Novo presidente de comissão da Câmara dos EUA promete pressão sobre 'Bolsonaros do mundo'

Democrata Gregory Meeks, líder de órgão de relações exteriores, quer promover direitos humanos no Brasil

Shaun Tandon
Washington | AFP

O novo presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA, Gregory Meeks, pediu nesta terça (5) a revisão da política de Washington para a Venezuela, um enfoque mais multilateral do país sob o comando de Joe Biden e prometeu promover os direitos humanos no Brasil.

Em entrevista à agência de notícias AFP, o democrata diz querer discutir com o presidente Jair Bolsonaro a marginalização das comunidades afro-brasileiras, indígenas e LGBT e buscar se unir a legisladores e ONGs brasileiras neste tema.

"Há um papel que todos devem desempenhar, e se podemos estar de acordo e começar a falar e exercer a mesma pressão sobre os Bolsonaros do mundo, acho que podemos ter um grande impacto", afirmou.

Silhueta do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, durante cerimônia no Palácio do Planato, em Brasília
Silhueta do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, durante cerimônia no Palácio do Planato, em Brasília - Ueslei Marcelino - 16.dez.20/Reuters

A política de direitos humanos defendida por Meeks é marcada pela divergência com a administração Trump, de quem o presidente brasileiro é próximo ideologicamente.

Em outra posição oposta à do governo em fim de mandato, também disse que buscaria retomar a ajuda humanitária aos palestinos, depois que o presidente, firmemente pró-Israel, cortou-lhes quase todos os fundos. E prometeu usar seu cargo para pressionar o respeito aos direitos humanos em todo o mundo.

Além disso, o democrata se comprometeu a apoiar a retomada dos contatos diplomáticos com o Irã, depois que Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear assinado por seu antecessor, Barack Obama, em 2015, e voltou a impor amplas sanções ao país persa.

"Se olharmos para o que o Trump fez com sua campanha de pressão máxima, a grande pergunta a fazer é se ele tornou os EUA mais seguros. A resposta é um grande 'Não', 'n' maiúsculo", afirmou.

Primeiro afro-americano a presidir a Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Meeks sucede Eliot Engel, que perdeu o assento nas primárias para um integrante da ala progressista democrata.

Sobre a Venezuela, Meeks acusou Trump de hipocrisia ao liderar uma campanha de dois anos para tirar do poder Nicolás Maduro, cuja reeleição, em 2018, Washington e boa parte da comunidade internacional não reconhecem por considerá-la "fraudulenta".

"Claramente, esta administração não está no caminho certo. De fato, acho que muitas pessoas na Venezuela estão rindo porque, para mim, o que Trump está fazendo nesta eleição é muito similar ao que Maduro tentou fazer na Venezuela", opinou. "Precisamos de uma política diferente."

Meeks foi várias vezes à Venezuela, onde se reuniu com o antecessor e padrinho político de Maduro, Hugo Chávez, e foi enviado pelo ex-presidente Barack Obama para representar os EUA no funeral do presidente em 2013. Para Meeks, seu país precisa "trabalhar coletivamente de forma multilateral" com os atores regionais e as organizações internacionais. "Não podemos entrar e dizer que este é seu presidente. Esse não é nosso papel; esse é o papel do povo venezuelano", afirmou.

Meeks não chegou a dizer que Biden, que assumirá a Presidência em 20 de janeiro, deveria reverter o reconhecimento de Trump ao líder opositor Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, e pediu que os Estados Unidos fomentem a unidade no âmbito da oposição venezuelana.

O legislador admitiu as irregularidades eleitorais do regime de Maduro e disse que qualquer solução para a crise deve se concentrar em reparar as instituições, inclusive com a incorporação de membros da oposição no órgão que rege as eleições. "Deve-se assegurar que o clima no terreno seja o adequado para que possam ocorrer eleições livres e justas", disse.

Mais de 50 países, inclusive a maioria das potências latino-americanas e europeias, reconhecem Guaidó como presidente interino, depois de questionamentos à reeleição de Maduro em 2018, e em meio a uma catástrofe econômica. Segundo a ONU, 5,4 milhões de pessoas deixaram a Venezuela nos últimos anos.

Guaidó presidia a Assembleia Nacional eleita em 2015, mas nesta terça foi empossado o novo Parlamento eleito nas legislativas organizadas pelo governo Maduro no mês passado e que foram boicotadas pela oposição e não avalizadas por observadores internacionais não alinhados ao regime venezuelano.

O chefe da diplomacia americana em fim de mandato, Mike Pompeo, não reconheceu o novo Congresso e reiterou o apoio a Guaidó como autoridade legítima do país. Apesar da forte campanha de pressão de Washington, que inclui uma bateria de sanções econômicas, Maduro tem se mantido no poder com o apoio do Exército venezuelano, da Rússia, da China, de Cuba e, recentemente, do Irã.

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