Descrição de chapéu The New York Times

Como Taiwan pretende se conservar quase livre da Covid-19

País manteve quarentena e restrições à entrada por mais tempo do que outros governos e não deve relaxar política de controle do vírus

New York Times
Taipé (Taiwan)

Nestes tempos que vivemos de angústia, mortes e perdas, de desemprego em massa e economias nacionais achatadas, consideremos por um instante a realidade alternativa que é Taiwan, algo que parece saído de “Além da Imaginação”.

Há meses e meses a vida na ilha segue normal —assustadoramente normal. Festas de casamento acontecem sem preocupar a ninguém. As pessoas continuaram a lotar eventos esportivos profissionais, assistir a concertos e frequentar feiras noturnas. A população de Taiwan é maior que a da Flórida, mas o índice de mortos por Covid-19 na ilha pode ser contado nos dedos das duas mãos.

Passageiros usam máscaras em Taipei, capital de Taiwan
Passageiros usam máscaras em Taipei, capital de Taiwan - An Rong Xu - 6.dez.20/The New York Times

É exatamente esse sucesso ímpar na luta contra o vírus que leva muitos taiwaneses a se perguntar: por quanto tempo ainda pode durar a boa sorte da ilha?

Para Chen Shi-chung, ministro da Saúde de Taiwan e líder do centro de comando epidêmico local, o sucesso é uma razão ainda maior para não mudar nada na estratégia fundamental adotada pelo governo em relação ao coronavírus.

Desde março a ilha está fechada à maioria dos visitantes. As pessoas cuja entrada é permitida, incluindo cidadãos taiuaneses, precisam fazer quarentena por duas semanas, sob vigilância estreita.

Essas proteções fortes ajudaram a impedir que a ilha sofresse uma enxurrada de infecções, mas elas correm o risco de isolar Taiwan econômica e politicamente se o resto do mundo relaxar suas defesas à medida que a vacinação contra o coronavírus começa.

Em entrevista, Chen disse que é pouco provável que o governo modifique essa política enquanto não houver vacinas que sejam uma arma duradoura e comprovada contra o vírus. Ele sugeriu que Taiwan não será um dos lugares que, diante de pressão pública, relaxaram seus lockdowns, apenas para se verem obrigados a endurecer as medidas outra vez mais tarde.

“Acredito que haverá outra onda”, disse ele. “Porque todo o mundo pensa ‘já me vacinei’ ou ‘vou receber a vacina semana que vem. Já esperei tanto tempo, então agora posso ficar livre de novo'.”

Apenas quando houver mais provas de que as vacinas disponíveis hoje oferecem imunidade duradoura é que “vamos poder começar a relaxar um pouco”, disse Chen.

Enquanto as vacinações começam em várias partes do mundo, a questão de como e quanto relaxar os controles de fronteiras devidos à Covid também terá que ser encarada por outros lugares, como a Austrália e a Nova Zelândia, que usaram sua insularidade geográfica como uma de suas principais defesas contra a pandemia.

Taiwan conservou suas quarentenas e restrições à entrada por muito mais tempo do que muitos outros governos conseguiriam sem enfrentar reações negativas. A economia da ilha perdeu força durante a pandemia, como a do resto do mundo, mas continua a crescer em ritmo razoável.

Japão e Coreia do Sul, dois outros países asiáticos com regimes democráticos que são elogiados por suas respostas ao vírus, agora enfrentam um aumento grande de novas infecções.

Chen Shih-chung, ministro da Saúde de Taiwan, em entrevista coletiva em Taipei
Chen Shih-chung, ministro da Saúde de Taiwan, em entrevista coletiva em Taipei - An Rong Xu - 16.dez.20/The New York Times

Mas, segundo C. Jason Wang, professor da Escola de Medicina da Universidade Stanford, embora as autoridades de saúde de Taiwan tenham de fato sido incansáveis e bem-sucedidas, a ilha também se beneficiou de sorte, pura e simples.

Para ele, com o total de casos de Covid-19 subindo rapidamente em todo o mundo e uma nova cepa mais contagiosa do vírus circulando em muitos lugares, é impossível evitar que mais pessoas contaminadas cheguem à fronteira de Taiwan, de modo que é apenas questão de tempo até mais casos positivos passarem despercebidos pelas defesas criadas pelo governo.

Na quarta-feira (30/12) foi confirmado em Taiwan o primeiro caso de Covid envolvendo a nova cepa do vírus, numa pessoa que veio do Reino Unido, recebeu o diagnóstico e foi hospitalizada. O governo reagiu endurecendo ainda mais suas restrições à entrada na ilha e suas regras de quarentena.

“É notável que Taiwan tenha conseguido resistir por tanto tempo”, disse Wang. Mas, mesmo que a ilha vacine sua população inteira até meados deste ano, “ainda faltam seis meses para isso". "Será realmente difícil conservar todas estas medidas por mais seis meses.”

Para Chen, 67, 2020 foi um ano de decisões duras. Mas ele criou uma resposta ao vírus de dar inveja a qualquer outro diretor de saúde pública no mundo. Muitas das ideias do governo sobre como lidar com o vírus vieram de “tatear no escuro”, disse ele.

Por exemplo, quando vários casos de Covid apareceram no navio de cruzeiro Diamond Princess, em fevereiro, as autoridades do Japão, onde o navio havia aportado, deixaram que muitos dos passageiros cujos testes não detectaram a presença do vírus desembarcassem livremente. Alguns deles mais tarde receberam diagnóstico de Covid-19. Taiwan tomou nota do que ocorrera.

“Ficou muito claro para nós”, disse Chen. “Depois de testar as pessoas, é preciso colocar em quarentena as que tiveram resultado positivo, e as que deram negativo, também.”

A ênfase sobre quarentenas rigorosas vem ajudando a conter as infecções sem sobrecarregar os hospitais da ilha nem impor custos enormes para um programa amplo de testes.

Mas alguns especialistas estão agora encorajando o governo a ampliar os exames, especialmente na fronteira, para flagrar mais casos assintomáticos do vírus.

“Definimos muitas de nossas políticas num momento em que havia alguns poucos milhões de casos em todo o mundo”, disse Chang-chuan, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Nacional de Taiwan. “Mas hoje já há dezenas de milhões de casos. Estamos caminhando para 100 milhões. É uma etapa inteiramente nova.”

Chan propõe que Taiwan comece a testar todos que chegam às suas fronteiras, e não apenas os coloque em quarenta. Ísso já começou a ser feito com pessoas que chegam do Reino Unido, onde a cepa mais transmissível do coronavírus está circulando.

Passageiros com máscara passam por controle de temperatura no metrô de Taipei
Passageiros com máscara passam por controle de temperatura no metrô de Taipei - An Rong Xu/The New York Times

A posição de Taiwan vem sendo a de que os portadores do vírus que estão assintomáticos após 14 dias de isolamente têm pouca probabilidade de transmitir a Covid. Chen disse não ter dúvida de que já houve alguns casos assintomáticos que não chegaram a ser flagrados pelo radar do governo.

“Mas, se essas infecções não estão causando problemas, será que devo de fato gastar muita energia para tentar localizar essas pessoas?”, questiona ele. “Ou devo concentrar meus esforços nas infecções que já vêm causando problemas?”

Não está claro até que ponto essa abordagem envolveu uma aposta. Um estudo publicado em outubro na revista médica The Lancet indicou que, de 14.765 pessoas cujo sangue foi testado em um hospital de Taipé, uma parcela menor detectou anticorpos do coronavírus que em outros países.

Mas essa parcela ainda pode apontar para a existência de um número muito maior de infecções assintomáticas ou apenas levemente sintomáticas do que refletem os números oficiais do Taiwan, escreveram os autores do estudo.

“Basicamente é um cálculo envolvendo quanto dinheiro se quer gastar e quanto risco se quer correr”, disse Wang, professor de Stanford.

Com a contagem global de casos se multiplicando, aumenta a probabilidade de mais casos chegarem a Taiwan. “É uma questão de quanta infiltração você quer tolerar em sua casa.”

Tradução de Clara Allain

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