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Japão registra queda no número de mortes em 2020 apesar da Covid-19

Situação representa reviravolta para o país que tem a população mais velha do mundo

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Ben Dooley Hikari Hida
Tóquio | The New York Times

O número de mortes caiu no Japão pela primeira vez em mais de uma década, num contraste marcante com a mortalidade enorme sofrida por muitos países durante a pandemia e assinalando que as medidas tomadas contra o coronavírus no país tiveram efeitos positivos em outras áreas também.

O Ministério da Saúde anunciou nesta semana que as mortes no Japão caíram em mais de 9.300 em 2020, atingindo a marca de cerca de 1,4 milhão. A redução –de 0,7% em relação ao ano anterior—representou uma reviravolta surpreendente para o país que tem a população mais velha do mundo.

Quando o coronavírus começou a se alastrar, no início do ano passado, muitos temeram que o grande número de idosos do Japão tornaria o país especialmente vulnerável à Covid-19. Mas a quantidade de casos e mortes permaneceu muito mais baixa que nos Estados Unidos e na Europa ocidental.

Idosa caminha com um carrinho de compras em Tóquio - Charly Triballeau - 2.fev.2021/AFP

Até esta terça-feira (24), o Japão registrou apenas 7.600 mortes provocadas pelo vírus, e a média de novos casos foi de 1.200 nos sete dias anteriores. Em nenhum momento o número diário de casos novos passou de 8.000.

Contrastando com isso, os Estados Unidos já contabilizam mais de 500 mil mortos e 28 milhões de casos de Covid-19. As mortes decorrentes de outras causas também teriam subido, possivelmente pelo fato de as pessoas evitarem procurar assistência médica.

A expectativa de vida dos americanos caiu em um ano nos seis primeiros meses de 2020, a maior queda desde a Segunda Guerra Mundial.

Os dados oficiais mais recentes do Japão não decompõem a mortalidade por categoria, de modo que é difícil saber ao certo o que causou a redução nos óbitos.

Mas dados do início do ano sugerem que a queda nas mortes se deve em grande medida a uma redução marcante nas doenças respiratórias, provavelmente em decorrência da adoção quase universal de máscaras e distanciamento social no país.

As máscaras já eram vistas comumente no Japão, mas nos últimos 12 meses passaram a ser obrigatórias como medida de combate ao vírus.

Outras medidas também foram adotadas amplamente no país para prevenir a transmissão do vírus, incluindo a colocação de álcool em gel na entrada de praticamente todos os espaços comerciais e locais de trabalho, além da adesão generalizada às recomendações do governo para que se evitem espaços fechados, locais com aglomeração e proximidade física com outras pessoas.

Um outro fator, mesmo que pequeno, foi a queda no número de acidentes de trânsito —como o governo declarou estado de emergência duas vezes, menos pessoas saíram de carro. As mortes por acidentes nas estradas caíram quase 12% em 2020, para 2.839, segundo dados da Agência Nacional de Polícia. É o número mais baixo desde que o órgão começou a registrar os dados, em 1948.

O Japão não é o único país a registrar benefícios colaterais das medidas de combate ao coronavírus. Na China, o número de mortes caiu ligeiramente nos três primeiros meses de 2020, exceto em Wuhan, o epicentro do vírus, segundo estudo conduzido pela Universidade de Oxford e o Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças.

Enquanto a queda das mortes no Japão foi um fato bem-vindo, há alguns indícios negativos. O país assistiu a um aumento de quase 4% nos suicídios em 2020, comparado com o o ano anterior. Entre as mulheres, o crescimento foi de quase 15%.

Especialistas atribuíram o problema às tensões relacionadas à pandemia, incluindo a perda de emprego, o isolamento crescente das pessoas e o aumento da carga doméstica suportada pelas mulheres.

Ainda assim, a população japonesa continuou a diminuir, não obstante a queda no total de mortes. A população começou a encolher em 2007 devido à queda no índice de natalidade e à parcela crescente de idosos. Em 2020 o país perdeu mais de 511 mil pessoas, uma aceleração ligeira em relação ao ano anterior.

Os nascimentos voltaram a cair no ano passado, sugerindo que a pandemia provavelmente vai acelerar o processo de despovoamento do Japão. Segundo projeções governamentais, a população nacional, hoje de 126 milhões de pessoas, vai cair para abaixo de 100 milhões até 2053 e menos de 88 milhões até 2065.

Tradução de Clara Allain

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