Descrição de chapéu The New York Times

Agora a história pode ser contada: como repórter teve acesso aos Papéis do Pentágono

Neil Sheehan concordou em revelar bastidor de furo, mas publicação só poderia ser feita após sua morte

Janny Scott
The New York Times

Houve uma história que Neil Sheehan escolheu não contar. Foi a história de como ele teve acesso aos Papéis do Pentágono, o furo monumental que em 1971 levou a um confronto decisivo entre a gestão Nixon e a imprensa e a uma decisão da Suprema Corte que ainda hoje é vista como um marco nas relações entre governo e mídia.

Desde o momento em que ele conseguiu para o New York Times as 7.000 páginas de documentos sigilosos sobre a Guerra do Vietnã até sua morte, na quinta-feira (7), Sheehan, ex-correspondente na Guerra do Vietnã e ganhador do Prêmio Pulitzer, recusou quase todos os convites para explicar precisamente como ele realizou essa façanha.

Mas em 2015, a pedido de uma repórter, ele concordou em relatar sua história, sob a condição de que ela só fosse publicada após sua morte. Sofrendo de escoliose e mal de Parkinson, Sheehan, em uma entrevista de quatro horas dada em sua casa em Washington, fez um relato tão cinematográfico e cheio de suspense quanto qualquer roteirista de Hollywood poderia arquitetar.

O jornalista Neil Sheehan em sua casa, em Washington
O jornalista Neil Sheehan em sua casa, em Washington - Brendan Hoffman - 10.set.09/The New York Times

Possivelmente o maior furo jornalístico de uma geração, os Papéis do Pentágono foram a história secreta das decisões tomadas pelos EUA em relação ao Vietnã, encomendada em 1967 pelo secretário da Defesa.

Sua divulgação revelou como sucessivas administrações na Casa Branca intensificaram o envolvimento americano na guerra, ao mesmo tempo em que ocultaram suas próprias dúvidas quanto às chances de vitória americana.

Relatando os passos que o levaram ao furo, Sheehan falou de pseudônimos rabiscados nos registros de hóspedes de motéis de Massachusetts; de máquinas fotocopiadoras que quebraram, sobrecarregadas por uma noite funcionando sem parar para copiar uma carga de documentos roubados; de páginas fotocopiadas escondidas num armário de uma estação rodoviária; de maços de papéis levados no assento de um voo de Boston, de iniciais reveladoras incineradas na churrasqueira de um diplomata.

Ele também revelou ter descumprido as instruções explícitas de sua fonte confidencial, identificada mais tarde por outros como sendo Daniel Ellsberg, ex-analista do Departamento de Defesa que foi colaborador na história secreta enquanto trabalhou para a Rand Corp.

Em 1969, Ellsberg copiou ilicitamente o relatório na íntegra, esperando que sua divulgação pudesse apressar o fim de uma guerra à qual ele acabara se opondo ferrenhamente.

Contrariamente ao que se pensa comumente, Ellsberg nunca chegou a entregar os papéis ao New York Times, disse Sheehan enfaticamente. Ellsberg disse a Sheehan que ele poderia ler os papéis, mas não fazer cópias. Então Sheehan tirou os papéis às escondidas do apartamento em Cambridge, no estado de Massachusetts, onde Ellsberg os havia guardado, os copiou ilicitamente, exatamente como o próprio Ellsberg havia feito, e os levou ao New York Times.

Ao longo dos dois meses seguintes, Sheehan foi engambelando Ellsberg. Disse que seus editores estavam analisando a melhor maneira de apresentar o material e alegou que tinha sido obrigado a cuidar de outras reportagens primeiro. Na realidade, estava trancado em um quarto de hotel no centro de Manhattan com os documentos e uma equipe rapidamente crescente de editores e repórteres do New York Times, trabalhando febrilmente para preparar a publicação do material.

A publicação da primeira parte dos Papéis do Pentágono, em 13 de junho de 1971, pegou Ellsberg totalmente desprevenido. Ele soube que ela era iminente por meio de outro profissional do jornal, Anthony Austin, com quem havia compartilhado uma parte dos papéis em segredo, meses antes.

Austin optara por não mencionar a novidade explosiva a ninguém no jornal, optando por guardá-la para incluir em um livro que estava escrevendo sobre a guerra.

Quando Austin descobriu que seu próprio jornal estava prestes a dar o furo daquele que seria seu furo, telefonou a Ellsberg em pânico. Ellsberg tentou falar com Sheehan, que estava escrevendo a introdução de uma segunda parte dos materiais, com prazo de entrega apertado. Sheehan ignorou as mensagens de Ellsberg até saber que já estaria tarde demais para impedir a publicação da primeira leva.

O jornalista Neil Sheehan em sua mesa na Redação do New York Times, em Manhattan
O jornalista Neil Sheehan em sua mesa na Redação do New York Times, em Manhattan - Barton Silverman - 1º.mai.72/The New York Times

Com medo de ser preso

Ellsberg já havia sido fonte de Sheehan em uma ocasião anterior. Assim, numa visita que fez a Washington, em março de 1971, Ellsberg telefonou a ele e pediu para passar a noite em sua casa. Os dois passaram a noite conversando e fecharam um acordo.

Conforme o relato de Sheehan, Ellsberg lhe entregaria os papéis. Se o New York Times concordasse em publicá-los, o jornal faria todo o possível para proteger a identidade de sua fonte.

Mas quando Sheehan chegou a Cambridge para buscar os documentos, ele contou, Ellsberg havia mudado de ideia. Disse que Sheehan poderia ler o material, mas não fazer cópias. Isso porque, segundo o relato de Sheehan, “a partir do momento que eu entregasse o material, o New York Times tomaria posse dele e faria o que quisesse com ele”. “Daniel achou que perderia o controle.”

Em seu livro de memórias publicado em 2002, “Secrets: A Memoir of Vietnam and the Pentagon Papers” (segredos: memórias do Vietnã e dos Papéis do Pentágono), Ellsberg escreveu que duvidava que o New York Times fosse publicar os documentos na íntegra, como ele queria.

Também temia que, se entregasse os papéis ao Times antes de o jornal ter se comprometido a publicá-los, alguém no periódico poderia informar o FBI, a polícia federal americana, ou que “o FBI tomaria conhecimento de alguma maneira e viria atrás de minhas outras cópias”.

A impressão que Sheehan teve, contudo, foi que as reservas de Ellsberg se deviam a seu medo de “acabar na prisão”. “Porque quando o New York Times tomasse posse dos materiais, iria adiante e os publicaria. E, quando isso acontecesse, ele poderia ser preso. E ele ainda não tinha um político para protegê-lo.”

Ellsberg estava “totalmente dividido”, segundo Sheehan.

Além disso, Ellsberg estava assumindo riscos graves. Ele fizera múltiplas cópias do material e, descuidadamente, pagara por elas com cheques pessoais. Havia procurado deputados para discutir a possibilidade de realizarem audiências. “Não há como o jornal proteger este cara”, Sheehan se recorda de ter pensado. Sua fonte supostamente secreta “deixara rastros no teto, nas paredes, em todo lugar”.

“Meu medo era que cedo ou tarde ele topasse com um político que fosse diretamente ao Departamento de Justiça”, disse Sheehan. Essa pessoa telefonaria ao secretário de Justiça e diria “ei, o New York Times está de posse de um grande estudo secreto que obteve de Dan Ellsberg”.

Sheehan contou que se deu conta de que precisava agir prontamente. A partir do momento que a notícia vazasse, o governo iria à Justiça para bloquear a publicação dos papéis. Os advogados do New York Times acabariam discutindo com o Departamento de Justiça sobre um material sigiloso cuja importância nem o juiz nem o público teriam meios de entender.

“Fiquei realmente revoltado”, Sheehan recordou. Como Ellsberg, ele se voltara contra a guerra e pretendia fazer o que pudesse para combatê-la. “Então fiquei consternado quando Ellsberg falou: ‘Você pode ler, fazer anotações, mas não pode copiar’”, contou. “E também com o fato de que ele estava fora de controle.”

Sheehan então decidiu: “Este material não vai acabar em algum arquivo secreto do governo”.

Jornalistas do New York Times se cumprimentam após a publicação dos Papéis do Pentágono, em 1971; Sheenan é o segundo a partir da direita
Jornalistas do New York Times se cumprimentam após a publicação dos Papéis do Pentágono, em 1971; Sheenan é o segundo a partir da direita - Renato Perez - jun.71/The New York Times

De volta a Washington, ele contou o que estava acontecendo a sua esposa, Susan Sheehan, jornalista da revista The New Yorker. Ela disse: “Se eu fosse você, assumiria controle da situação. Tentaria tranquilizar Ellsberg, fazer tudo que você puder para protegê-lo, mas levar o material ao New York Times”.

“Copie tudo”, Sheehan lembra o que sua mulher lhe recomendou.

Ele retornou a Cambridge para continuar lendo e fazendo anotações. Quando Ellsberg o informou que estava saindo para breves férias, Sheehan pediu para continuar trabalhando no apartamento onde os documentos estavam guardados. Ellsberg concordou e lhe deu uma chave. Ele recordou a Sheehan: nada de cópias. Sheehan não disse nada.

“Conhecia Ellsberg havia muito tempo. Ele pensou que eu estivesse operando sob as mesmas regras de sempre: a fonte controla o material”, disse Sheehan. “Não entendeu que eu havia decidido: este cara é impossível demais. Não dá para deixar nas mãos dele. É importante demais e perigoso demais para isso.”​

Noite longa numa gráfica

Quando ficou claro que Ellsberg ia viajar, Sheehan telefonou para sua mulher. “Venha para cá”, disse ele. “Preciso de sua ajuda.” Pediu que ela trouxesse malas, envelopes grandes e todo o dinheiro vivo que houvesse na casa. Ela foi a Boston de avião e se hospedou em um hotel sob nome falso. Neil Sheehan estava hospedado em um motel de beira de estrada, usando ainda outro nome.

O chefe da sucursal do New York Times em Boston lhe deu o nome de uma gráfica que conseguiria fotocopiar milhares de páginas. Sheehan pediu várias centenas de dólares ao chefe da sucursal a título de despesas de um projeto secreto que se negou a identificar.

Quando o chefe da sucursal ligou à redação do New York Times e falou com os editores de plantão naquela noite, eles rejeitaram o pedido. Então ele ligou ao editor nacional na casa dele. “Dê o dinheiro a ele”, disse o editor, segundo Sheehan. Sem perguntas.

Sheehan fez uma cópia da chave do apartamento, para o caso de perder a original. Então começou a fotocopiar as 7.000 páginas –primeiro no escritório de uma imobiliária onde trabalhava um conhecido seu e então, com a ajuda de Susan Sheehan, na gráfica suburbana.

Transportou pilhas de papéis de táxi entre o apartamento e a gráfica, depois para um armário no terminal rodoviário de Boston e em seguida para um armário no aeroporto Logan.

Quando as máquinas da gráfica quebraram, sobrecarregadas pelo grande volume de cópias, os Sheehan continuaram com o trabalho em uma gráfica de Boston administrada por um veterano da Marinha.

Quando o gerente notou que os documentos eram secretos e ficou nervoso, Susan Sheehan, que estava na gráfica, telefonou a seu marido no apartamento. “Venha para cá”, disse ela.

Sheehan voltou correndo à gráfica e disse ao gerente que havia emprestado o material de alguns professores de Harvard. Disse que os professores os estavam usando em um estudo e que lhe haviam cedido os papéis por tempo limitado. Assegurou ao gerente que um grande volume de documentos tinha perdido o status de sigilosos ao mesmo tempo. Sendo ex-militar da Marinha, o gerente pareceu entender.

No aeroporto, os Sheehan compraram um assento extra no voo para casa e empilharam suas malas sobre ele, afivelando o cinto de segurança sobre elas, para não deixá-las fora de suas vistas.

De volta a Washington, o editor de Sheehan, munido de documentos para usar como amostras e de um memorando escrito por Sheehan, embarcou para Nova York para conseguir a aprovação para o repórter seguir adiante. Sheehan e um editor se acomodaram num quarto do Jefferson Hotel, em Washington.

Ali passaram várias semanas lendo os documentos e redigindo resumos do que haviam lido. Depois disso, foram chamados a Nova York para apresentar os resumos à direção do jornal.

Quando se reuniu com os editores executivos na sede do New York Times, Sheehan viu que o advogado da empresa parecia assustado. “Foi como se tivessem jogado um balde de água gelada em cima dele. Ele ficou morrendo de medo do que eu estava dizendo. Ficou falando: ‘Não conte isso a eles. Eles não vão conseguir guardar segredo. Alguém vai acabar abrindo o bico. Podemos ter cometido um crime.”

Ele e o editor foram a um quarto no hotel Hilton, no centro de Manhattan, para continuar trabalhando. Não demorou para haver outro editor, três outros redatores, guardas de segurança e arquivos trancados com combinações. No final havia dezenas de pessoas trabalhando 24 horas por dia em três quartos adjacentes. “Mapeamos o trabalho inteiro”, Sheehan recordou. “E pusemos mãos à obra.”

Algumas semanas antes da publicação, Sheehan resolveu enviar um sinal a Ellsberg. Ele não queria lhe dizer diretamente que o New York Times ia publicar os papéis, porque temia que a reação pudesse alertar o governo inadvertidamente. Mas, recorda-se, queria algum tipo de “consentimento tácito”.

“Era uma questão de consciência”, explicou.

Então ele disse a Ellsberg que agora precisava dos próprios documentos, não apenas de suas anotações. Ellsberg havia dito que os entregaria apenas quando estivesse preparado para isso, ciente de que quando o jornal os tivesse em mãos, faria o que quisesse com eles.

Desta vez, quando Sheehan pediu, Ellsberg concordou em entregar os papéis.

Sheehan optou por acreditar que o consentimento significava que Ellsberg havia entendido que o New York Times poderia publicar os papéis a qualquer momento.“Foi uma tentativa de dar um pouco de aviso prévio a Ellsberg –supondo que ele se lembraria do que me havia dito— e um pouco de esforço de minha parte de acalmar minha consciência”, recordou Sheehan.

“Talvez fosse hipocrisia, mas o fato é que íamos publicar, e eu quis lhe dar um pouco de aviso com antecedência.” Ellsberg não captou o aviso, conforme ficaria claro mais tarde.

Enquanto isso, ele combinou que Sheehan buscaria uma cópia integral do estudo histórico guardada em um apartamento da família Ellsberg em Manhattan. Sheehan se recorda de ter dado ao zelador “o tipo de gorjeta generosa que leva as pessoas a falar 'não estou sabendo de nada’". "Isso porque eu sabia que cedo ou tarde o FBI ia tentar juntar todos os pontinhos.”

Sheehan tomou outras medidas de último minuto para encobrir seus rastros. Uma cópia do material guardada em sua casa foi colocada no freezer da casa de um colega. Páginas de outras cópias que traziam as iniciais de Ellsberg foram picotadas em Nova Jersey ou queimadas na churrasqueira de um diplomata do Brasil, amigo do sogro de Sheehan.

No final, o momento da publicação dos Papéis do Pentágono pegou Ellsberg de surpresa. Quando Sheehan retornou as ligações de Ellsberg, só consegui falar com a mulher dele, que lhe disse que Ellsberg estava contente com a apresentação do material, mas, nas palavras de Sheehan, “chateado com a falsidade monumental”.

Durante seis meses não houve contato algum entre os dois. Pouco antes do Natal de 1971, contou Sheehan, eles se encontraram por acaso em Manhattan. Em uma conversa breve, ele contou a Ellsberg o que havia feito. “Quer dizer que você roubou o material, como eu”, ele se recorda de Ellsberg lhe ter dito.

“Não, Dan, não roubei”, Sheehan disse. “E você também não. Esses papéis pertencem ao povo dos EUA. Os americanos pagaram por eles com seu tesouro nacional e o sangue de seus filhos e têm direito a eles.”

Tradução de Clara Allain

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