Trump chega aos dias finais de sua Presidência em clima de fúria e negação

Melancólico e por vezes deprimido, segundo assessores, presidente mal comparece ao trabalho

Peter Baker
Washington | The New York Times

Nos últimos dias, o presidente Donald Trump postou ou repostou centenas de mensagens no Twitter atacando os resultados de uma eleição que perdeu. Ele mencionou o fato de a pandemia de coronavírus estar chegando a seu ponto mais tenebroso em quatro ocasiões –e, mesmo assim, apenas para declarar que tinha razão sobre o assunto e que os especialistas erraram.

Melancólico e por vezes deprimido, segundo seus assessores, o presidente mal tem comparecido ao trabalho. Ele vem ignorando as crises de saúde e econômica que fustigam o país e praticamente eliminou de seu cronograma público quaisquer compromissos não relacionados a seu esforço desesperado para reescrever os resultados da eleição.

Tem se concentrado em recompensar amigos, expurgar os desleais e punir uma lista crescente de pessoas que vê como suas inimigas e que agora inclui governadores republicanos, seu próprio secretário da Justiça e até a rede de TV Fox News.

O presidente dos EUA, Donald Trump, após participar de entrevista coletiva sobre a pandemia de Covid-19, em Washington
O presidente dos EUA, Donald Trump, após participar de entrevista coletiva sobre a pandemia de Covid-19, em Washington - Jim Watson - 17.abr.20/AFP

Os dias finais da Presidência de Trump assumiram todas as características tempestuosas de um drama do tipo visto mais frequentemente na história ou na literatura que na Casa Branca.

Sua raiva e recusa em admitir a derrota, rejeitando a realidade, evocam imagens de um soberano sitiado em alguma terra distante que se aferra obstinadamente ao poder em vez de partir para o exílio, ou então de algum monarca inglês errático que impõe sua versão da realidade à sua corte acovardada.

Trump só vai deixar o cargo em pouco mais de um mês, mas suas derradeiras semanas no poder talvez sejam apenas um prenúncio de como ele será depois que partir.

É quase certo que ele tente moldar a discussão nacional a partir de sua residência de Mar-a-Lago, na Flórida, e sua campanha implacável para desacreditar a eleição pode solapar seu sucessor, o presidente eleito Joe Biden.

Muitos republicanos gostariam de partir para a etapa seguinte, mas Trump parece determinado a continuar impondo sobre eles sua própria necessidade de vindicação e vilipêndio, mesmo depois que seu mandato chegar ao fim.

Na noite do dia 5 deste mês, Trump levou seu show de irrealidade à Geórgia, em sua primeira grande aparição pública desde a eleição de 3 de novembro.

Um comício em apoio a dois senadores republicanos que enfrentarão um segundo turno nas urnas em janeiro lhe proporcionou uma oportunidade de alto perfil para descarregar suas queixas e promover suas acusações falsas de que uma vasta conspiração teria de alguma maneira lhe roubado seu segundo mandato.

“Só para vocês entenderem, vocês sabem que nós ganhamos na Geórgia”, disse Trump a seus partidários em um Estado onde foi derrotado por 12 mil votos, acrescentando que ganhou em outros Estados onde, na realidade, também foi vencido.

“Eles trapacearam e manipularam nossa eleição presidencial, mas ainda vamos ganhá-la”, declarou, pressionando autoridades estaduais republicanas a revogar os resultados. “Só precisamos de alguém com coragem de fazer o que precisa ser feito.”

Em alguns momentos as explosões de fúria de Trump, em que ele clama contra seu destino, parecem uma história saída diretamente de William Shakespeare –em parte tragédia, em parte farsa, cheia de som e fúria.

Será Trump um Júlio César moderno, abandonado até por alguns de seus cortesãos mais próximos (até tu, Bill Barr?). Ou um rei Ricardo 3º que trava guerra contra a nobreza até ser derrubado do trono por Henrique 7º? Ou um rei Lear, queixando-se amargamente daqueles que não o amam ou o apreciam o bastante? Mais afiado que o dente de uma serpente é um eleitorado ingrato.

“É um comportamento clássico de 5º Ato”, comentou Jeffrey Wilson, da Universidade Harvard, estudioso de Shakespeare que neste ano lançou o livro “Shakespeare and Trump”.

“As forças estão sendo dizimadas, o tirano está isolado em seu castelo, está cada vez mais ansioso, sente-se inseguro, começa a lançar diatribes sobre sua soberania legítima e a acusar a oposição de traição à pátria.”

Diferentemente de qualquer de seus predecessores modernos, Trump não entrou em contato com seu adversário vitorioso, muito menos o convidou à Casa Branca para a visita pós-eleitoral que faz parte da tradição.

Ele indicou que é possível que não compareça à posse de Biden. Se isso acontecer, Trump será o primeiro presidente desde 1869 a recusar-se a tomar parte no ritual mais importante da transferência pacífica de poder.

Ele está sendo autorizado e incentivado por líderes republicanos que não querem lhe opor resistência, mesmo que muitos possam desejar, reservadamente, que ele saia de cena mais cedo e não mais tarde.

Depois de serem tachados de “perfis de covardia” por um aliado do presidente, na sexta-feira (11) 75 senadores republicanos da Pensilvânia renegaram sua própria eleição e conclamaram o Congresso a rejeitar os membros do Colégio Eleitoral de seu estado que devem eleger Biden.

Apenas 27 dos membros republicanos do Congresso ouvidos pelo jornal The Washington Post reconheceram publicamente a vitória de Biden. Trump, no sábado passado, os tachou de “RINOS” –republicanos apenas no nome.

“Ele realmente prestou atenção à base”, comentou Christopher Ruddy, amigo do presidente e executivo-chefe do Newsmax, parte da mídia noticiosa conservadora que vem funcionando como megafone para amplificar as alegações feitas por Trump.

“Foi a base quem o elegeu e, na visão dele, o elegeu uma segunda vez. E a base está muito a favor deste esforço de recontagem dos votos e quer que ele leve isso adiante. Na cabeça de Trump, ele está fazendo isto não apenas por si mesmo –está fazendo por seus partidários e pelo país. Ele está numa missão, e não será fácil fazê-lo desistir dela.”

O feed de Trump no Twitter é um festival de negação da realidade. “DE JEITO NENHUM NÓS PERDEMOS ESTA ELEIÇÃO”, escreveu ele em determinado momento nos últimos dias.

“Vencemos em Michigan por muito!”, escreveu em outro momento, falando de um estado onde foi derrotado com diferença de mais de 154 mil votos.

Trump repostou uma mensagem que visa deslegitimar Biden: “Se ele tomar posse nessas circunstâncias, não vai poder se considerado ‘presidente’, mas será descrito como #ocupantepresidencial”.

E Trump está se voltando contra seu próprio partido, enraivecido porque alguns líderes republicanos se recusaram a aceitar suas alegações infundadas e a subverter a vontade dos eleitores.

Pouco antes de chegar à Georgia, Trump telefonou ao governador Brian Kemp para pressioná-lo a convocar uma sessão legislativa especial para suplantar os resultados da eleição nesse estado. No comício, atacou o governador agressivamente por ter recusado seu pedido.

“Seu governador poderia acabar com isso muito facilmente, se soubesse o que diabos está fazendo”, disse Trump. Ele escreveu no Twitter que Kemp e o governador Doug Ducey, do Arizona, outro republicano ferrenho, “lutam contra nós com mais força do que os democratas da esquerda radical”.

Mas, ao mesmo tempo em que o presidente exige desesperadamente que alguém, não importa quem, lhe diga que ele tem razão, ninguém em posição de autoridade o fez até agora com a exceção de parentes consanguíneos, advogados pagos e almas ideologicamente gêmeas.

A eleição foi certificada e aceita não apenas por democratas, mas também por governadores republicanos chaves, secretários de estado, autoridades eleitorais, escrivãos municipais, juízes e até mesmo funcionários da administração Trump.

Quando seu próprio czar de cibersegurança endossou a integridade da eleição, Trump o demitiu do cargo. Agora que o secretário de Justiça, William Barr, disse que não viu nenhuma fraude eleitoral que justifique revogar os resultados do pleito, ele pode ser o próximo a ser posto na rua.

O vídeo de Trump foi tão alienado dos fatos que tanto o Facebook quanto o Twitter anexaram avisos para evitar que os espectadores acreditassem realmente naquilo que o presidente dos Estados Unidos lhes estava dizendo.

Isso explica por que o único tópico além da eleição a atrair o interesse de Trump na semana passada foi a lei anual de defesa, que ele prometeu vetar porque o Congresso não eliminou uma proteção das grandes empresas de tecnologia, como ele havia exigido.

Em contraste, ele expressou pouco interesse pelo coronavírus que assola o país ou pela devastação econômica resultante. Em vez de “o pior já ficou para trás”, como Trump voltou a insistir na noite de sábado, a pandemia começou a fazer mais de 3.000 mortos por dia nos EUA, um recorde –a cada 24 horas, o equivalente ao número de mortos no ataque de 11 de setembro de 2001.

Trump não comentou nada sobre isso em suas diatribes no Twitter, nem sobre os números mais recentes do desemprego, que documentam o custo econômico da pandemia.

Seus únicos quatro tuites que mencionam o vírus defenderam seu próprio tratamento do problema e incluíram mensagens repostadas afirmando que “o presidente estava CERTO”.

A seis semanas de ele deixar o cargo, Trump continua tão errático e imprevisível quanto sempre. Ele pode demitir Barr ou outros funcionários. Pode emitir uma onda de perdões para proteger a si próprio ou seus aliados. Pode incitar um confronto internacional. Como o rei Lear, pode ter outros ataques de fúria e identificar novos alvos para sua ira.

“Se existem estas analogias entre a literatura clássica e a sociedade como está operando hoje, isso deve nos dar motivo de preocupação grave neste mês de dezembro”, disse Wilson, o estudioso shakespeariano.

“Estamos nos aproximando do final da peça, e é sempre nessa hora que vem a catástrofe.”

Tradução de Clara Allain

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