Descrição de chapéu Financial Times Coronavírus

Emmanuel Macron quer que Europa e EUA enviem parte de suas vacinas à África

Presidente francês diz que mundo caminha para uma guerra de influência em torno dos imunizantes

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Roula Khalaf Ben Hall Victor Mallet
Londres e Paris | Financial Times

O presidente da França, Emmanuel Macron, diz que a Europa e os Estados Unidos devem alocar em regime de urgência até 5% de seu estoque atual de vacinas a países cujas campanhas de vacinação mal começaram e nos quais a China e a Rússia estão oferecendo seus imunizantes para preencher a lacuna.

Em entrevista dada ao Financial Times por vídeo chamada do Palácio do Eliseu, Macron disse que alguns países africanos estão comprando vacinas ocidentais como as produzidas pela AstraZeneca “a preços astronônomicos” –duas ou três vezes superiores ao preço pago pela UE—, enquanto lhes são oferecidas vacinas chinesas e russas cuja eficácia contra novas cepas do vírus ainda é incerta.

“Estamos deixando que se crie a ideia de que centenas de milhões de vacinas estão sendo aplicadas em países ricos e que nem sequer estamos começando a vacinação em países pobres”, disse Macron antes de uma reunião virtual do G7, marcada para sexta-feira (19), com os líderes das maiores economias do mundo, convocada pelo primeiro-ministro britânico Boris Johnson.

“É uma aceleração sem precedentes da desigualdade global e é politicamente insustentável também, porque está abrindo caminho para uma guerra de influência em torno de vacinas”, disse Macron. “Podemos ver a estratégia chinesa e a russa.”

Dizendo “vamos aplicar toda a pressão ao nosso alcance”, o presidente francês afirmou que é crucial que as empresas farmacêuticas que estão produzindo vacinas transfiram tecnologia para outros países, para acelerar a produção global —e que sejam transparentes em relação a preços.

O conceito de propriedade intelectual é essencial para a inovação, disse o presidente francês, mas, se os fabricantes de vacinas não cooperarem, “a questão política da propriedade intelectual vai inevitavelmente ser colocada", disse. "Não acho que seja a discussão certa, ela não ajuda, mas vai surgir –essa discussão sobre lucros excessivos baseados na escassez da vacina”.

Macron reconheceu que a UE levou mais tempo que os EUA para assegurar a produção e o fornecimento de vacinas para suas próprias populações e admitiu que o bloco enfrenta uma escassez do imunizante, mas disse que direcionar para a África uma pequena parcela das doses das cadeias de fornecimento europeias não prejudicará as campanhas de vacinação do bloco.

“A chave é agir com mais presteza”, ele disse. “Não estamos falando em bilhões de doses imediatamente, nem em bilhões de euros. Estamos falando em muito mais rapidamente alocar [para a África] de 4% a 5% das doses que temos."

“Isso não vai afetar nossas campanhas de vacinação. Cada país deveria reservar um número pequeno das doses de que dispõe para transferir dezenas de milhões delas, mas muito rapidamente, para que as pessoas em campo possam ver que está acontecendo", completou.

Macron revelou que já discutiu a ideia muitas vezes com a chanceler alemã Angela Merkel. “Ela apoia a ideia, estamos de acordo”, ele disse, pedindo “uma iniciativa plenamente europeia e cooperativa” e acrescentando que ele espera convencer também os EUA, onde os estoques de vacina são maiores que na União Europeia.

O líder da França afirmou que o plano será um teste da realidade do multilateralismo. “Não se trata de diplomacia da vacina, não se trata de um jogo de poder. É uma questão de saúde pública”, disse, acrescentando que saúda o fornecimento global de vacinas russas e chinesas, desde que sejam certificadas por cientistas para uso contra as cepas apropriadas do vírus.

“Quando existe uma vacina, é inaceitável reduzir as chances de sobrevivência de uma pessoa de acordo com o lugar onde ela vive.”

Ao mesmo tempo em que reconheceu implicitamente que a distribuição de vacinas para países em desenvolvimento é uma batalha diplomática que os países ocidentais estão perdendo no momento,

Macron disse que é do interesse de todos os países que querem ver suas fronteiras continuarem abertas estender os programas de vacinação para além de seu próprio território.

“Isso é o do interesse dos franceses e dos europeus. Hoje mais de 10 milhões de nossos concidadãos têm famílias que vivem do outro lado do Mediterrâneo.”

Macron, cujo governo vem sendo criticado pela lentidão da distribuição de vacinas na França, insistiu que transferir 3% a 5% do estoque de vacinas para a África não teria impacto sobre o programa de inoculação doméstico.

“Não atrasará nosso programa de vacinação em um único dia, dado o modo como usamos nossas doses”, ele disse. A França prometeu vacinar todos os adultos que quiserem a vacina até o final do verão europeu deste ano.

Segundo o presidente francês, se não ajudarem seus vizinhos da região mediterrânea, no Oriente Médio e nos Bálcãs, os países europeus nunca poderão reabrir suas fronteiras, porque se o fizessem acabariam reimportando variantes do coronavírus resistentes às suas vacinas.

Tradução de Clara Allain

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