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Biden: a tarefa de um bom perdedor

Novo presidente terá de tentar esclarecer o estado atual da identidade dos EUA

Joaquin Roy

Diretor do Centro da União Europeia na Universidade de Miami

Latinoamérica21

Aquilo que para Donald Trump era um insulto, para Joe Biden é um reconhecimento: o novo presidente dos Estados Unidos é o establishment em estado puro. Não se recorda um caso semelhante de alguém que tenha chegado à presidência com melhor preparação. Ele passou quase meio século “dentro do ‘beltway’”.

É o território do distrito de Columbia, que abriga a capital americana e deseja se transformar em estado, delimitado por um anel rodoviário. Biden seria facilmente aceitado como guarda de trânsito em Washington, sem passar por qualquer exame.

Mas ao tomar posse de seu escritório no Gabinete Oval, assim que abrir as pastas engorduradas deixadas pelo inquilino anterior, ele ficará horrorizado. A agenda que o espera é um desafio, para o ritualismo inato do senador perpétuo pelo Delaware. No entanto, a tarefa não o amedrontará.

Ele tem uma vantagem paradoxal sobre seu predecessor: Biden é um bom perdedor. Não se recorda um caso semelhante de alguém que tenha decidido apostar na disputa presidencial depois de ter sido rechaçado em tentativas anteriores, na cruel campanha para buscar a indicação de seu partido.

Na agenda de política interna, Biden terá de tentar esclarecer o estado atual da identidade dos Estados Unidos, uma questão complicada e duradoura. Nunca, desde a tentativa suicida de Huntington de aplicar sua tese sobre o confronto de civilizações à medula da identidade americana, uma ferida semelhante à deixada por Trump havia sido causada à alma dos Estados Unidos.

Biden precisará corrigir a dúvida de que para ser cidadão dos Estados Unidos, basta querer sê-lo. Trump questionou seriamente essa proposição. Para comprovar o fato, é suficiente inspecionar os dados da maioria imensa dos atacantes do Congresso. A impressão seria replicada também ao buscarmos um retrato global de uma maioria incômoda dos mais de 70 milhões de eleitores de Trump.

Os Estados Unidos, que são uma ideia, e não um país, muito menos um “country”, terão de ser ressuscitados por Biden. Trump atuou como uma espécie de príncipe maléfico que beijou a bruxa adormecida. Biden a devolverá ao sono eterno. Optará por resgatar do sequestro a bela princesa que passou quatro anos silenciada.

Enquanto testemunha o restante do processo de impeachment, Biden deverá garantir a segurança interna com uma mensagem equilibrada de dureza diante de qualquer violação da lei. Deixar sem castigo um exemplo crasso de insurreição seria um erro fatal.

Para tratar de uma vez por todas da natureza do tecido social, Biden fará bem em realizar seu projeto de facilitar a obtenção legal de residência e de cidadania pelos milhões de pessoas que já estão no país e vivem no limbo. Um problema distinto é de que modo tratar aqueles que novamente optarem pelo recurso a travessias desesperadas da fronteira.

No que tange às perspectivas para a eleição de 2022, Biden terá de liderar seu sólido eleitorado para que o resultado na Câmara dos Deputados e no Senado se consolide e cresça. Ele dependerá da percepção das novas medidas que adote para não perder as vantagens adquiridas.

No exterior, no contexto do retorno acelerado ao multilateralismo, Biden precisará acelerar a recuperação dos funcionários profissionais do Departamento de Estado que foram encostados, e substituir urgentemente os embaixadores indicados políticamente por profissionais. A Europa terá de receber prioridade urgente nesse aspecto.

A cara dos Estados Unidos no exterior precisa enviar uma mensagem clara a Putin de que o namoro com Trump acabou e que, para Washington, a cooperação com a União Europeia e a firmeza da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) estão acima de quaisquer veleidades pessoais. Biden também terá de pôr fim à ambiguidade acerca do relacionamento com o incômodo duo de monarquias árabes medievais e as conveniências do atual governo de Israel.

Na América Latina, Biden procederá com cautela. Caso seja confirmada uma nova onda de regimes “rosados”, causada pela insatisfação dos eleitorados com o desastre governamental, criminalidade e corrupção, Biden fará bem em tratar os países caso a caso. Não se descarta a possibilidade de que ele endureça o jogo com a Venezuela mas volte à política de Obama com relação a Cuba. O endurecimento da atitude com relação a Havana em geral reforça a linha dura do governo cubano. O resultado é que os mais prejudicados continuam a ser os sofridos cidadãos cubanos.

E caso Biden não tenha sucesso quanto a alguns capítulos de sua movimentada agenda, como “bom perdedor” ele tomará nota e se aplicará para corrigir os defeitos antes de terminar sua presidência e –por que não?– buscar reeleição, ou ao menos passar o bastão a Kamala Harris.

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Tradução de Paulo Migliacci

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