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Mantida para enfrentar Trump, uma geração de editores sai de cena nos EUA

Devem ser trocadas as chefias de New York Times, Washington Post, Los Angeles Times, CNN e Reuters, entre outras; expectativa é por mulheres e minorias

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São Paulo

Martin Baron, 66, editor do Washington Post, anunciou há duas semanas que vai deixar o cargo no próximo dia 28, disparando uma dança das cadeiras nos principais títulos americanos.

Além dele, é esperada a saída dos editores de New York Times, Los Angeles Times, CNN e Reuters, além de diversos veículos menores, como Vox.

Dean Baquet, editor-executivo do jornal The New York Times - Todd Heisler - 14.mai.2014/The New York Times

Várias das mudanças são esperadas há tempos, mas foram represadas por Donald Trump, que manteve por cinco anos, entre campanha e governo, uma postura de questionamento intermitente à imprensa.

A troca de guarda acompanhada com mais atenção é aquela do NYT, jornal que encerrou estes cinco anos com 7,5 milhões de assinantes, parte deles trazidos pela resistência ao ex-presidente, no que ficou conhecido como "Trump bump".

Há três meses, desde a derrota de Trump na eleição americana, Dean Baquet já edita o jornal nova-iorquino de Los Angeles, onde até comprou casa, como revelou a revista de celebridades Ok!.

Ele diz que vai voltar para Nova York quando o jornal encerrar o isolamento, mas precisa sair do cargo até o ano que vem, quando faz 66, a idade máxima permitida internamente.

Com Baron e Norman Pearlstine, 78, do LA Times, é toda uma geração de comandantes de Redação que sai de cena.

Baron já havia chefiado o Miami Herald e o Boston Globe, inclusive na cobertura que resultou no filme "Spotlight", em que é representado pelo ator Liev Schreiber.


Pearlstine chefiou Wall Street Journal, Time, Forbes, Bloomberg Businessweek e outras. Baquet já havia sido editor do mesmo LA Times e agora se especula que poderia voltar para o posto, morando lá, mas ele nega.

O que se projeta, inclusive nos próprios jornais que ainda dirigem, é que os três e os demais devem dar lugar a uma geração de mulheres e, eventualmente, minorias étnicas.

No jornal de Los Angeles, por exemplo, são nomes como Kimi Yoshino e Julia Turner, da própria Redação, Janice Min, do Hollywood Reporter, e Anne Kornblut, hoje no Facebook.

Tanto para o LA Times como para o Washington Post, outro nome citado repetidamente é o do jornalista negro Kevin Merida, editor na ESPN.

No NYT, pode-se dizer que a mudança começou há uma década e agora está apenas se ampliando. Baquet, que é negro, foi precedido por uma mulher, Jill Abramson.

E no último ano duas mulheres foram escolhidas para funções de direção: Meredith Kopit Levien, presidente da NYT Company, e Kathleen Kingsbury, editora de Opinião, de posição hierárquica equivalente à de Baquet, que dirige o noticiário.

A pressão por mulheres e negros em posição de poder, nos três jornais e por toda a imprensa americana, vem no rastro de movimentos como #MeToo e #BlackLivesMatter, que vêm levando a rebeliões nas próprias Redações.

Mas a decisão final é dos controladores, bilionários de tecnologia como Jeff Bezos, do Washington Post, e Patrick Soon-Shiong, do LA Times, ou a família Sulzberger, do NYT.


Bezos acaba de deixar a presidência executiva da Amazon para, segundo relatos, se dedicar a projetos espaciais e ao jornal que comprou há sete anos, a começar da escolha do novo editor. Baron já estava no cargo, quando da aquisição.

A. G. Sulzberger, 40, publisher do NYT, também herdou Baquet, ao assumir o jornal em 2018, e fará agora sua primeira escolha, de fato.

Na agência de notícias Reuters, que enfrenta menos pressão de opinião externa, a decisão sobre o substituto do editor Stephen Adler será da corporação canadense Thomson Reuters, até abril.

Adler, 65, é outro da geração que começa a sair de cena. Ele editou a Businessweek antes de chegar à agência, onde há dez anos comanda 2.500 jornalistas pelo mundo, a partir de Nova York.

Jeff Zucker, 55, presidente da CNN, é caso à parte pela idade e por não ser propriamente jornalista, mas um executivo de televisão, tendo presidido a NBC quando Trump se tornou apresentador do reality show The Apprentice.


Há sete anos no canal de notícias, priorizou a cobertura de Trump já na campanha e depois tornou a CNN um veículo marcadamente de oposição, com audiência crescente, a ponto de superar a Fox News.

Mas a aquisição da CNN pelo grupo de telecomunicações AT&T há dois anos gerou conflitos corporativos, com um projeto para streaming como modelo de negócio, não mais TV paga, e Zucker anunciou que sai antes do fim do ano.

Baron, o mais emblemático do grupo de editores, fez um breve balanço da cobertura da era Trump, falando à revista alemã Der Spiegel, com uma conclusão central:

"Devíamos ter sido muito mais diretos sobre a falsidade de Trump, suas mentiras, desde o início. Ele era o presidente, devidamente eleito, mas ele estava explorando isso, explorando nossos princípios."

Deixou um alerta, para a imprensa como um todo: "Nunca havíamos enfrentado esse nível de pensamento conspiratório. O jornalismo, como profissão, não está preparado para cobrir isso".

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