Descrição de chapéu Portugal

Brasileira junta dinheiro com vaquinha online e monta casa para artistas trans em Portugal

Despejada no início da pandemia, Aquila Correia fundou centro para acolher outros migrantes e conquistou prêmio com novo clipe

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Marina Watson Pelaez
Lisboa | Reuters

Depois de trabalhar na prostituição para sobreviver como migrante transgênero, Áquila Correia conseguiu participar e ser escolhida em várias audições —incluindo uma para um vídeo de Madonna— e estava perto de realizar seus sonhos em Portugal.

Então veio a pandemia de Covid-19, e Correia foi despejada, apesar de o governo português ter vetado a prática no caso de inquilinos sem dinheiro. Como brasileira negra sem documentos e sem um contrato formal, porém, Correia não teve escolha senão arrumar as malas.

Luan Okan, Gu Nunes, Aicy Ray e Áquila Correia (da esquerda para a direita), moradores da Casa T, em Lisboa
Luan Okan, Gu Nunes, Aicy Ray e Áquila Correia (da esquerda para a direita), moradores da Casa T, em Lisboa - Marina Watson Pelaez/Fundação Thomson Reuters

Decidida a seguir sua carreira, ela usou o site GoFundMe para levantar 4.000 euros (R$ 26,4 mil) e montou o primeiro abrigo e espaço criativo de Portugal para migrantes trans, que desde então produziu um videoclipe premiado.

"Eu fiquei desesperada", disse a jovem de 28 anos na sala do apartamento em Lisboa que ela chamou de Casa T.

"Eu não tinha para onde ir e percebi que outras pessoas estavam na mesma situação... A ideia surgiu como uma maneira de pessoas como eu não precisarem depender do trabalho sexual, terem outra opção."

A Casa T abriga atualmente seis migrantes trans, que foram despejadas ou não puderam pagar o aluguel em meio ao caos econômico do novo coronavírus, que devastou o país europeu.

A discriminação contra pessoas trans é forte em Portugal.

Uma em cada cinco pessoas trans ou intersexo foi atacada físicamente ou sexualmente no país nos últimos cinco anos, segundo uma pesquisa de 2020 feita pela agência para direitos fundamentais da União Europeia —o número é o dobro dos ataques sofridos por outras pessoas da comunidade LGBT+.

Para migrantes de minorias étnicas, é ainda mais difícil.

"A discriminação aumenta quando você é trans, migrante e negro", disse Luan Okan, 25, outro brasileiro que mora na Casa T.

"As pessoas se recusavam a me chamar pelo pronome com o qual me identifico... Os imigrantes enfrentam muitas barreiras. Você não consegue um emprego com contrato e trabalha horas e horas por salários muito baixos."

Okan estudou para ser ator, mas só encontrou trabalho como faxineiro. Ele teve um colapso mental e procurou a Casa T.

"Ter uma casa foi a maior ajuda", disse, vestido de preto com os cabelos pretos curtos dos lados e pintados de roxo no alto.

"Foi mais fácil começar o aconselhamento e me fortalecer para enfrentar o mercado de trabalho de novo se necessário. Através da Casa T, tive a oportunidade de me dedicar ao trabalho artístico."

Desde que moram juntos, os residentes da Casa T produziram um vídeo de música gótica, "Bruxonas", que ganhou o prêmio brasileiro de música m-v-f na categoria de melhor vídeo da pandemia.

Ele apresenta Correia, num vestido preto, chapéu e luvas vermelhos, bebendo vinho tinto e depois usando uma tocha para incendiar uma boneca com cara de "smiley" em tamanho real.

"A noite cai... é hora de as bruxonas trabalharem", anuncia a letra inicial da canção, que também foi selecionada para o For Rainbow - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual e de Gênero, no Brasil.

"Bruxonas" é a primeira de sete canções que Correia pretende lançar em 2021, numa aposta para mudar a forma como as mulheres trans negras são vistas em Portugal, mostrando-as como poderosas e mágicas.

"Há um preconceito generalizado contra as mulheres brasileiras", disse Marta Ramos, chefe da Ilga Portugal, o maior grupo de defesa LGBT+ do país.

"Há uma hipersexualização de seus corpos e experiências, e portanto muito preconceito sobre comportamento sexual promíscuo —e racismo e xenofobia evidentes no caso de mulheres negras."

A Casa T também ofereceu abrigo para Aicy Ray, uma animadora freelance que precisou de ajuda depois que teve a eletricidade cortada.

"Este é o único lugar onde posso trabalhar em que não sou submetida a racismo e xenofobia", disse Ray, 31, nascida na Guiné-Bissau e criada em Portugal, descrevendo os olhares lascivos que recebeu quando fazia fila para votar no mês passado.

"As pessoas não ficam à vontade ao ver uma pessoa negra transgênero. A Casa T me ofereceu o lugar seguro de que eu precisava para realizar meu trabalho artístico, que é minha única fonte de renda."

O racismo é uma preocupação crescente para pessoas negras em Portugal, depois do assassinato, no ano passado, do ator português negro Bruno Cande, morto a tiros na rua por um homem branco que lhe disse para voltar para casa.

A eleição presidencial em janeiro também viu um apoio crescente a André Ventura, do partido de direita radical Chega e conhecido por seus comentários depreciativos às minorias étnicas.

Margarida Alonso, assistente social na casa Qui, que apoia jovens LGBT+, disse que migrantes trans vulneráveis de países como o Brasil precisam de mais apoio.

"Eles fogem de um Estado opressor que não permite que sejam quem são", disse ela.

"O trabalho que a Casa T realiza para atender às necessidades específicas da comunidade de migrantes transgênero em Portugal é admirável. É crucial que haja mais Casas T."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves  

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