Investigação dos EUA diz que príncipe saudita autorizou assassinato de Khashoggi

País anunciou restrição de vistos a 76 pessoas do reino, mas nenhuma sanção direta ao herdeiro

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São Paulo

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, aprovou o plano para assassinar o jornalista saudita Jamal Khashoggi em 2018, de acordo com um relatório secreto da CIA divulgado nesta sexta-feira (26) pela diretora de inteligência nacional, Avril Haines.

No documento de quatro páginas, a agência de inteligência americana descreve que, desde 2017, o príncipe herdeiro, conhecido pela sigla MbS, tem controle absoluto da segurança do reino —e seria impossível, portanto, que oficiais tivessem realizado a operação sem a sua autorização direta.

Khashoggi era colunista do jornal The Washington Post e crítico de MbS. Ele foi visto pela última vez no consulado em 2 de outubro de 2018, onde teria recebido injeção letal antes de ter o corpo esquartejado e os restos mortais —nunca encontrados— retirados do local em sacos de lixo.

A agência de inteligência concluiu, ainda no ano da morte, que o príncipe herdeiro havia mandado matar Khashoggi —e afirmou ter obtido um áudio no qual se ouvia o jornalista de 59 anos sendo torturado.

É a primeira vez que a inteligência americana torna uma de suas investigações públicas. A desclassificação é vista também como uma repreensão ao príncipe, que era um aliado próximo da administração de Donald Trump.

Após a divulgação do material, o secretário de Estado, Antony Blinken, anunciou uma restrição de vistos de 76 pessoas da Arábia Saudita que "teriam se envolvido diretamente em atividades contra dissidentes extraterritoriais sérias".

Mas segundo o New York Times, que falou com altos funcionários do governo, Biden decidiu que não vai penalizar diretamente o príncipe herdeiro.

Após semanas de debate com sua equipe de segurança, houve um consenso de que o preço de uma represália formal —como banir a entrada do herdeiro da coroa do país— seria alto demais e poderia romper o relacionamento com um dos principais aliados árabes dos EUA.

A decisão deve decepcionar grupos de direitos humanos e membros de seu próprio partido que foram críticos ao governo Trump por não ter tomado medidas mais duras em relação ao príncipe herdeiro.

Em um comunicado da agência de notícias oficial do país do Oriente Médio, o ministro das Relações Exteriores, Faisal bin Farhan al-Saud, disse que o relatório contém "informações e conclusões incorretas".

Ele também ressaltou que os involvidos no assassinato foram condenados, e que as sentenças foram comemoradas pela família de Khashoggi.

Em 2019, a Arábia Saudita sentenciou cinco pessoas à morte e outros três à prisão pelo assassinato. Segundo o procurador do processo, a morte não foi premeditada, mas aconteceu “por um impulso no momento”. No ano seguinte, porém, a Justiça anulou as penas de morte, e eles foram condenados a até 20 anos de reclusão.

Após a divulgação do relatório nesta sexta, a noiva do jornalista, Hatice Cengiz, escreveu em suas redes sociais "#justiceforjamal" (justiça para Jamal) —no dia de sua morte, Khashoggi havia ido ao consulado buscar papéis para se casar com ela.

Na noite de quinta (25) Joe Biden e o rei Salman falaram por telefone —o governo do democrata já havia sinalizado que o presidente não falaria diretamente com o filho.

Apesar de ter sido apresentada como uma ligação diplomática, o verdadeiro objetivo, segundo a imprensa americana, teria sido avisar o rei saudita de que o relatório seria desclassificado e publicado —nenhum dos comunicados oficiais mencionou o jornalista saudita.

Muito do material usado como evidência, incluindo a gravação da tortura, permanece confidencial, mas o documento da CIA traz algumas informações inéditas, como o nome de 21 pessoas que estavam envolvidas no assassinato —o arquivo não consegue confirmar, porém, se todos eles sabiam que a operação resultaria na morte de Khashoggi.

Ainda de acordo com as informações da agência, o grupo de 15 sauditas que estiveram no consulado no dia do assassinato eram oficiais que trabalhavam para o Centro Saudita para Estudos e Assuntos de Mídia na Corte Real.

Na época, o órgão era comandado por Saud al-Qahtani, um conselheiro próximo de Mohammed bin Salman, que chegou a dizer publicamente naquele mesmo ano que não tomava decisões sem a aprovação do príncipe herdeiro.

Também faziam parte do grupo sete membros da elite pessoal de Mohammed bin Salman, conhecida como Força de Intervenção Rápida, que responde diretamente a ele e que já participou de operações anteriores contra dissidentes na Arábia Saudita e em outros países.

Documentos obtidos pela rede americana CNN e divulgados na quarta-feira (24) mostraram que as duas aeronaves usadas pelos assassinos de Khashoggi eram de uma empresa do fundo soberano da Arábia Saudita, comandado por MbS.

Em 2019, o Congresso aprovou uma medida exigindo que o Poder Executivo fornecesse aos legisladores um relatório sobre a morte de Khashoggi e as conclusões da comunidade de inteligência. A administração Trump nunca obedeceu.

Durante a audiência de confirmação no mês passado para que Avril Haines se tornasse diretora de inteligência nacional, o senador Ron Wyden, democrata do Oregon, perguntou se ela entregaria o relatório não confidencial. Ela disse que agiria de acordo com a lei.

Com The New York Times

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