Kamala Harris vai fazer história, assim como sua família 'grande e misturada'

Vice-presidente eleita poderá ampliar as ideias rígidas sobre dinâmica familiar politicamente aceitável

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The New York Times

Quando Kamala Harris for empossada como vice-presidente dos Estados Unidos, ela representará muitas "primeiras": primeira mulher vice-presidente, primeira mulher negra, primeira de ascendência indiana. Mas há outro marco que estará em exposição: o de sua família.

Enquanto Kamala ascende a essa função sem precedentes, observada por seus entes queridos, milhões de americanos verão uma versão expandida da família americana olhando de volta para eles —uma que poderá ampliar as ideias rígidas sobre dinâmica familiar politicamente aceitável ou papéis de gênero.

A família de Kamala está pronta para esse momento. Sua sobrinha, Meena Harris, já usa uma camiseta "Titia Vice-Presidente". Sua enteada, Ella Emhoff, que estuda arte em Nova York, pretendia tricotar um terno para a ocasião (ela optou por um vestido).

Kerstin Emhoff, mãe dos enteados de Kamala —sim, Kamala e a ex de seu marido são amigas—, poderá levar na bolsa um ramo de sálvia: ela tem certeza de que o Capitólio precisa de uma defumação.

Kamala Harris sorri
A vice-presidente eleita dos EUA, Kamala Harris, fala com a imprensa em estúdio em Atlanta, na Geórgia - Saul Loeb - 11.ago.20/AFP

E, claro, o marido de Kamala, Doug Emhoff, estará lá —marido orgulhoso e apoiador, o cônjuge vice-presidencial provavelmente estará tirando fotos da mulher, estreando seu novo papel de primeiro segundo- cavalheiro do país (e agora no perfil do Twitter para comprovar).

Para as mulheres, uma vida familiar pública geralmente é importante de uma maneira mais carregada: é uma forma de compensar a percepção de "dureza" que as mulheres políticas tendem a carregar.

Como explicou Susan Douglas, professora de comunicação na Universidade de Michigan, enfatizar a maternidade pode "suavizar a imagem" de uma política que precise falar, por exemplo, sobre guerra ou processar pessoas para cumprir sua função.

Essas expectativas podem significar que não há muito espaço para escapar de uma definição estreita de família —o que torna a família Harris-Emhoff ainda mais significativa.

"É notável", disse Ralph Richard Banks, professor de direito na Universidade Stanford que escreveu sobre raça, gênero e padrões familiares. "De certas maneiras, eles estão na vanguarda de diferentes aspectos das famílias americanas e como elas estão mudando."

Alguns poderiam dizer que são um reflexo de onde os americanos já estão. Hoje, o número de casais que têm uma união interracial é de aproximadamente 1 em 6, número que, juntamente com o de casamentos interreligiosos, vem aumentando desde 1967, segundo o Pew Research Center.

Kamala, filha de uma indiana e de um jamaicano imigrantes, foi criada com práticas cristãs e hindus, enquanto seu marido, que é branco, frequentava um acampamento de férias judeu —em seu casamento, Kamala participou do ritual judaico de quebrar uma taça.

Ela tinha mais de 40 anos quando se casaram —mais velha que a idade média do primeiro casamento para mulheres no país, embora esse número continue subindo.

Emhoff era divorciado, com dois filhos do casamento anterior, o que os situava entre os 25% que não vivem com os dois pais biológicos, segundo o Censo americano. Kamala não tinha filhos. Muitos americanos não têm, enquanto as taxas de fertilidade atingem um piso histórico nos últimos anos. Ela já disse várias vezes que ser "Momala" para seus enteados é o seu papel "mais importante".

"As pessoas têm mais opções", disse Banks. "Essa é uma mudança de toda a sociedade, mas muitas vezes não é tão visível em posições de poder."

Família grande e misturada

No discurso em que aceitou a nomeação para concorrer à vice-Presidência, durante a Convenção Nacional Democrata, em agosto, Kamala falou sobre sua mãe, Shyamala Gopalan Harris, uma imigrante que chegou à Califórnia quando adolescente com o sonho de ser pesquisadora do câncer e criou Kamala e sua irmã, Maya, depois de se divorciar do pai das meninas. Na maior parte da vida de Kamala foram só as três.

Quando Maya engravidou aos 17 anos e teve sua filha, Meena, foram as quatro. "Minha avó e minha tia foram segundas mães para mim", disse Meena Harris, 36, que faz aniversário no mesmo dia que a tia. (Maya Harris, assim como Kamala e Emhoff, não quiseram ser entrevistados para esta reportagem.)

Naquele discurso, Kamala comentou que família não é só a de sangue, mas "a família que você escolhe". A dela inclui sua melhor amiga, Chrisette Hudlin, em cujo casamento ela anunciou sua candidatura a secretária da Justiça e de cujos filhos é madrinha. Foi Hudlin quem a apresentou ao advogado da área de entretenimento "engraçado, autogozador" que se tornaria seu marido.

Doug Emhoff nasceu em Nova York e foi criado em Nova Jersey e num subúrbio de Los Angeles, filho de Barb e Mike, uma dona de casa e um designer de calçados que, mais recentemente, fundaram o grupo "Avós para Biden" no Facebook. Durante 16 anos ele esteve casado com Kerstin Emhoff, com quem teve Cole, 26, e Ella, 21, cujos nomes prestam homenagem a John Coltrane e Ella Fitzgerald.

Como diz Kerstin Emhoff, o casamento era bastante tradicional: Doug cuidava das finanças, ela fazia as tarefas domésticas. Ambos trabalhavam em tempo integral. "Isso fazia parte de nossa ligação —éramos dois profissionais apaixonados", disse Kerstin.

As crianças cursavam o ensino fundamental e médio quando os pais se separaram, e Emhoff foi morar num apartamento próximo. Elas se alternavam em semanas na casa do pai —chamando a si mesmos de "Equipe do Palazzo" devido ao nome do condomínio, aprendendo a fazer as coisas de que a mãe cuidava.

Anfitrião nacional

Doug Emhoff se tornará o primeiro membro masculino do reduzido grupo de cônjuges da Casa Branca —papel que não tem descrição de cargo nem salário ou deveres formais.

Tradicionalmente, as primeiras e segundas-damas desempenharam o papel de anfitriãs: decorar a casa para festas, organizar almoços, enviar receitas familiares anualmente a uma revista para o "Concurso do Biscoito da Primeira-Dama".

Muitas primeiras e segundas-damas também se concentraram em trabalho mais robusto e políticas específicas: nos últimos anos, voltaram sua atenção para a alfabetização infantil (Laura Bush), alimentação saudável (Michelle Obama) e famílias militares (Jill Biden). Melania Trump começou a campanha "Seja Melhor", visando conter o bullying.

Mas as regras não escritas permanecem, como "fique na sua faixa". Eleanor Roosevelt, importante nas negociações do New Deal, ouviu que devia "se limitar ao tricô", e esse sentimento perdurou.

Laurel Elder, professora de ciência política no Hartwick College e coautora do livro "American Presidential Candidate Spouses" (esposas de candidatos presidenciais americanos), chamou isso de "o novo tradicionalismo": a ideia de que os americanos preferem esposas que são ativas e visíveis no apoio a seus parceiros (a parte nova), mas que não se desviem de seus papéis secundários (a parte tradicional).

"Apesar de as mulheres hoje fazerem tudo, as expectativas das pessoas para as esposas do presidente e vice-presidente são muito tradicionais", disse ela. "Os americanos estão muito divididos sobre se elas devem ter uma profissão —e realmente não querem que sejam assessoras políticas."

Jill Biden e Karen Pence continuaram dando aulas enquanto seus maridos serviram como vice-presidentes —e, como primeira-dama, Jill Biden será a primeira a manter um emprego em tempo integral.

Seu colega na vice-Presidência, Doug Emhoff, abandonou a carreira profissional de advogado de artistas. É ligeiramente mais complicado que um ato puramente feminista —havia questões sobre se seu emprego poderia apresentar conflitos de interesses—, mas pode ao mesmo tempo ser visto como totalmente conformista ou absolutamente radical, segundo Elder. "Ver um homem assumir esse papel é surpreendente, emocionante e um pouco desorientador, já que contesta ideias muito antigas", disse ela.

'Titia Vice-Presidente'

Quando a "grande e misturada" família Harris-Emhoff, como Ella Emhoff a descreveu, reunir-se nesta semana, será o primeiro encontro de todos em mais de dois meses. A última vez foi na semana da eleição, em uma casa em Delaware, onde a notícia estava em todas as telas, e Kamala repetia —pelo menos no começo: "Isto é ótimo, não é? Vocês não adoram estar aqui? Não adoram estar todos juntos?".

Eles se distraíram com jogos, karaokê, comida —e esperaram ansiosamente pelos resultados oficiais de uma eleição que projetaria sua unidade familiar a um nível maior de visibilidade. "Uma noite se transformou numa festa, todos dançaram", disse Cole Emhoff.

Em outras palavras, apenas uma família reunida —esperando que a história acontecesse.

A vida que eles conheceram antes deixará de existir nesta quarta (20), mas eles tentarão manter certa normalidade. Emhoff e Kamala são os únicos membros da família imediata que viverão em Washington o tempo todo. Os almoços de domingo —uma tradição que hoje acontece por meio do Zoom— continuarão, mas, na nova função, Kamala talvez tenha menos tempo para fazer seus famosos pimentões recheados.

Emhoff continuará sendo "Doug" para seus filhos —hábito que eles adquiriram quando pequenos e que seria difícil mudar agora. Kamala ainda é "Momala" para seus enteados e "titia" para suas sobrinhas, sobrinhos e afilhados. E Meena Harris aprendeu a não tentar chamar sua tia de "Kamala".

"Ela vira a cabeça rápido e diz: 'Meu nome é Titia, não admito que você me chame de Kamala!'" De todo modo, ela tem um novo nome, segundo Meena Harris: "Senhora VP [vice-presidente] Titia".

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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