Mais pessoas morreram no Reino Unido em 2020 do que em qualquer ano do último século

Com hospitais do sistema público quase transbordando, país enfrenta dias críticos

The New York Times

Mais pessoas morreram no Reino Unido em 2020 do que em qualquer ano do último século, ultrapassando até o número da pandemia de 1918, segundo relatou a agência de estatísticas do governo na terça (12).

E, com cerca de 90 mil mortes além do esperado, foi o número mais alto de mortes excedentes registrado desde a Segunda Guerra Mundial. Apesar dessa conta terrível, as autoridades avisam que o pior ainda está por vir, pois a recente explosão de infecções significa mais hospitalizações e mais mortes.

Enquanto uma nova e mais contagiosa variante do vírus continua assolando a Grã-Bretanha —estima-se que uma em cada 30 pessoas em Londres estejam infectadas—, os hospitais estão quase transbordando, enquanto as autoridades se esforçam para convencer a população da urgência do momento.

Paramédicos levam paciente em meio a fila de ambulâncias em Londres
Paramédicos levam paciente em meio a fila de ambulâncias em Londres - Daniel Leal-Olivas - 12.jan.21/AFP

O premiê Boris Johnson —criticado na terça por rodar de bicicleta mais de 10 km a partir de sua residência, contrariando ordens para que as pessoas fiquem perto de suas casas— se reuniu com o gabinete no mesmo dia para discutir o endurecimento das restrições, que já são uma das mais abrangentes na Europa.

Todos os bares, restaurantes e lojas estão fechados, a reabertura das escolas foi adiada, e as reuniões públicas estão proibidas. As pessoas foram avisadas de que só devem sair de casa por motivos essenciais, como comprar alimentos e se exercitar.

Houve um sinal recente de encorajamento. Depois de aumentar acentuadamente durante semanas, o número de infecções começou a cair. Cerca de 45 mil foram relatadas na terça (12) —bem menos que o pico recente de mais de 80 mil. As autoridades advertiram, porém, que os efeitos das reuniões realizadas nos feriados de Natal ainda não foram sentidos totalmente, e, conforme as internações continuam aumentando, a crise nos hospitais se agrava a cada hora.

"As próximas semanas serão as piores desta pandemia em termos de números no NHS", disse o médico-chefe da Inglaterra, Chris Whitty, na segunda, referindo-se ao Sistema Nacional de Saúde. "Este é o momento mais perigoso que já tivemos em termos de números."

Há mais de 35 mil pacientes de Covid-19 em hospitais, cerca de 14 mil a mais que no período mais difícil, na primavera [no Hemisfério Norte, outono no Brasil]. Mesmo que o ritmo de novas infecções diminua de modo significativo, os hospitais de Londres poderão enfrentar uma escassez de 2.000 leitos em 19 de janeiro, segundo um comunicado de médicos de Londres ao NHS.

Mais de 3.000 pacientes estavam em respiração mecânica na sexta-feira (8), segundo dados do governo.

As mortes diárias se aproximam dos picos alcançados na primavera, com o número relatado de 1.243 óbitos na última segunda. Alguns hospitais foram obrigados a construir necrotérios temporários depois de as funerárias ficarem sem espaço. O número de mortes deverá aumentar constantemente nas próximas semanas, segundo estimativas.

As equipes de ambulâncias, que há semanas correm por Londres em busca de leitos para pacientes graves de Covid, estão em ponto de colapso. Centenas de policiais e bombeiros foram desviados de suas funções para manter os serviços em ação.

Trabalhadores de saúde exaustos lutam para enfrentar o aumento de pacientes, ao mesmo tempo que são solicitados a realizar a mais ambiciosa campanha de vacinação na história do país.

Jeremy Hunt, presidente da Comissão de Saúde do Parlamento britânico e ex-secretário de Saúde, disse que o elogiado NHS está à beira da ruptura. "Acho que o NHS, no final, encontrará UTIs para todos os que precisam, mas está absolutamente no fio da navalha", disse ele à rádio BBC.

Talvez ainda mais crítica que a falta de leitos de UTI seja a escassez de pessoal treinado para cuidar dos pacientes. Muitos profissionais de saúde estão sendo forçados a se dividir entre um número cada vez maior de doentes, o que inevitavelmente prejudica a qualidade do serviço, disseram autoridades.

O número de mortes na Grã-Bretanha passou de 81 mil nesta semana, o maior na Europa. E esse número não capta toda a extensão do sofrimento. Houve perto de 697 mil mortes na Grã-Bretanha em 2020 --quase 91 mil a mais que a média dos cinco anos anteriores. O aumento de 15% em mortes excedentes é o maior em mais de 75 anos, e essa cifra sugere que as baixas da Covid são maiores que o número oficial.

O fracasso em conter a disseminação da perigosa variante do vírus —primeiro identificada por pesquisadores no Reino Unido, mas que agora se espalha por dezenas de países— levantou perguntas se a movimentação de pessoas deve ser ainda mais limitada. Mas o sucesso de qualquer medida ordenada pelo governo depende principalmente de as pessoas seguirem as regras.

E há preocupações de que algumas pessoas tenham simplesmente parado de escutar.

"A maioria das pessoas está agindo certo para manter a si mesma e às outras saudáveis, mas infelizmente uma minoria continua ignorando as regras de modo flagrante. Por exemplo, realizando festas em casa, reunindo-se em porões para jogar ou invadindo lugares para raves não autorizadas", escreveu na terça Cressida Dick, comissária da Polícia Metropolitana, no Times de Londres.

Mais um sinal do custo da crise atual foi dado pelo Consórcio Britânico de Varejo, que relatou que 2020 foi o pior ano já registrado para o comércio. Até o Correio Real está sendo afetado, com o serviço provavelmente reduzido em algumas áreas porque muitos trabalhadores estão doentes ou em quarentena.

A escalada da crise sanitária e a crescente calamidade econômica salientaram a urgência da campanha de vacinação no país, que vem ganhando velocidade. As autoridades manifestaram otimismo sobre a capacidade de cumprir a meta de dar ao menos uma das duas doses previstas a 15 milhões de pessoas com mais de 70 anos e outras de grupos de alto risco até 15 de fevereiro.

Mais de 2,4 milhões de pessoas foram imunizadas, segundo o governo. Destas, mais de 388.677 receberam as duas doses. Stephen Powis, diretor médico do NHS da Inglaterra, disse que as inoculações levarão gradualmente à queda do número de casos de hospitalização.

"Mas não vamos ver isso já", disse ele em uma entrevista coletiva na segunda. "Só em fevereiro veremos os primeiros sinais. O programa de vacinação dá esperança, mas para combater o vírus hoje temos de seguir as diretrizes hoje."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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