Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Com alta do desemprego na pandemia, aumenta número de jovens que querem virar militares

Inscrições aumentaram na Austrália, Canadá e Coreia do Sul, enquanto incorporados permanecem mais tempo nos EUA e em Israel

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Andrew Jeong/The Wall Street Journal
Nonsan (Coreia do Sul)

Trancado em casa e tendo aulas online, Kyle Choi, 20, decidiu onde iria viver durante a pandemia: nas Forças Armadas da Coreia do Sul.

Choi, um estudante universitário em Seul, antecipou seus planos para cumprir o serviço militar obrigatório de 18 meses. Como estudante de engenharia ambiental, ele temia que o ensino virtual não oferecesse experiências críticas para sua educação. Por isso, no fimde dezembro, ele se alistou voluntariamente no serviço militar nesta cidade na região central do país.

"Você tem de ir, de qualquer jeito", disse ele. "Dá na mesma ir agora."

Artilharia do Exército de Israel realiza treinamento em vilarejo palestino
Artilharia do Exército de Israel realiza treinamento em vilarejo palestino - Hazem Bader - 2.jan.21/AFP

Em todo o mundo, o número de alistamentos militares está aumentando, conforme jovens adultos buscam refúgio da pandemia que limitou as oportunidades de emprego, a vida social e a educação tradicional. O alistamento muitas vezes inclui vantagens como testes de saúde gratuitos, tratamentos e vacinas contra o vírus. O distanciamento social tornou algumas facetas da vida militar menos difíceis.

O Canadá teve um aumento de 37% nas inscrições para serviço militar nos últimos nove meses de 2020, em comparação com o ano anterior. No ano completo, a Austrália relatou um crescimento de 9,9% sobre 2019. O Reino Unido atingiu na última primavera sua meta anual de recrutamento pela primeira vez em sete anos e caminha para fazê-lo novamente neste ano, segundo uma porta-voz do governo.

O Exército dos Estados Unidos viu cerca de 92% de seu pessoal apto se realistar para o ano que terminou em setembro. No ano anterior foram 83%, disse uma porta-voz.

Essa dinâmica está se mostrando ainda mais firme em lugares onde o serviço militar é obrigatório. Cerca de um terço dos 191 países incluídos em um relatório feito em 2019 pelo Centro de Pesquisas Pew, sediado em Washington, têm recrutamento militar ativo.

Na Coreia do Sul, mais de 195 mil jovens enviaram inscrições para iniciar treinamento básico nos primeiros quatro meses de 2021, um aumento de 44% em relação ao ano anterior, segundo uma análise de números públicos feita pelo Wall Street Journal. É provavelmente o maior aumento anual desde que o governo começou a compilar o número de candidatos em 2008, disse um porta-voz do governo sul-coreano.

Em Israel, os jovens não têm opção sobre o alistamento, quase sempre prestando serviço depois do ensino secundário. Mas um número maior deles está pedindo para prolongar o período militar em vários meses, pois as ofertas de emprego no mundo civil diminuem devido à pandemia, segundo as Forças de Defesa Israelenses.

Os períodos de retração econômica historicamente provocaram mais pedidos de alistamento militar, tendência que traz benefícios à defesa nacional, disse Beth Asch, economista na Rand Corp., grupo de pensadores apartidário sediado em Santa Monica, na Califórnia. Com menos oportunidades de emprego em outros setores, o número de recrutas de melhor qualidade nos EUA aumentou durante tempos de desemprego elevado em recessões econômicas, segundo dados militares de 1984 a 2017.

Nos anos ao redor da crise financeira de 2008, o Exército, os Fuzileiros Navais, a Marinha e a Força Aérea dos EUA puderam aumentar o número de recrutas que tiveram nota superior a 50% no Teste de Qualificação das Forças Armadas, um exame padronizado que mede a aptidão em técnicas linguísticas e matemáticas, segundo a pesquisa de Asch. A proporção de recrutas de alta qualidade cresceu em todas as forças, sendo o maior salto na Força Aérea, de aproximadamente 20 pontos percentuais.

"Uma maior qualidade das tropas significa uma porcentagem maior deles servindo além do período habitual, rápido aprendizado e melhor interação com os outros", disse Asch.

A pandemia atingiu especialmente os jovens trabalhadores. Em 2020, cerca de 8,7% dos indivíduos entre 15 e 24 anos perderam o emprego ou deixaram totalmente a força de trabalho —mais que o dobro do índice de adultos mais velhos—, segundo um relatório de janeiro da Organização Internacional do Trabalho, um órgão da ONU.

Na Coreia do Sul, a economia perdeu ao todo 218 mil empregos em 2020, e o índice de desemprego jovem superou 8% em dezembro. O governo de Seul conseguiu limitar os surtos de Covid-19, e as exportações movimentaram a economia do país, mas o crescimento dos empregos estagnou.

Isso levou muitos a se inscreverem antes da idade exigida para prestar o serviço militar obrigatório. Também tornou competitivos alguns cargos antes menosprezados. Quase o dobro de homens se inscreveram para ser mecânicos em unidades de engenharia do Exército a partir de abril, comparados com o mesmo mês no ano passado.

Mais de 60% a mais pediram para ser trabalhadores manuais na construção de acampamentos do Exército a partir de abril. A demanda para se tornar cozinheiro do Exército cresceu 30%.

Lee Jae-sung, que entrou no serviço militar sul-coreano no final do ano passado, era modelo quando a Covid-19 começou a crescer há um ano. O trabalho secou rapidamente com o cancelamento dos desfiles de moda. Lee decidiu com relutância entrar para o serviço militar para escapar da crise econômica.

"Não pude nem me despedir pessoalmente", disse Lee, 23, que gostaria de se tornar ator quando terminar o serviço. "Espero que o coronavírus tenha desaparecido então."

Mesmo em meio à pandemia, algumas facetas do alistamento militar continuam iguais. Nos portões de uma base do Exército sul-coreano em Nonsan, no final de dezembro, Lee Jae-hoon, 20, estava de mãos dadas com sua namorada. Diante da concorrência, ele não esperava ser aceito como mecânico de helicópteros. Agora ele estava a minutos de se apresentar para o treinamento básico.

O casal conversava sobre o que fariam enquanto estivessem separados. "Você vai me escrever?", perguntou Lee. A garota respondeu com um sorriso.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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