Após invasão do Congresso, empresas tentam se afastar dos negócios de Trump

Segundo analistas, marca do presidente, baseada em luxo e numa clientela influente, poderá não se recuperar totalmente

Eric Lipton Ben Protess Steve Eder
The New York Times

No período de quatro dias, a empresa familiar do presidente Donald Trump perdeu sua loja online, o buxixo dos tuítes promocionais sobre seus hotéis de luxo e o direito de se gabar de ser anfitrião de um dos mais prestigiosos torneios de golfe do mundo.

O ataque da turba de apoiadores de Trump ao Congresso na semana passada provocou um acerto de contas com a Trump Organization por parte de empresas e instituições, numa escala muito maior que seus atos polarizadores anteriores.

E a marca Trump, baseada em luxo folheado a ouro e uma clientela super afluente, poderá não se recuperar totalmente das consequências de seus apoiadores terem invadido violentamente e vandalizado o Capitólio dos Estados Unidos, segundo analistas de hotelaria e pessoas próximas ao setor.

Donald Trump durante comício na Geórgia
Donald Trump durante comício na Geórgia - Mandel Ngan - 4.jan.2021/AFP

Outras empresas ligadas aos Trump, incluindo o Deutsche Bank, o maior credor do presidente, e o Signature Bank, também estão buscando se distanciar dele e de sua empresa.

A reação faz parte de uma rejeição maior a Trump e seus aliados depois do ataque ao Capitólio. As escolas retiraram os diplomas honorários do presidente, alguns importantes republicanos ameaçaram sair do partido e a Ordem dos Advogados do estado de Nova York iniciou uma investigação do advogado pessoal de Trump, Rudolph Giuliani, o que pode levar a sua remoção da entidade.

Enquanto deputados democratas apresentavam um artigo de impeachment na segunda-feira (11), mais de uma dúzia de grandes empresas prometiam reter algumas doações políticas. A Coca-Cola disse que suspenderá as doações de seu comitê de ação política, dizendo em um comunicado que "esses acontecimentos serão lembrados por muito tempo e afetarão nossas futuras decisões de contribuição".

A gigantesca rede hoteleira Marriott disse que suspenderá as doações de seu comitê de ação política "para os que votaram contra a certificação da eleição", referindo-se aos congressistas republicanos que se uniram às falsas denúncias de Trump de fraude eleitoral. O Morgan Stanley e a AT&T disseram que também cancelarão as contribuições a esses legisladores.

A Trump Organization já enfrentava consideráveis problemas financeiros. Muitas de suas propriedades de golfe e hotelaria têm perdido dinheiro, e a pandemia a obrigou a fechar alguns restaurantes e bares e a reduzir drasticamente a ocupação dos hotéis, incluindo um a poucos quarteirões da Casa Branca.

E, com mais de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,5 bilhão) em dívidas a vencer nos próximos anos, com garantia pessoal do presidente, há certa urgência da companhia em alinhavar novos negócios.

Enquanto essa série de desafios significaria uma maldição para praticamente qualquer marca de hotelaria, os executivos da Trump Organization disseram que pretendiam faturar sobre a fama global de Trump com acordos de branding no exterior.

"Nunca houve uma figura política com maior apoio ou energia por trás dele que meu pai", disse em comunicado na segunda-feira o filho mais velho do presidente, Eric Trump, que ajuda a dirigir os negócios familiares. A família também já considera abrir um canal de mídia para atender às dezenas de milhões de seguidores de Trump, esforço que ganhou certa urgência na semana passada quando Twitter e Facebook baniram o presidente de suas plataformas.

"Não faltarão oportunidades incríveis em imóveis e outras áreas", disse Eric Trump.

Antes de ser presidente, Trump havia percorrido muitas linhas de negócios, incluindo cassinos, uma companhia aérea e reality shows. Alguns empreendimentos tiveram enorme sucesso, enquanto outros foram fracassos colossais. Mas eles revelaram sua capacidade de camuflar seus ativos e capitalizar as oportunidades, mesmo quando seu nome parecia irremediavelmente manchado.

Desta vez, os desafios são mais acentuados. Os efeitos começaram na quinta (7), quando o provedor de comércio eletrônico Shopify disse ter encerrado as lojas online afiliadas ao presidente.

O maior golpe veio no domingo (10), quando o PGA of America anunciou que vai retirar o clube de golfe de Trump em Nova Jersey de um importante torneio. Trump teria ficado "dilacerado" com a decisão do PGA, segundo uma pessoa próxima à Casa Branca, porque ele trabalhou pessoalmente durante anos para que os executivos do torneio realizassem eventos em seus campos.

Em um comunicado que sugeria um potencial processo legal, a organização Trump chamou a decisão de "uma quebra de contrato em vigor", acrescentando que "eles não têm o direito de encerrar o acordo".

O Campeonato PGA, marcado para maio de 2022, seria o troféu máximo no mundo do golfe para a marca Trump, que nas últimas duas décadas montou uma coleção internacional de campos de golfe e resorts que hoje representam coletivamente cerca de um terço do rendimento da companhia, segundo seu mais recente relatório financeiro.

O torneio em si não é uma grande fonte de lucros, mas sediar um evento reconhecido internacionalmente tem um enorme valor de marketing. Ele também teria conferido maior legitimidade a Trump e sua marca, que inclui 16 clubes de golfe ao redor do mundo.

"Ficou claro que realizar o Campeonato PGA no Trump Bedminster seria prejudicial à marca PGA of America", disse Jim Richerson, presidente da instituição, em declaração em vídeo.

O dano deverá continuar conforme várias companhias e indústrias reavaliam sua relação com Trump e a empresa de sua família. Os hotéis Trump já tinham perdido muitas conferências importantes depois que ele fez comentários negativos sobre muçulmanos e mexicanos, entre outros, durante sua primeira campanha presidencial, e comentários após um comício mortal de supremacistas brancos em Charlottesville, na Virgínia, em 2017, sugerindo que "a culpa é dos dois lados".

Mas as consequências dos ataques ao Capitólio serão mais acentuadas e duradouras, segundo analistas e pessoas que conhecem a companhia. Alguns associados dos clubes de golfe do presidente estão reavaliando se continuarão sócios devido a possíveis protestos e vandalismo, disse uma das pessoas.

Para David Sangree, consultor da indústria hoteleira em Ohio, o papel de Trump no ataque minará ainda mais os esforços da companhia para atrair clientes ricos que não são apoiadores políticos de Trump.

"Esse é um fator muito negativo", disse Sangree. "Não há dúvida de que eles vão perder mais eventos, porque muitos grupos estão dizendo: 'Não queremos ser associados a essa marca'."

Isso ficou ainda mais claro na segunda à noite, quando o treinador do time de futebol New England Patriots, Bill Belichick, disse que recusará a Medalha da Liberdade Presidencial por causa dos "trágicos acontecimentos da semana passada". O presidente pretendia dar o prêmio a Belichick na quinta (14).

Até os planos de lançar uma plataforma de mídia de Trump enfrentarão obstáculos. Se Trump tentar forjar uma nova rede de notícias conservadora, ou aderir a uma existente, como OAN ou Newsmax, não é garantido que os anunciantes corporativos o apoiarão.

"O cara do My Pillow só pode subsidiar até certo ponto", disse Jon Klein, ex-presidente da CNN americana, referindo-se a Mike Lindell, executivo-chefe que é um apoiador declarado do presidente. "De repente é uma proposta muito mais desafiadora do que era uma semana atrás para OAN e Newsmax."

Em vez disso, Trump poderá encontrar mais sucesso gerando um boletim —com um link para um canal de streaming— para milhões de assinantes pagantes, disse Klein, presidente da TAPP Media, serviço de streaming por assinatura. "Ele incendiou as paixões de sua tribo, e os serviços por assinatura têm tudo a ver com tribalismo."

Depois que o Twitter suspendeu em caráter permanente a conta do presidente, ele sugeriu que poderia construir sua própria plataforma de mídia, mas isso provavelmente apresentaria enormes desafios logísticos e jurídicos. E qualquer coisa que ele queira criar poderá exigir recursos significativos e talvez empréstimos, o que poderá estar escasso nas fontes principais.

O Deutsche Bank, o maior credor de Trump há duas décadas, decidiu não fazer negócios com Trump ou sua companhia no futuro, segundo uma pessoa inteirada das políticas do banco. Trump deve ao Deutsche Bank mais de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,5 bilhão), que deverão vencer nos próximos anos.

O banco concluiu que, exceto se perdoar a dívida, não tem como se livrar do relacionamento com Trump antes do vencimento dos empréstimos.

Outro antigo parceiro financeiro dos Trump, o Signature Bank, também está cortando os laços. O banco —que ajudou Trump a financiar seu clube de golfe na Flórida e do qual Ivanka Trump, a filha do presidente, já foi membro do conselho— emitiu um comunicado pedindo que Trump renuncie como presidente "no melhor interesse de nossa nação e da população americana".

Susan Turkell, uma porta-voz do banco, disse que o Signature decidiu que "não fará negócios no futuro com quaisquer membros do Congresso que votaram por desconsiderar o Colégio Eleitoral".

Turkell disse que no rastro dos tumultos o banco começou a fechar as duas contas pessoais de Trump, que tinham cerca de US$ 5,3 milhões (cerca de R$ 28 milhões). Conforme sua Presidência termina, Trump está voltando a uma empresa muito diferente da que ele dirigia quando assumiu o cargo.

Vários hotéis que levavam seu nome foram apagados da carteira, incluindo em Nova York, no Panamá e em Toronto. Planos para duas novas linhas de hotéis de baixo custo, prioridade até então, foram arquivados indefinidamente. E uma onda de branding que levou Trump a endossar uma série de produtos, de carne a colchões, perdeu o ímpeto.

A companhia também enfrenta uma investigação criminal da Secretaria de Justiça de Nova York, que está examinando se o presidente e sua companhia cometeram crimes financeiros ou fiscais nos últimos anos.

Deixar a Casa Branca, entretanto, significa que Trump não enfrentará mais restrições éticas como proibições de negócios internacionais, potencialmente abrindo novas possibilidades financeiras.

A companhia poderá buscar novos acordos em lugares onde executivos da empresa acreditam que Trump continua popular, como Brasil, Argentina, Israel, Arábia Saudita e Índia. Trump também poderá entrar no circuito de palestras, recebendo enormes cachês por evento, segundo um executivo da empresa.

Em Miami, no Trump National Doral, o bar estava movimentado no happy hour de sexta, assim como na sede do clube exclusiva para sócios, com clientes falando sobre partidas de golfe e negócios, quase nenhum deles usando máscara. Marion McCarthy e seu marido, Donald, tomavam drinques lá —eles são sócios há décadas. Dezenas de outros convidados chegavam ao resort para o US Am Tour, que atraiu mais de cem jogadores, segundo um boletim, que acrescentava: "O Doral Amateur está ESGOTADO!!!".

"Estamos vendo uma reação exagerada", disse Donald McCarthy. "Quando ele deixar o cargo, acho que poderá vir mais aqui para jogar golfe."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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