Descrição de chapéu Coronavírus

Apesar da vacina, Reino Unido não está livre de nova onda de Covid, dizem cientistas

Queda em hospitalização e mortes também se deve ao confinamento, avaliam britânicos; sem cuidado, reabertura pode trazer repique em setembro

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Bruxelas

O anúncio de etapas para relaxar o confinamento no Reino Unido, feito nesta segunda (22) pelo premiê Boris Johnson, foi recebido com cautela por cientistas britânicos. Para eles, ainda é cedo para tirar conclusões definitivas sobre o impacto da vacinação, e o sucesso no recente controle da doença também se deve a uma queda de mobilidade de quase 70%, em relação ao começo do ano passado.

Uma evidência da importância do confinamento é que o declínio de novos casos, hospitalizações e mortes ocorreu para todos os grupos da população, e não apenas para os que receberam as vacinas. Números recentes mostraram impacto da imunização nos casos graves de doença, mas uma comparação com Israel também indica o impacto da redução na mobilidade.

A campanha israelense já imunizou mais de 87% da população adulta. Mas, com um confinamento menos rigoroso, as infecções em Israel diminuíram num ritmo que é a metade do registrado no Reino Unido. Eram cerca de 650 novos casos por 100 mil habitantes em Israel na segunda semana deste ano, número que caiu para 312 (cerca da metade). No Reino Unido, onde 27% receberam vacinas, a taxa passou de 475 para 115/100 mil no mesmo período, uma queda de 75%.

Visto recentemente como um caso de sucesso, o Reino Unido ainda tem taxas de infecção maiores que a de outros grandes países europeus, porém. Na Alemanha, por exemplo, mesmo com uma vacinação ainda incipiente (6,2/100) a taxa de infecção é a metade britânica (61 novos casos/100 mil). Também sob confinamento, a Alemanha não pretende reabrir até que esse índice caia a menos de 35/100 mil.

A preocupação dos cientistas britânicos é justamente que a maior mobilidade reduza os ganhos já conquistados. “Com um pouco de sorte, parece que escaparemos do grande aumento de casos previsto em junho e julho (graças às vacinas serem melhores do que pensávamos). Mas isso nos deixará muito relaxados e abriremos a guarda para variantes resistentes às vacinas, que trarão novo repique em setembro”, disse Martin Hibberd, professor de doenças infecciosas emergentes da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM).

Os dados britânicos mais recentes, divulgados nesta quarta, são uma boa notícia, mas não permitem ainda relaxar, afirma o professor de estatística aplicada Kevin McConway, da Open University. “É impossível prever o que acontecerá com as mortes, mas, se elas mantivessem o ritmo de redução atual, ainda estaríamos com mais de 100 mortes por semana até junho.”

Ele disse esperar que, com o avanço da vacinação, as mortes recuem mais rapidamente, "mas é difícil ter certeza absoluta neste estágio”. Mesmo que os efeitos da vacinação se tornem mais claros e fortes, haverá pressões na direção oposta à medida que as restrições de bloqueio forem removidas, afirma ele.

importação de casos

Boris acenou com a possibilidade de liberar viagens internacionais a partir do final de maio, o que eleva esse risco, na opinião de Linda Bauld, professora de saúde pública da Universidade de Edimburgo. “A vacinação será lenta em muitas partes do mundo, e a importação de casos representará uma ameaça significativa a qualquer progresso que fizermos dentro do país”, afirmou.

O risco existe porque o Sars-Cov-2 ainda está se adaptando a seu hospedeiro humano, como mostram as variantes mais contagiosas descobertas nos últimos meses, segundo o professor Stephen Griffin, da escola de medicina da Universidade de Leeds.

“Ainda que as vacinas claramente limitem fortemente as consequências mais graves da infecção pelo coronavírus, permitir a circulação contínua do patógeno representa um risco muito real de que variantes mais sérias possam emergir para evitar os imunizantes”, disse ele. Para Griffin, “é imprudente, na melhor das hipóteses”, permitir que o Sars-Cov-2 continue se disseminando.

O professor defende que já há armas suficientes para permitir o relaxamento das restrições, entre elas as vacinas e o fato de que a população está “atenta e vigilante”. “Com a melhora do clima, nosso comportamento limitará ainda mais a propagação do vírus.” Segundo ele, o ponto fraco ainda é o sistema de rastreamento de casos e contatos.

Hibberd, da LSHTM, concorda. De acordo com ele, se o esquema de testes, rastreamento e isolamento não for fortalecido para localizar e conter rapidamente um repique após o verão, novos confinamentos podem ser necessários no próximo inverno.

Especialistas em saúde pública também criticaram as quatro pré-condições anunciadas por Boris ao apresentar seu roteiro para o desconfinamento na Inglaterra: 1) que o programa de vacinação mantenha o bom desempenho atual; 2) que as vacinas reduzam hospitalizações e mortes; 3) que as taxas de infecção não sobrecarreguem os hospitais e 4) que a avaliação dos riscos não seja alterada por novas variantes.

“Essas condições são todas vagas”, criticou Peter English, consultor em controle de doenças transmissíveis e presidente do Comitê de Medicina de Saúde Pública da Associação Britânica de Medicina (BMA). Sem detalhes de como elas serão monitoradas e quais os parâmetros usados, será difícil avaliar a pertinência de novas aberturas, afirmou.

a volta das aulas

English considera que as datas mínimas divulgadas por Boris para o começo de cada uma das quatro etapas de relaxamento são “altamente otimistas”. “Talvez para levantar o moral, melhorar as relações públicas ou contentar os críticos do Partido Conservador, ansiosos por reduzir as restrições mais rapidamente do que recomendam consultores científicos e médicos do governo”, disse ele.

Um dos passos controversos, de acordo com o consultor, é reabrir todas as escolas ao mesmo tempo, em 8 de março: “Isso aumentará a transmissão e o número de novos casos”. Em outros países, a reabertura tem sido feita progressivamente, dos alunos mais novos para os mais velhos. Essa seria uma estratégia mais cautelosa, de acordo com Michael Head, pesquisador de saúde global da Universidade de Southampton. “As crianças precisam desesperadamente voltar à escola, mas a desvantagem do retorno total é uma aceleração no contágio.”

De acordo com a BMA, a Associação de Diretores de Saúde Pública e o grupo independente de conselheiros do governo (Sage), o ideal seria não reabrir todas as escolas até que o número de novos casos caísse abaixo de 10 por 100 mil habitantes na semana. Até lá, deveriam ser adotados revezamentos e escalonamentos.

O consultor também defende a implantação de medidores de dióxido de carbono (que permitem estimar o acúmulo de aerossóis e gotículas respiratórias potencialmente infecciosas) em todas as salas de aula. Se a concentração atingir um nível inadequado, portas e janelas seriam abertas e, no limite, as salas seriam esvaziadas.

Embora tenha ficado pessoalmente satisfeito com o anúncio do relaxamento —“Será ótimo poder voltar ao cinema”—, o virologista Julian Tang, professor da Universidade de Leicester, disse que será preciso acompanhar de perto a população jovem ainda não vacinada. “Mesmo que não precisem de hospitalização, eles podem desenvolver complicações duradouras por causa da Covid-19, transferindo a carga para outros departamentos do sistema de saúde”, afirmou.

Tang observa que mais da metade da população do Reino Unido ainda é suscetível ao coronavírus, “incluindo os menores de 18 anos, um reservatório comum para vírus respiratórios sazonais”, e essa falta de imunidade coletiva é o que impulsiona as pandemias de vírus. Por isso, afirma ele, é fundamental o intervalo de quatro a cinco semanas entre cada etapa de relaxamento.

“Com mais de 4 milhões de casos e 120 mil mortes, espero que tenhamos aprendido que este vírus e suas diversas variantes precisam ser tratados com respeito e cautela”, disse Tang.

“Devemos ser cautelosos. Dados recentes sobre os números de casos sugerem que o declínio na epidemia pode já estar diminuindo e, portanto, a taxa de contágio começando a subir. Se essa tendência continuar, podemos ter menos espaço de manobra durante os próximos dois meses”, disse Paul Hunter, professor de medicina da Universidade de East Anglia.

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