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É intolerável que as empresas de tecnologia tenham poder absoluto, diz acadêmica

Para Shoshana Zuboff, mundo está finalmente tentando recuperar o que entregou às big techs

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São Paulo

É "intolerável" que as democracias não tenham ferramentas para evitar que um líder como Donald Trump dissemine mentiras para milhões de pessoas, sob o manto da liberdade de expressão —e que o mundo precise depender do poder absoluto das empresas de tecnologia para evitar que mandatários como Trump fragmentem a sociedade e espalhem o caos.

Essa é a opinião da acadêmica americana Shoshana Zuboff, professora emérita da Harvard Business School e ex-docente associada no Centro Berkman Klein para Internet e Sociedade em Harvard, que acaba de lançar no Brasil seu livro “A Era do Capitalismo de Vigilância”, pela editora Intrínseca.

Zuboff foi uma das primeiras —e é uma das principais— intelectuais a examinar os efeitos das grandes plataformas de internet sobre a sociedade.

Foto mostra Shoshana Zuboff, professora emérita da Harvard Business School e autora do livro "Capitalismo de Vigilância"
Shoshana Zuboff, professora emérita da Harvard Business School - Divulgação

Para ela, o mundo está vivendo um golpe epistêmico antidemocrático, marcado por uma concentração inédita de conhecimento sobre nós, e o poder que deriva desse conhecimento. Zuboff afirma que o golpe se dá em quatro estágios, e nós estamos no terceiro.

No primeiro, origina-se o capitalismo de vigilância, quando empresas descobrem que podem se apoderar da vida das pessoas para extrair dados comportamentais, que elas transformam em sua propriedade privada.

No segundo, há um enorme aumento na desigualdade epistêmica, que é a diferença entre o que nós temos a capacidade de saber, e o que pode ser sabido sobre nós. No terceiro estágio, o atual, começa o caos epistêmico, causado por amplificação movida a algoritmos e lucros, disseminação de informação corrupta, grande parte produzida por esquemas coordenados de desinformação. Os efeitos são polarização, realidades alternativas e incitação à violência, como demonstrou o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro.

No último estágio, a dominação epistêmica está institucionalizada, e a governança computacional do capitalismo privado de vigilância substitui a governança democrática. Abaixo, trechos da entrevista concedida à Folha por videoconferência.

Um projeto de lei introduzido na Austrália obriga as empresas de tecnologia a remunerar os veículos jornalísticos. Em reação, no dia 18 de fevereiro, o Facebook bloqueou todos os conteúdos jornalísticos no país, embora tenha anunciado no dia 23 que restabeleceria o serviço em alguns dias. Essa é uma amostra do excesso de poder das plataformas de internet, que a senhora combate? O quarto estágio do golpe epistêmico é a dominância epistêmica, que é a crescente disposição das empresas de exercer o poder bruto derivado do controle total dos sistemas e da infraestrutura de informação. Normalmente, elas tentam disfarçar esse poder bruto, esconder o fato de poderem ligar e desligar esse poder quando quiserem, e ninguém pode impedir. Elas não querem atrair atenção para isso.

Mas agora, ao demonstrar esse poder abertamente, acho que há uma reação ao techlash [reação negativa às empresas de tecnologia], uma mensagem, um aviso. Rupert Murdoch levantou o assunto, ao dizer “vocês estão roubando nossas notícias, precisam pagar por elas”. Independentemente de se gostar ou não de Murdoch, eu concordo: essas empresas extraem nossas experiências pessoais arbitrariamente, sem que a gente saiba ou consinta, e isso é fundamentalmente ilícito.

O problema é que ninguém está disposto a dizer isso, permitiram que essa extração continuasse, e a democracia sofreu. O que aconteceu na Austrália foi uma espécie de “clawback” [cláusula que permite recuperação ou retenção de valores]. Nós precisávamos desesperadamente de proteção aos jornais 15 anos atrás.

Quinze anos atrás, toda democracia deveria ter entendido que a ideia de disrupção [do setor jornalístico] era como fornecer um carro para ladrões poderem fugir. As democracias deviam ter entendido que o quarto Estado [imprensa] é essencial para uma sociedade democrática, e não é algo que se deixe na mão do mercado. Especialmente quando há assimetrias de mercado em que um grupo pequeno realmente compreende a revolução estrutural tecnológica e a grande maioria não entende.

As sociedades ao redor do mundo finalmente estão começando a refletir sobre tudo o que deram de mão beijada para as empresas de tecnologia e o que permitiram que o capitalismo de vigilância acumulasse —não apenas receita, lucro e capitalização de mercado, mas também conhecimento e o poder que advém desse conhecimento, inclusive sobre infraestrutura.

Que tipo de estratégias de “clawback” estamos vendo? Há estratégias tributárias, como por exemplo no estado americano de Maryland, que irá taxar lucros obtidos no estado. Enquanto tantas empresas passam por dificuldades ou estão à beira da falência, com tantos empregos destruídos e tantas vidas ameaçadas, as empresas de tecnologia flutuam acima de tudo isso, porque lucram com operações que, só agora, começamos a considerar ilegítimas e como ameaças para indivíduos, sociedades e, especialmente, a democracia.

Medidas antitruste são uma estratégia de recuperar esse poder obtido de forma ilegítima? A senhora se mostra cética e já afirmou que medidas contra monopólios não vão solucionar o golpe epistêmico... Como vamos controlar esse monstro que foi libertado, que permitimos que ficasse solto e crescesse em tamanho e poder? Os governos estão tentando várias estratégias, e uma delas é reviver velhas ferramentas. Medidas antitruste são ferramentas óbvias, não há dúvida de que essas empresas são capitalistas implacáveis, que causam muitos danos à concorrência.

Antitruste é bom na medida em que mostra que a democracia está de volta, em ação, pronta para usar a lei contra essas empresas. Mas o perigo da estratégia antitruste é que, apesar de os danos à concorrência serem reais, eles não são os problemas mais graves que temos agora. Os maiores danos que estamos sofrendo derivam da extração de nossas informações pessoais, porque essa é a fonte do microdirecionamento, que, por sua vez, é a fonte da desinformação, amplificação e disseminação.

A desinformação, que leva à fragmentação social, é uma enorme ameaça à democracia. Podemos comparar com o século 20, quando a legislação antitruste foi criada nos EUA. Na época, graças à Suprema Corte, medidas antitruste foram aplicadas contra um enorme monopólio, a Standard Oil. Isso apagou incêndios políticos, porque fez os americanos sentirem que essas empresas gigantes precisavam obedecer às mesmas leis que a população.

Mas as necessidades reais das pessoas na época tinham muito pouco a ver com o que a decisão contra a Standard Oil conseguiu fazer. As pessoas precisavam de direitos trabalhistas, possibilidade de se filiar a sindicatos, de negociar salários coletivamente, de fazer greves, não tinham salários decentes, nem ambiente de trabalho seguro. E as pessoas também precisavam de direitos do consumidor, de garantias de que os remédios não iriam matar e de que a carne enlatada não tinha pelo de rato.

Essas eram as necessidades reais das pessoas, mas levou décadas para que houvesse leis que as abordassem... Agora, nós não temos tanto tempo para desperdiçar. Se optarmos pela estratégia antitruste, que é menos importante, vamos gastar anos nos tribunais.

A senhora menciona no seu livro que enfrentou um incêndio em sua casa e, como nunca tinha passado por nada igual, reagiu como reagiria a problemas conhecidos, com velhas ferramentas. Nesse sentido, estamos usando velhas ferramentas para lidar com um problema sem precedentes? E quais são as ferramentas de que precisamos? Sim. Nas sociedades modernas, as pessoas partem do pressuposto que, como indivíduos independentes, têm um direito fundamental, que é parte integral do ser —o direito elementar de ser a pessoa que detém conhecimentos sobre sua própria experiência, privada, e o direito de dizer quando e como esse conhecimento é usado. Esse direito está sitiado. Se não transformarmos esse direito em uma prerrogativa legal, formal, ele vai deixar de existir.

A privacidade foi, em grande parte, destruída, e precisamos ter legislação para reinstituí-la como direito natural. Não podemos depender de velhas ferramentas, como medidas antitruste, precisamos desenvolver um novo arcabouço legal para abordar danos que nunca havíamos enfrentado antes. Da mesma maneira que as pessoas, no século 19, não tinham leis para lidar com o poder absoluto dos donos das fábricas, que ditavam todas as condições de trabalho.

A senhora acha que as plataformas de internet têm o direito de banir o ex-presidente Donald Trump ou outros líderes? Estamos em 2021, e não temos nenhuma lei para evitar que uma pessoa permaneça na internet para exercer seu direito de mentir, que as mentiras dessa pessoa circulem na corrente sanguínea global, auxiliadas com esses acessórios algorítmicos que as amplificam e levam essas falsidades para todos os cantos do mundo. Não temos leis que nos digam: "Espere aí, isso não é liberdade de expressão, tire essas mentiras daqui, tire esses algoritmos e toda a lógica de lucros, para que possamos ter, realmente, liberdade de expressão".

Twitter e Facebook não são herois. Eles esperaram para agir até o dia em que os Democratas conquistaram o controle do Senado, e eles sabiam que estariam na mira do partido, enquanto Trump passaria os próximos anos sentado em um bar em Mar a Lago. Esperaram até que o estrago já tivesse sido feito. Isso não é heroico.

E isso, para voltar ao início da nossa conversa, tira a máscara dessas empresas, e mostra seu poder bruto. Mostra que, no final das contas, elas controlam tudo. Se apertarem um botão, desligam, mas se decidirem que Trump deve voltar à atividade, apertam o botão e ligam. Isso é inaceitável. Trump deveria ser banido? Sim. Mas o fato de a democracia não ter uma maneira de lidar com isso, e que depende do poder absoluto das empresas de tecnologia para, ocasionalmente, fazer o que precisa ser feito —isso é intolerável.

Era do Capitalismo de Vigilância

  • Preço R$ 99,90 (e-book: R$ 69,90)
  • Autor Shoshana Zuboff
  • Editora Intrínseca
  • Págs. 800
  • Tradução George Schlesinger

Raio-X

Shoshana Zuboff, 69
É professora emérita da Harvard Business School e ex-docente associada no Centro Berkman Klein para Internet e Sociedade em Harvard. Entrou para o corpo docente de Harvard em 1981, onde foi uma das primeiras mulheres contratadas como professora efetiva. Obteve o doutorado em psicologia social na Universidade de Harvard e o bacharelado em filosofia na Universidade de Chicago.

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