Em vitória de relações-públicas, China colhe boa repercussão após missão da OMS em Wuhan

Peritos elogiam autoridades chinesas e endossam partes críticas de sua narrativa

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Javier C. Hernández
The New York Times

Durante meses, a China resistiu a permitir que a Organização Mundial da Saúde (OMS) enviasse especialistas ao país para pesquisar as origens da pandemia de coronavírus, preocupada que tal investigação chamasse a atenção para os primeiros passos enganosos do governo chinês na condução do surto.

Depois de um clamor global, Pequim finalmente cedeu, permitindo que uma equipe de 14 cientistas visitasse laboratórios, centros de controle sanitário e mercados de animais vivos nos últimos 12 dias na cidade de Wuhan.

Mas, em vez de criticar, os peritos da OMS elogiaram nesta terça-feira (9) as autoridades chinesas e endossaram partes críticas de sua narrativa, incluindo algumas que eram motivo de dúvida.

Chineses usam máscara para se prevenir do coronavírus em mercado de Wuhan, na província de Hubei
Chineses usam máscara para se prevenir do coronavírus em mercado de Wuhan, na província de Hubei - Aly Song - 8.fev.21/Reuters

A equipe da OMS abriu a porta para uma teoria adotada pelas autoridades chinesas, segundo a qual seria possível que o vírus tivesse se espalhado para os seres humanos em remessas de alimentos congelados, ideia que recebeu pouco apoio de cientistas fora da China.

E os especialistas prometeram investigar relatos de que o vírus poderia estar presente fora da China meses antes do surto em Wuhan no final de 2019, uma antiga demanda das autoridades chinesas.

"Nós deveríamos realmente procurar evidências de circulação anterior, em qualquer lugar", disse Marion Koopmans, especialista holandesa em vírus na equipe da OMS, em uma conferência de três horas em Wuhan, onde os especialistas apresentaram suas conclusões preliminares juntamente com cientistas chineses.

Alguns cientistas temem que transferir a atenção para outros países possa fazer com que a investigação perca o foco. Determinar o que aconteceu nos primeiros dias do surto na China é considerado vital para evitar mais uma pandemia.

A equipe também descartou a ideia de que o vírus teria vazado acidentalmente de um laboratório chinês, que até alguns cientistas céticos dizem que vale a pena explorar. Essa teoria é diferente de uma amplamente desacreditada que foi aventada por políticos republicanos nos Estados Unidos —a de que um laboratório chinês fabricou o vírus para uso como arma biológica.

Equipe da OMS que visitou Wuhan durante entrevista coletiva em um hotel na cidade chinesa
Equipe da OMS que visitou Wuhan durante entrevista coletiva em um hotel na cidade chinesa - Aly Song - 9.fev.21/Reuters

A OMS, por definição, é respeitosa com seus países membros e há muito adota um tom diplomático ao lidar com o governo chinês, que é notoriamente resistente ao escrutínio externo. A investigação ainda está em suas primeiras fases —poderá levar anos—, e as autoridades da OMS prometeram um exame rigoroso e transparente dos dados e pesquisas da China e outros países.

Mas as conclusões anunciadas nesta terça deram a Pequim uma vitória de relações-públicas, enquanto ela sofre ataque de autoridades dos EUA e outros países por suas tentativas iniciais de ocultar o surto da doença.

"Este é o apoio mais autorizado que a China recebeu em termos de sua narrativa oficial", disse Yanzhong Huang, pesquisador de saúde global no Conselho de Relações Exteriores. Huang disse que a OMS deve continuar pressionando a China por dados e acesso.

"Uma visita não é tempo suficiente para fazer uma investigação completa", disse. "Eles estão fazendo todo o trabalho dentro dos parâmetros definidos pelo governo chinês."

A equipe não relatou grandes avanços, mas disse que descobriu pistas importantes. O vírus estava circulando em Wuhan várias semanas antes que aparecesse no mercado atacadista de frutos do mar Huanan, onde alguns dos primeiros núcleos foram relatados, disseram os especialistas.

Muito provavelmente ele surgiu em morcegos e se disseminou para pessoas por meio de outro pequeno mamífero, embora os especialistas não tenham sido capazes de identificar a espécie.

"Todo o trabalho que foi feito sobre o vírus e para tentar identificar sua origem continua indicando um reservatório natural", disse Peter Ben Embarek, cientista de segurança alimentar na OMS que chefia a equipe de especialistas, em uma entrevista coletiva.

Ben Embarek disse ser "extremamente improvável" que o vírus tenha saído de um laboratório que estuda coronavírus de morcegos em Wuhan.

A equipe se reuniu na semana passada com líderes do Instituto de Virologia de Wuhan, que possui um laboratório de ponta, e Ben Embarek disse que "é muito improvável que alguma coisa pudesse escapar desse lugar", citando os protocolos de segurança locais.

As autoridades chinesas promoveram com ênfase na entrevista coletiva desta terça a ideia de que o vírus veio do exterior, afirmando que a busca por sua origem deve se concentrar em lugares fora da China.

A investigação "não se restringirá a qualquer lugar", disse Liang Wannian, que liderou a equipe de cientistas chineses que assistiu a missão da OMS. Ele disse que pesquisadores chineses não encontraram evidência de que o vírus circulava na China em larga escala antes de dezembro de 2019.

Em Washington, Ned Price, porta-voz do Departamento de Estado, disse em uma conferência de notícias regular que os EUA esperariam para ver o relatório da OMS antes de tirar conclusões sobre suas descobertas e quão transparente Pequim foi com os investigadores.

Durante sua visita a Wuhan, membros da equipe da OMS disseram que tentariam evitar questões políticas e que fariam perguntas duras.

Em Wuhan, onde se submeteram a duas semanas de quarentena antes de começar a trabalhar, eles deram entrevistas à mídia e foram fotografados sendo testados para o coronavírus. Eles usaram as redes sociais para dar maior transparência à visita, postando fotos e comentários sobre suas comunicações com cientistas chineses.

Os especialistas elogiaram diversas vezes os colegas chineses, dizendo que o governo agiu de boa fé ao conceder acesso a locais importantes, incluindo laboratórios e mercados. Na entrevista coletiva nesta terça, os especialistas foram cordiais e não contestaram declarações de seus anfitriões chineses.

A equipe da OMS enfrentará pressão nos próximos meses não somente para resolver questões científicas delicadas, como para demonstrar que está realizando uma investigação justa e dura.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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