Pressão de Biden alimenta esperança de soltura de ativistas detidos em prisões sauditas

Fora dos presídios, porém, militantes seguem vivendo em risco e com cerceamento de liberdades

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Washington

O alívio com a soltura da saudita Loujain al-Hathloul foi breve.

Durou o minuto de seu reencontro com sua família no dia 10 de fevereiro, depois de três anos de prisão e tortura. Veio, em seguida, a lembrança de que Hathloul —uma das ativistas mais conhecidas do país— ainda não tem liberdade plena. Sem seu passaporte, não pode deixar a Arábia Saudita. Tampouco pode falar com a imprensa.

Veio também a recordação de que outros sauditas seguem presos por razões políticas nesse que é um dos países mais conservadores do mundo. Não existe um número oficial, mas ativistas falam em milhares.

A ativista Loujain al-Hathloul em casa após sua libertação de uma prisão saudita depois de quase três anos - Arquivo Pessoal/Reuters

Há pouquíssimas oportunidades para que sauditas discordem do regime ou exijam avanços sociais. Hathloul, por exemplo, foi detida por lutar pelo direito de dirigir um carro, razão pela qual a monarquia a acusou de promover interesses externos e de usar a internet para perturbar a ordem pública.

Foi nesse contexto que a soltura de Hathloul trouxe uma mistura de esperança e desalento para Areej al-Sadhan.

Seu irmão Abdulrahman foi preso em março de 2018, na mesma época da prisão de Hathloul. Esperança, portanto, de que a liberdade de Hathloul pudesse anteceder a de seu irmão. Desalento por isso não ter acontecido.

Abdulrahman foi levado do escritório da organização humanitária para a qual trabalhava e está desaparecido desde então. A família só teve notícias dele em fevereiro de 2020, quando ele telefonou da prisão —mas não falou quase nada, pois estava sob evidente vigilância.

“Não sabemos o que eles estão fazendo com o meu irmão”, diz Sadhan, que hoje vive nos Estados Unidos. Ela ouviu de outros detentos, porém, que as autoridades sauditas torturaram Abdulrahman. Soube também que ele fez greve de fome, foi forçado a comer e está na solitária.

Em outras ocasiões, o regime saudita negou as acusações de que haja presos políticos no país e de que eles estejam sob tortura.

A família de Sadhan nem sabe por que o regime deteve Abdulrahman. O caso está há três anos em investigação sigilosa. Um de seus palpites é que as autoridades queriam puni-lo por criticar o país no Twitter usando um perfil anônimo.

Casos como o de Hathloul e de Abdulrahman contrariam a imagem que o regime saudita tem tentado projetar nos últimos anos. Nas palavras de Sadhan, existem hoje dois países. O primeiro é o que o príncipe-herdeiro Mohammed bin Salman quer vender para o restante do mundo, um lugar cada vez mais progressista. O outro, afirma Sadhan, é “escuro, um lugar onde ocorre todo tipo de violação dos direitos humanos”.

Falar dessa realidade, porém, é bastante arriscado. Vide o que aconteceu com o irmão dela. Mesmo exilada nos Estados Unidos, Sadhan não está fora de alcance. Basta se lembrar do caso do jornalista Jamal Khashoggi, desmembrado em 2018 dentro de um consulado saudita na Turquia.

“O caso do Khashoggi é um exemplo do quanto o regime saudita está obcecado em silenciar todo mundo que diga o que eles não querem ouvir”, afirma Sadhan. Acredita-se que a Arábia Saudita invada celulares de dissidentes no exterior e espie as suas conversas. Por isso, as pessoas ouvidas para esta reportagem preferiram fazê-lo por meio de aplicativos seguros.

“Nós não temos nenhuma alternativa a não ser usar nossa voz”, Sadhan diz, quando questionada sobre as consequências de conversar com um jornalista e usar seu nome real. “Ficarmos quietos vai fazer com que as coisas piorem mais. Vai dar a eles a oportunidade de nos atacar em silêncio, no escuro. Estamos em risco quando vamos a público, mas também corremos perigo se ficarmos calados.”

Uma das teses de ativistas como Sadhan é a de que, na total ausência de um espaço para o debate público na Arábia Saudita, a única saída é levar o tema para o fórum internacional. No caso de Hathloul, analistas concordam que a pressão americana —e, em especial, a eleição do democrata Joe Biden em novembro passado com um discurso pró-direitos humanos— foi uma peça fundamental.

“A Arábia Saudita é a última monarquia teocrática absolutista que resta no mundo”, afirma Bethany Alhaidari, do Freedom Initiative, uma das principais organizações em defesa dos direitos dos prisioneiros políticos no Oriente Médio. “Os cidadãos sauditas e os residentes no país têm de arriscar suas vidas para clamar por direitos humanos. A comunidade internacional tem a responsabilidade de fazer eco às questões que eles levantam.”

O Brasil, nesse sentido, tem se movido em outra direção. Quando Jair Bolsonaro visitou a Arábia Saudita em 2019, ele se reuniu com Bin Salman —acusado de mandar matar o jornalista Khashoggi. Disse ter afinidade com ele. Bolsonaro afirmou também àquela ocasião que “todo mundo gostaria de passar uma tarde com um príncipe, principalmente vocês, mulheres”.

O ativista Abdulaziz Almoayyad, exilado em Londres, concorda com a avaliação de que a pressão americana teve papel na soltura de Hathloul. Porta-voz da organização saudita de direitos humanos ALQST, ele afirma que há um esforço saudita para limpar sua imagem agora que há um governo democrata nos Estados Unidos.

“O republicano Donald Trump tinha dado sinal verde, e eles fizeram coisas horríveis com gente como Hathloul, Khashoggi e milhares de outros sauditas. Agora eles querem voltar um pouco atrás.”

Dito isso, Almoayyad vê com desânimo a relação entre a liberdade de Hathloul e o novo governo americano. “É triste se dar conta da ligação entre Biden e esses eventos, algo que indica que as autoridades sauditas não querem fazer a coisa certa porque ela é certa”, diz. “Eles estão tirando os nossos direitos e a única razão pela qual nos devolvem é que temem a pressão internacional.”

Alhaidari faz uma avaliação semelhante. “O governo saudita apregoa a soltura de prisioneiros para dizer à comunidade internacional que passa por um processo importante de mudança e de reforma”, afirma. “Hathloul pode estar fora da prisão, mas ela não está segura. A Arábia Saudita não é um país seguro para ativistas de direitos humanos.”

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