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Moda Governo Biden

Unidade cromática em figurinos da posse de Biden emula discurso de união e aponta para sufragistas

Diferentes tons de roxo estavam presentes nos figurinos de Kamala e de convidados, como Michelle Obama

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São Paulo

Pela primeira vez na história americana, ao menos sob o prisma da moda, uma posse presidencial não teve as atenções direcionadas à primeira-dama. Nem à primeira mulher vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, cujo figurino poderia roubar a cena de Jill Biden, esposa do democrata Joe Biden.

Embalados pelo discurso de unidade nacional, os novos líderes, seus parceiros e convidados fizeram um manifesto político ao combinar cores e estender o tapete vermelho ao design americano emergente.

A vice-presidente Kamala Harris (à esq.) e a primeira-dama Jill Biden acenam ao lado dos maridos
A vice-presidente Kamala Harris (à esq.) e a primeira-dama Jill Biden acenam ao lado dos maridos - Mike Segar/Reuters

Não era um tapete vermelho berrante, como mandava a cartilha republicana, mas um mar de variações de roxo, cujos tons resgatam as cores das sufragistas britânicas do início do século 20. Havia também um meio entre o azul democrata e o verde que, no início do movimento liderado por Emmeline Pankhurst na União Social e Política das Mulheres, simbolizava a esperança de maior representatividade feminina.

Essa unidade inédita estava presente até entre os convidados mais conhecidos da cerimônia. As ex-primeiras-damas Michelle Obama e Hillary Clinton aderiram à régua cromática proposta pelo vestido e casaco roxos de Kamala. As duas foram com um visual completo em duas escalas de púrpura.

Um era aceso e tingia o costume de Hillary, combinado a um exagerado “pussy bow” (laço vulva), a mesma “gravata feminina” usada pela vice-presidente em seu discurso da vitória, em novembro; o outro, de tom marsala puxado para o vinho, foi espécie de aceno de Michelle à cor republicana. O roxo, aliás, é a mistura de azul e vermelho, as cores que representam democratas e republicanos, respectivamente.

A ex-primeira-dama Laura Bush, por sua vez, foi de tailleur azul-democrata, assim como era a cor da gravata do marido, o ex-presidente republicano George W. Bush. Durante os quatro anos do mandato de Trump, ele fez críticas, cifradas e diretas, ao fanatismo instalado na política dos EUA.

Desde terça (19), Kamala e Jill Biden já enviavam sinais do que mostrariam na posse. No memorial às vítimas da Covid, a agora primeira-dama usou conjunto roxo do designer emergente Jonathan Cohen, enquanto Kamala foi com casaco cor camelo do também jovem Kerby Jean-Raymond, da Pyer Moss.

Afro-americano e muito ativo durante a campanha presidencial, Jean-Raymond estimulou eleitores a votar e doou milhares de dólares para ajudar instituições a enfrentar a pandemia no país.

Hoje, são designers jovens de uma indústria esfacelada que ascendem à Casa Branca. Na cerimônia de inauguração, Christopher John Rogers, 27, também um estilista negro, assinou o casaco de Kamala —o vestido é de Sergio Hudson ("nascido no meio dos anos 1980", segundo seu site oficial), mesmo designer que assina o look de Michele Obama—, e Alexandra O’Neill, da grife Markarian, criou o conjunto turquesa com cristais e pérolas da primeira-dama.

As pérolas foram homenagens de Jill à vice, já que Kamala costuma usar pedras do tipo em reverência à sororidade Alpha Kappa Alpha, da Universidade Howard, na qual se formou. Na cerimônia desta quarta, a nova número 2 nos EUA exibia uma versão do colar da sororidade, com pérolas distribuídas pelo colo.

O All-Star que costuma usar no dia a dia e que virou uma de suas marcas não apareceu na posse, mas inundaram a internet durante o evento, com apoiadores postando fotos com os tênis favoritos de Kamala.

Nos próximos anos, a vice terá seus figurinos escrutinados com atenção e, a depender das revistas de moda, conduzirá o novo uniforme de trabalho dos EUA: confortável, solto e despretensioso, como as roupas de todo o mundo nesta pandemia.

O presidente Biden também emulou a ideia de unidade ao optar por uma gravata azul com leve tom lilás. O conjunto de paletó e calça é assinado por Ralph Lauren, mesma marca escolhida nesta quarta —e durante a corrida de 2016— pela correligionária Hillary Clinton.

Lauren, vale lembrar, é considerado o estilista americano por definição por misturar estereótipos do operariado do Meio-Oeste —camisas xadrez, botas pesadas— e do engomado "preppy" do Leste.

Tantas referências mostram um desejo de unificar um país rachado, como ficou exposto com a invasão do Capitólio por extremistas no início deste mês. Obviamente, roxos, verdes, amarelos e brancos da cartela sufragista não curam feridas, mas falam ao povo americano sobre a possibilidade de, ainda que por um dia, tornar a América grande de novo. De um jeito diferente.

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