Biden liga para rei saudita às vésperas de EUA publicarem relatório sobre morte de Khashoggi

Segundo documento da CIA, príncipe herdeiro Mohammed bin Salman ordenou assassinato de jornalista

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São Paulo e Londres | Reuters

Às vésperas da divulgação de um relatório da CIA (agência americana de inteligência) sobre o assassinato de Jamal Khashoggi, o rei Salman, da Arábia Saudita, falou ao telefone com o presidente dos EUA, Joe Biden, na noite desta quinta-feira (25).

Apesar de ter sido apresentada como uma ligação diplomática, o verdadeiro objetivo seria avisar o rei saudita de que o relatório de inteligência sobre a morte do jornalista no consulado saudita em Istambul, em 2018, será desclassificado e publicado.

A agência de inteligência concluiu, ainda no ano da morte, que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman mandou matar Khashoggi.

No comunicado da Casa Branca sobre o telefonema, porém, não é feita nenhuma menção ao jornalista saudita.

Segundo o texto, os dois líderes falaram sobre os esforços diplomáticos para acabar com a guerra no Iêmen, bem como um compromisso dos EUA em ajudar o reino a defender seu território de grupos alinhados com o Irã.

De acordo com a agência de notícias oficial do país do Oriente Médio, a SPA, "o rei enfatizou na convocação com o presidente Biden os laços profundos entre os dois países e a importância de impulsionar a parceria para servir aos interesses mútuos e alcançar a segurança e estabilidade regional e internacional".

Mais cedo nesta quinta, o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, disse que a publicação das informações será um passo para garantir a responsabilidade e transparência do que realmente aconteceu.

Khashoggi era colunista do jornal The Washington Post e crítico do príncipe saudita, conhecido pela sigla MBS. Ele foi visto pela última vez no consulado em 2 de outubro de 2018, onde teria recebido injeção letal antes de ter o corpo esquartejado e os restos mortais —nunca encontrados— retirados do local em sacos de lixo.

Dias depois, a CIA afirmou ter obtido um áudio no qual se ouvia o jornalista de 59 anos sendo torturado. Segundo a agência, o crime foi ordenado pelo príncipe para calar o jornalista.

Uma investigação liderada pela ONU apontou, em fevereiro de 2019, haver evidências de que o Khashoggi foi morto de modo premeditado e brutal. O regime nega qualquer relação com o assassinato.

Documentos obtidos pela rede americana CNN mostraram que duas aeronaves usadas pelos assassinos de Khashoggi eram de uma empresa do fundo soberano da Arábia Saudita, controlado pela coroa e comandado pelo príncipe herdeiro.

A informação foi divulgada na quarta-feira (24) pela emissora, que teve acesso aos documentos judiciais de um processo movido em um tribunal do Canadá. Os papéis são assinados por um ministro saudita.

Segundo as informações divulgadas, os executores de Khashoggi viajaram em dois aviões da empresa Sky Prime Aviation que, em 2017, foi transferida para o fundo soberano do país do Oriente Médio.

​Os arquivos que ordenam a transferência da empresa incluem o selo do reino saudita e o seguinte aviso: "Muito secreto, muito urgente, não é para circulação", de acordo com a tradução fornecida ao tribunal.

Os documentos integram um processo que empresas estatais sauditas movem contra um ex-funcionário da inteligência do país por desvio de verbas públicas, Saad Aljabri. No ano passado, ele acusou o príncipe herdeiro de enviar uma equipe para matá-lo no Canadá poucos dias após o assassinato de Khashoggi. O caso segue em aberto.

A Sky Prime Aviation era comandada pelo genro de Aljabri, Salem Almuzaini. De acordo com sua denúncia, Almuzaini foi sequestrado em Dubai em setembro de 2017 e devolvido à força para a Arábia Saudita, onde foi torturado durante meses. Hoje, seu atual paradeiro é desconhecido.

O governo saudita não comentou a divulgação dos documentos.

Em 2019, a Arábia Saudita sentenciou cinco pessoas à morte e outros três à prisão pelo assassinato de Khashoggi. Segundo o procurador do processo, a morte não foi premeditada, mas aconteceu “por um impulso no momento”.

No ano seguinte, porém, a Justiça anulou as penas de morte, e eles foram condenados a até 20 anos de reclusão.

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