além de 100% da capacidade nas UTIs. Estamos nos aproximando do dobro do número de espaços disponíveis."

Desde o início da pandemia, há um debate cada vez mais intenso dentro e fora da Suécia sobre como conter o vírus. Enquanto outros países entraram em lockdown na primavera [do Hemisfério Norte], a Suécia ficou aberta, temendo que manter todo mundo trancado em casa tivesse consequências negativas em longo prazo sobre crianças e adultos e pudesse levar a depressão, suicídio, atendimento de saúde postergado e perda de empregos.

Na segunda (14), o primeiro-ministro sueco, Stefan Lofven, disse que os especialistas do país haviam subestimado a probabilidade de uma segunda onda. Foi a primeira vez que uma autoridade criticou, mesmo que obliquamente, a Agência de Saúde Pública da Suécia, o grupo de peritos encarregado de traçar políticas sobre o coronavírus, e o pesquisador de saúde pública que o chefia, Anders Tegnell.

Em outubro, Tegnell disse que esperava que a disseminação da imunidade entre a população ajudaria a Suécia a passar pelo outono com um baixo nível de casos.

"Acho que a maioria atuando nessa área não viu que a segunda onda estava chegando", disse Lofven em entrevista ao jornal Aftonbladet.

A agência de Tegnell não está mais dando todas as ordens na política relativa ao vírus, e cada vez mais ele tem de dividir o palco com os políticos, que assumiram um papel mais ativo.

Durante a primeira onda, as mortes foram elevadas, especialmente entre idosos. Na terça-feira, uma comissão especial concluiu em um relatório inicial que o governo falhou na proteção aos idosos e estava despreparado para a pandemia. Dito isso, o número de mortes entre os maiores de 80 anos foi elevado em toda a Europa.

Os números de infecções e mortes vêm aumentando constantemente desde outubro. Na terça, a Suécia alcançou um total de 320.098 casos desde o início da pandemia, enquanto sua vizinha Finlândia, com aproximadamente a metade da população sueca, tem 31.110 casos, menos de 10%.

O número total de mortes na Suécia alcançou 7.667 na terça-feira. O país hoje tem 74 mortes por 100 mil casos, menos que o Reino Unido, com 97, mas muito mais que sua vizinha Noruega, com 7.

"Tenho medo que isso piore ainda mais", disse Karin Hildebrand, cardiologista na unidade de tratamento intensivo do Hospital Sodersjukhuset, em Estocolmo. "Todos tememos as próximas semanas. Não temos pessoal suficiente para enfrentar isso."

Muitos enfermeiros se demitiram desde o início da pandemia.

"Cerca de 3.000 enfermeiros deixaram os empregos durante os primeiros dez meses do ano", disse Sineva Ribeiro, presidente da Associação Sueca de Profissionais de Saúde. "Os que ficaram têm trabalhado muito, muito duro."

E agora o governo é criticado por não fazer o suficiente.

"Eu esperava que esta grave situação mudasse as coisas, mas ontem eles abriram os teleféricos de esqui na Suécia", disse Fredrik Elgh, professor de virologia clínica na Universidade Umea e um conhecido crítico da resposta ao coronavírus no país. "Levando em conta esses atos, não acho que o governo esteja tomando as medidas firmes que eu esperava."

O governo de Lofven, na tentativa de conter a disseminação do vírus, emitiu novas recomendações no final de novembro que proibiam reuniões de mais de oito pessoas.

Enquanto as escolas para crianças de menos de 16 anos permaneceram abertas durante toda a pandemia, algumas estão sendo fechadas agora, depois de surtos. A proibição de servir bebida alcoólica depois das 22h foi implementada. Na segunda, uma agência estatal emitiu mensagens de texto em massa advertindo a população para limitar as reuniões natalinas a no máximo oito pessoas.

Mas as autoridades estão pedindo, e não ordenando. Sob a lei sueca, o governo não pode obrigar as pessoas a ficarem em casa ou multar as que desrespeitarem as recomendações.

A Holanda, que tem taxas de infecção menores que as da Suécia, entrou em lockdown total na terça. A Alemanha fechou a maior parte do país nesta quarta (16).

Restaurantes, cafés e bares continuam abrindo na Suécia. As máscaras de proteção não são recomendadas no país, porque a autoridade de saúde pública diz que não há evidência científica suficiente de que elas funcionem.

Por isso, na segunda à tarde o Chic Konditori, que vende café e doces em Estocolmo, estava cheio de clientes. Tea Kagstrom, estudante universitária de 18 anos com cabelos louros volumosos, estava tomando café com duas amigas. Perguntada por que não usava máscara, ela respondeu que não era obrigatório.

"A autoridade de saúde pública não disse que devemos usar máscaras em locais públicos", disse ela.

O governo está elaborando uma lei de emergência que lhe daria poderes para ordenar lockdowns e fechar empresas quando o vírus estiver se espalhando. Os críticos pedem medidas ainda mais duras.

"Precisamos de algumas semanas de lockdown para reduzir os números", disse Tove Fall, professor de epidemiologia molecular na Universidade de Uppsala, perto de Estocolmo. "Outros países estão adotando precauções muito maiores com níveis de transmissão mais baixos."

Alguns estão incomodados porque as máscaras não são usadas na Suécia.

"Somos a única democracia do mundo que não recomenda o uso de máscaras de proteção. Há mais de 170 países no mundo que recomendam usar máscaras. Mas aqui eles dizem que não há ciência por trás disso. É absurdo", disse Elgh, o professor de virologia.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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