Líder de grupo de extrema direita dos EUA é preso por queimar bandeira de movimento negro

Enrique Tarrio nega crime de ódio; apoiadores de Trump, Proud Boys preparam protesto contra vitória de Biden

Washington | AFP

O líder do grupo americano de extrema direita Proud Boys foi preso nesta segunda-feira (4) na capital, Washington, por queimar uma bandeira do movimento antirracista Black Lives Matter, roubada de uma igreja durante protestos ocorridos em dezembro.

A prisão de Enrique Tarrio, 36, ocorre enquanto a capital americana se prepara para as manifestações favoráveis e contrárias à certificação, pelo Congresso, da vitória eleitoral de Joe Biden. A sessão está marcada para a quarta-feira (6).

Tarrio foi detido pelas autoridades pouco depois de chegar a Washington vindo de Miami, onde mora, sob acusação de destruir a propriedade da Igreja Metodista de Asbury, uma congregação protestante majoritariamente negra na qual o líder dos Proud Boys incendiou uma bandeira em 12 de dezembro. Nos atos daquele dia, ao menos uma pessoa foi baleada, e quatro outras, esfaqueadas.

Enrique Tarrio, líder do grupo de extrema direita Proud Boys, durante manifestação em Washington - Stephanie Keith/Getty Images - 12.dez.20/AFP

Segundo a polícia, Tarrio também será indiciado por portar, no momento de sua prisão, dois carregadores de uma arma de alto calibre considerada ilegal.

O dano à propriedade das igrejas pode ser punido com multa de US$ 1.000 (R$ 5.345) e seis meses de prisão, mas, se a Justiça entender que os atos do Proud Boys foram crimes de ódio, Tarrio pode receber penas mais rigorosas. Ele nega todas as acusações.

Segundo a agência Associated Press, a juíza Renee Raymond decidiu nesta terça banir Tarrio do Distrito de Columbia.

A magistrada justificou sua decisão afirmando que o líder do grupo havia postado recentemente um meme na rede social Parler que indicava que ele queimaria outra bandeira do movimento Black Lives Matter.

Tarrio foi liberado e só poderá entrar no Distrito de Columbia em situações excepcionais, como se reunir com seu advogado ou comparecer a audiênciais.

Em outro processo judicial divulgado nesta segunda, o líder e outros membros do grupo foram acusados pela Igreja Episcopal Metodista Africana Metropolitana, também composta por uma maioria de membros afro-americanos, de roubar e queimar bandeiras durante protestos.

"A conduta dos Proud Boys em Washington é um novo capítulo perigoso na longa e terrível história de violência dos supremacistas brancos contra os templos negros", afirmou a Igreja em um comunicado.

Em entrevista ao jornal The Washington Post no mês passado, Tarrio admitiu ter queimado cartazes do movimento negro, mas negou que seus atos tenham sido motivados por questões de raça, religião ou política. Sua justificativa foi a de que o Black Lives Matter "tem aterrorizado os cidadãos do país".

Considerado um dos mais fiéis apoiadores de Donald Trump, o grupo de extrema direita liderado por Tarrio tem reproduzido a narrativa sem evidências segundo a qual o atual presidente foi vítima de fraude na eleição para a Casa Branca.

Antecipando a possibilidade de conflitos durante as manifestações contra a certificação da vitória de Biden, a prefeita de Washington, Muriel Bowser, solicitou apoio de 340 soldados da Guarda Nacional —número equivalente a 15% do total de tropas do Distrito de Columbia, onde fica a capital americana.

Segundo as autoridades, os soldados assumirão postos estratégicos já nesta terça e devem permanecer em Washington até pelo menos quinta (7), para ajudar a controlar o trânsito e proteger as ruas.

“A Guarda Nacional do Distrito de Columbia desempenha um papel de apoio ao Departamento de Polícia Metropolitana, o que permitirá que eles forneçam um ambiente seguro para que nossos cidadãos exerçam seu direito de manifestação da Primeira Emenda [trecho da Constituição americana que trata da liberdade de expressão]”, disse William Walker, general comandante das tropas do distrito.

Em junho, durante a onda de protestos que se espalharam por centenas de cidades americanas após o assassinato de George Floyd, Trump defendeu uma resposta militarizada aos atos, e tropas da Guarda Nacional foram acionadas para conter os manifestantes.

Autoridades do Pentágono temem que o republicano queira repetir a ação nesta semana, usando a agitação civil como pretexto para convocar mais tropas e adicionar elementos de instabilidade a sua narrativa de que as eleições foram fraudadas e, por isso, o Congresso não deveria ratificar seu resultado.

Trump poderia recorrer à Lei de Insurreição, que autoriza um presidente a enviar tropas da ativa para conter distúrbios a despeito das objeções dos governadores.

A possibilidade do uso político do contingente militar em disputas eleitorais foi alvo de crítica de dez ex-secretários de Defesa dos EUA que publicaram, no domingo (3), uma carta no Washington Post.

“Os esforços para envolver as Forças Armadas na resolução de disputas eleitorais nos levariam a um território perigoso, ilegal e inconstitucional”, diz um trecho. “Tais medidas seriam responsáveis, incluindo potenciais penalidades criminais, pelas graves consequências de suas ações em nossa República.”

Seus autores representam todos os ex-secretários ainda vivos que ocuparam o cargo —incluindo Mark Esper, que integrou o governo do republicano até 9 de novembro, quando foi demitido após uma série de desentendimentos com Trump, como no caso do uso de tropas para reprimir protestos antirracismo.

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