Descrição de chapéu Portugal

Após bom resultado na eleição, direita populista tenta ganhar capilaridade para se fortalecer em Portugal

Ideia é conquistar o máximo de representações em Câmaras Municipais para tentar romper barreiras nacionais

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Lisboa

Embalado pelo bom resultado nas eleições presidenciais, de onde saiu com o terceiro lugar e a preferência de 11,9% dos eleitores, o partido populista Chega tenta usar as eleições municipais —previstas para setembro— para forçar sua entrada no processo de decisões de governo em Portugal.

A ideia é conquistar o máximo de representações em Câmaras Municipais (equivalentes das prefeituras) para conseguir romper o “cordão sanitário” —como os portugueses têm chamado a aliança contra a ultradireita que vem sendo costurada pelos partidos tradicionais da centro-direita portuguesa, o PSD e o CDS-PP.

Amparando propostas como a castração química de pedófilos e a pena de morte, além de defender que não existe racismo em Portugal, o Chega conquistou não apenas o voto antissistema, mas também eleitores descontentes com o restante da direita no país.

Uma boa parte da campanha presidencial do líder do partido, André Ventura, 38, foi feita a partir do antagonismo com outros candidatos, sobretudo com a socialista Ana Gomes.

Líder do Chega, André Ventura discursa em um hotel de Lisboa após resultado da eleição
Líder do Chega, André Ventura discursa em um hotel de Lisboa após resultado da eleição - Pedro Rocha - 24.jan.21/AFP

Vice-colocada nas eleições, Gomes havia prometido pedir a extinção do Chega caso fosse eleita. Embora não tenha conquistado a vaga em Belém, resolveu ir em frente com a ideia e acaba de apresentar um pedido à Procuradoria-Geral da República para ilegalizar a legenda.

Entre os 40 pontos apresentados para embasar o pedido, a jurista cita exemplos de incitação à violência e levanta possíveis irregularidades de financiamento. Constitucionalistas, no entanto, consideram difícil que a proposta de irregularizar o Chega vá para a frente.

Na avaliação do cientista político António Costa Pinto, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o crescimento do Chega mostra uma reconfiguração da direita em Portugal, onde pesquisas eleitorais já mostravam que cerca de 20% dos eleitores eram sensíveis ao tipo de discurso punitivista propagado pelo partido.

A diferença é que, até agora, esses eleitores eram absorvidos pelos partidos democráticos tradicionais.

Segundo Costa Pinto, Portugal passa a enfrentar um dilema que já era presente para partidos da direita tradicional em outros países europeus, com a sombra de um partido populista em crescimento.

“Se o Chega conseguir manter estes 10% [dos votos] em eleições legislativas, vai crescer e ser um elemento fundamental para a governar à direita neste país”, afirma.

O Chega conseguiu votações expressivas em vários distritos, inclusive em tradicionais redutos comunistas, como o Alentejo. Muitos votos também foram conquistados em bairros nobres de Lisboa, Cascais e no Algarve, mostrando a penetração do partido neste segmento mais rico.

“Se Portugal tivesse voto obrigatório como no Brasil, o Chega tinha 30% nestas eleições ou mais, com certeza”, completa o cientista político, destacando a alta abstenção crônica em seu país.

Oficializado em abril de 2019, em menos de dois anos o Chega já elegeu um deputado e arrebatou quase 500 mil votos no último pleito. O partido, no entanto, ainda é praticamente sinônimo de um homem só: seu líder, o deputado André Ventura.

Professor de direito, Ventura dava expediente na televisão como comentarista do maior time de futebol do país, o Benfica. Na esfera política, ganhou fama nacional em 2017, quando concorria à Câmara Municipal de Loures, na grande Lisboa, e gerou polêmica afirmando que muitos ciganos “vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado”.

Não se elegeu prefeito, mas garantiu o cargo de vereador e passou a planejar voos mais altos, como a criação de sua própria legenda.

A concretização do Chega atraiu para a militância mais do que críticos à comunidade cigana. Indivíduos ligados a movimentos neonazistas se filiaram ao partido e, durante um comício há um ano, um homem foi flagrado reproduzindo a saudação a Hitler.

Embora Ventura tenha expulsado muitos desses elementos e prometido uma política de tolerância-zero, grupos neonazistas ainda costumam mostrar apoio ao partido em eventos e, principalmente, nas redes sociais.

Com o aumento das tensões raciais em 2020, que envolveram ataques à sede de uma ong antirracista e ameaças para que deputadas negras abandonassem o país, Ventura e seu partido estiveram novamente no centro do debate ao negar a existência de racismo em Portugal.

No verão, o partido promoveu duas manifestações para negar a existência de racismo no país.

Segundo a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, as queixas da por discriminação racial e xenofobia mais do que duplicado entre 2017 e 2019 em Portugal.

Em entrevista à revista Sábado no dia seguinte às eleições presidenciais, Ventura afirmou que, a partir daquele momento, já estava completamente voltado às eleições municipais.

“A partir de hoje, o meu trabalho é todo autárquico. Estou convencido de que o verdadeiro salto do partido é as autárquicas. É quando mostraremos que temos dirigentes locais, pessoas que resolvem localmente os problemas, e é a implantação do esqueleto do partido”, afirmou.

Apesar do otimismo de Ventura, o desafio é grande. Recém-formado, o Chega ainda não tem uma máquina partidária regional para combater nos 308 municípios portugueses.

Também estarão em jogo nessas eleições a composição das respectivas Assembleias Municipais e das 3.092 juntas de freguesias (divisões administrativas dentro dos municípios que têm poderes alargados) portuguesas.

A capilaridade requerida pelas eleições autárquicas portuguesas é difícil até para partidos de médio porte já estabelecidos. O Bloco de Esquerda, formado há mais de 20 anos e com terceira maior bancada no Parlamento, não conquistou a presidência de nenhuma Câmara Municipal nas eleições de 2017.

Para tentar conseguir o maior alcance regional possível, o partido tem apostado em viagens de André Ventura pelo país, além da mobilização de lideranças locais dissidentes dos partidos tradicionais.

Segundo o cientista político António Costa Pinto, essas dificuldades tornam improvável que o Chega consiga reproduzir o bom resultado das presidenciais nas próximas eleições municipais.

O professor destaca que o amplo favoritismo de Marcelo Rebelo de Sousa para a reeleição fez com que muitos eleitores “se sentissem mais livres” para votar por afinidade ou como protesto, o que beneficiou André Ventura na disputa à Presidência.

“Mas as próximas são eleições em que o voto útil vai funcionar mais. Portanto, é muito provável que Ventura não consiga os 10% nas eleições autárquicas”, completou.

Apesar da estratégia de isolamento articulada na última semana, o segundo maior partido no Parlamento, o PSD (Partido Social-Democrata), não deixou passar a primeira oportunidade que teve de negociar com o Chega, no fim do ano passado.

Foi apenas com o apoio dos deputados eleitos pelo Chega que os sociais-democratas puderam interromper, no fim de 2020, os 30 anos de administração do Partido Socialista na Região Autônoma dos Açores.

Classificando como “bullying político” o cordão sanitário proposto pela direita tradicional, André Ventura chegou a ameaçar romper o arranjo estabelecido no arquipélago, o que, por enquanto, ainda não aconteceu.

Procurado, o Chega não respondeu aos contatos da Folha.

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