A Terra era, há 100 anos, o lugar mais desconfortável do Universo

Cobertura internacional da Folha da Noite mostrava turbulências entre os países mais potentes

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Milão

A Terra é “o lugar mais desconfortável do Universo”, o mundo “se acha transformado num casarão de energúmenos” e estamos vivendo sob ares “carregados de ódios e malquerenças”. Mas qualquer semelhança com os dias atuais é mera coincidência.

As frases acima foram publicadas há 100 anos, quando as páginas da Folha da Noite mostravam, em sua cobertura internacional, turbulências entre os países mais potentes do mundo, conflitos internos e manchetes sobre “revoluções”, greves, atentados e confrontos violentos entre comunistas e fascistas —nos dois casos, os originais.

Ao ler os textos de arquivo daquela época, o ar parecia pesar a cada dia mais e, ciente de tudo o que aconteceu nos anos e décadas seguintes, fica fácil identificar em 1921 as sementes daquilo que viria depois.

Fascistas marcham em Roma, na Itália, liderados por Benito Mussolini - Reprodução

Escritos por Augusto Lopes e publicados em 6 de abril (“Wilson mudo”, pág. 5), os trechos do primeiro parágrafo tinham a ver com aquele “curioso momento” em que a Primeira Guerra Mundial, embora oficialmente encerrada em 1918, mostrava sinais de que não terminaria tão cedo. Apesar do cessar-fogo e de um tratado de paz assinado, a “concórdia” não só parecia distante, como já havia quem falasse em uma “próxima guerra”.

Durante o primeiro semestre de 1921, o assunto dominante, na seção internacional do jornal, foram as negociações entre os países Aliados, vencedores, e a Alemanha, que, além de perder território e força militar, deveria pagar uma indenização pelos danos causados. Representavam os Aliados o Reino Unido, a Itália, os Estados Unidos e a França —esta, apontada como a face mais severa nas tratativas contra a Alemanha.

De acordo com Lopes, aquele “horrível estado de coisas” que o mundo experimentava era uma consequência da “avidez imperialista e da voracidade insaciada” dos estadistas vitoriosos. E refletia também o desempenho do governo norte-americano na formulação do Tratado
de Versalhes, o documento que, em 1919, concentrou os combinados pós-guerra.

Chamado pela Alemanha para mediar o fim do conflito, o então presidente americano, Woodrow Wilson, no cargo entre 1913 e 1921, foi descrito como um “sonhador ingênuo”, cujas boas intenções foram “burladas pela malícia, pela doblez, pela férrea intransigência e pelo curto alcance de vista político dos magnatas da velha Europa”.

Quem mais abordou o assunto na Folha, no entanto, foi o jornalista Mario Pinto Serva, autor assíduo naquele período do jornal. Nos primeiros meses do ano, ele dedicou grande parte de seus textos às tratativas entre os países, à “germanofobia” e aos efeitos disso no povo alemão.

Em “A Alemanha saqueada” (1º/3, pág. 3), Serva escreveu sobre a indenização cobrada pelos Aliados, então no valor de 226 bilhões de marcos de ouro, a moeda alemã da época. “Evidentemente a insânia domina o cérebro dos estadistas franceses e ingleses. (...) É uma pena brutal e bárbara, como não há exemplo na história”, contava.

Dias depois, em “Pelos oprimidos” (14/3, pág. 3), falava sobre a situação alemã, com “45 milhões de mulheres e menores, absolutamente inocentes, sofrendo os horrores da fome, degenerando em desnutrição, em miséria, em tuberculose”, enquanto, da França, “não só não parte um grito de misericórdia e compaixão”, como só querem “mais dinheiro, mais minas, mais terras, mais navios”.

Guardas Vermelhos ocupam fábrica em Turim em 1921 - Domínio Público

Três meses depois, em “A próxima guerra” (17/6, pág. 3), suas palavras assumem contornos proféticos: “A próxima guerra é uma questão de tempo e só será evitada se à Alemanha for lícito pacificamente restaurar todos os seus domínios, refazer todo o seu território, reivindicar todos os seus direitos”.

Do contrário, avaliava, “daqui a três, cinco ou dez anos, a Alemanha de agora se levantará para a desforra, mesmo porque tem a única superioridade definitiva de força e poder”.

De fato, historiadores veem as duras imposições do Tratado de Versalhes como um dos fermentos para a ascensão da extrema direita nacionalista alemã. No acervo digital de 1921 do jornal, não são evidentes —com a ressalva de que há textos ilegíveis— menções ao nazismo nem ao futuro ditador Adolf Hitler. Mas naquele mesmo ano ele se tornaria, em julho, presidente do pequeno Partido Nazista.

Se o nazismo ainda não era grande o suficiente para entrar no noticiário brasileiro, o mesmo não se pode dizer do fascismo italiano, que fez sua estreia na cobertura da Folha no fim de abril.

“O fenômeno político do ‘fascismo’, que, com tanta violência, acaba de irromper na Itália, chegará a refletir-se entre a numerosa colônia italiana de São Paulo?”, indagava o texto (“Fascismo”, 27/4, pág. 5), para, em seguida, explicar o que era o movimento.

“Os ‘fascistas’ eram no começo os membros do Fascio Nazionalista, organização de intelectuais que (...) alcançou nestes últimos tempos um desenvolvimento formidável, opondo uma terrível barreira às tendências reformadoras de uma parte do povo italiano.”

Descrita como uma “patriótica instituição”, o fascismo, prossegue o autor com iniciais ilegíveis no fim do texto, “não passava de um cenáculo, mas com o fenômeno social de ocupação das fábricas e a presença de um perigo imediato para a segurança do Estado, todas as forças conservadoras da nação, representando as mais variadas tendências políticas, se congregaram em torno do ‘Fascio’, constituindo assim uma avalanche esmagadora que a todo o momento entra em conflito com os extremistas”.

Dois dias depois, seria publicada a notícia de que “a Itália está em chamas” (29/4, pág. 2), com o confronto entre “fascistas, nacionalistas e maximalistas” (como eram chamados os bolcheviques), que “matam-se uns aos outros”.

Na avaliação de Libero Ancona, a Itália vivia, então, “os melhores momentos de sua existência” e, “apesar das lutas e dos tumultos, as letras, a arte, o teatro, tudo, enfim, progrediu”. Ao contrário de Serva, porém, faltou ao comentarista um pouco mais de visão a longo prazo:

“Os fascistas um dia desaparecerão, talvez em breve, mas (...) a semente foi lançada, e a floração não tardará a despontar. A Itália dirige-se a grandes passos para o caminho da Glória”.

Nas semanas e meses seguintes, a crise interna se intensifica, com “lutas intestinas” em toda a Itália entre fascistas e comunistas e uma “grave situação política”. Em dezembro, o registro no jornal (17/12, pág. 3) de que o radicalismo era uma consequência da Primeira Guerra.

“O ‘fascismo’ e outros tantos ‘ismos’ foram alimentados pela injustiça de que a Itália foi alvo na repartição dos frutos da vitória comum, para a qual ela —talvez a única entre todos os Aliados— deu ‘tudo’ o que podia dar em sangue e riqueza”, escreveu o correspondente David (com o sobrenome ilegível no arquivo).

Em novembro, aparece publicado na Folha o nome do futuro ditador Benito Mussolini (8/11, pág. 3). Naquele mesmo mês ele fundaria, em Roma, o Partido Nacional Fascista. No ano seguinte, chegaria ao poder, do qual só sairia em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial.

Outro protagonista daquele ano foi a Rússia, que, pelas páginas do jornal, vivia “uma tragédia longínqua” (17/3, pág. 3), quatro anos após a queda da monarquia e a chegada ao poder de Vladimir Lênin —e um antes do surgimento da União Soviética. “Nestes quatro anos ficou demonstrada que a ditadura proletária é a pior que existe —a mais sangrenta, a mais vingativa, a mais terrorista.”

Mas dali, além da situação política e do terceiro Congresso da Internacional Comunista, chamava a atenção o início de uma grande fome, causada por uma combinação entre guerra civil, seca e apropriações de alimentos do regime, que duraria até o ano seguinte, tendo matado cerca de 5 milhões de pessoas.

Em “Um Exército Vermelho contra os famintos” (10/8, pág. 7), foi dada a notícia de que o governo russo havia enviado tropas para “deter a marcha dos famintos procedentes da províncias do leste do rio Volga e que avançam em direção de Kazan, devastando tudo. (...) O ministro da Guerra, Trotsky, comanda pessoalmente as operações”.

Também mereceram registros convulsões políticas em Portugal, que teve ministros assassinados em outubro, em uma revolta causada pelo “descontentamento geral”, na Espanha, que teve seu primeiro-ministro Eduardo Dato morto por anarquistas catalães, no Japão, que também viu seu premiê Hara Takashi ser assassinado, além de confrontos entre o exército irlandês (IRA) e o Reino Unido.

Do ponto de vista das relações internacionais, o Brasil era retratado como um país bem recebido na Europa, por meio de seu então embaixador na França, Gastão da Cunha; respeitado pela Liga das Nações, com o jurista e diplomata Ruy Barbosa eleito naquele ano para a Corte Internacional de Justiça; e alvo de ciúmes dos vizinhos sul-americanos, “por sua hegemonia diplomática”, já que, diferentemente da Argentina e do Chile, a representação oficial da Itália no Brasil tinha status de embaixada.

O Itamaraty também tinha papel importante nas tratativas para a vinda ao Brasil de mão de obra imigrante, vista como essencial para o “progresso nacional” e para o seu “futuro econômico”. Em dezembro, foi publicado que mais de 20 mil imigrantes haviam entrado no Brasil nos seis meses anteriores.

“Sucedem-se na França, na Inglaterra, na Itália, na Áustria, na Hungria (...) as mais pavorosas convulsões sociais. Há miséria, há inquietude, há sustos por toda a parte, quer nas cidades, quer nos campos. Crises sobre crises, revoluções sobre revoluções”, dizia um texto na capa do dia 7 de abril. “As coisas mudaram, evidentemente. Somos nós, agora, que estamos de cima.”


Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito entre países Aliados, principalmente França, Reino Unido, Rússia, Itália, Japão e EUA, e os Impérios Centrais, principalmente Alemanha, Áustria-Hungria e Turquia

MOTIVOS

O assassinato do arquiduque austríaco Franz Ferdinand por um nacionalista sérvio foi o estopim de uma situação que tinha como antecedes a corrida armamentista entre os países da Europa, conflitos territoriais entre Alemanha e França e nos Bálcãs

QUANDO

Durou entre julho de 1914 e novembro de 1918

RESULTADOS

Sem precedentes em termos de destruição e mortes, a guerra está ligada ao fim de quatro dinastias —na Alemanha, Rússia, Áustria-Hungria e Turquia—, à Revolução Russa e à desestabilização interna dos países europeus, o que levaria à Segunda Guerra Mundial

Tratado de Versalhes

Documento de paz assinado no Palácio de Versalhes, na França, entre os países Aliados e a Alemanha, em junho de 1919. Criou a Liga das Nações, uma pré-ONU

EFEITOS CURTO PRAZO

Retirou territórios da Alemanha, forçou a desmilitarização do país e exigiu o pagamento de indenização por danos causados. Em 1921, o valor foi definido em US$ 33 bilhões

EFEITOS LONGO PRAZO

Apesar de revisado nos anos seguintes em favor da Alemanha, historiadores observam que as duras condições do tratado, e a humilhação imposta aos alemães, levaram à ascensão do sentimento nacionalista e à chegada ao poder do nazismo

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