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Governador de NY rejeita renunciar e diz que não vai se render à cultura do cancelamento

Após acusações de assédio sexual, deputados afirmam que Andrew Cuomo deve deixar o cargo

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Luis Ferré-Sadurní Jesse McKinley
The New York Times

Enfrentando uma enxurrada de pedidos dos senadores de Nova York e da maioria dos deputados democratas do estado, todos pedindo sua renúncia, o governador Andrew Cuomo deixou claro na sexta-feira (12) que não pretende se demitir, caracterizando a pressão vinda de seu próprio partido como “cultura do cancelamento” e insistindo que não vai ceder diante dela.

Os chamados chegaram primeiro numa onda coordenada de comunicados divulgados pela manhã por mais de uma dúzia de deputados –a maioria dos deputados democratas por Nova York —, incluindo Jerrold Nadler e Alexandria Ocasio-Cortez. O teor era claro: Cuomo perdeu a capacidade de governar e deve renunciar a seu cargo.

No final do dia, os senadores Chuck Schumer, líder da maioria democrata, e Kirsten Gillibrand também haviam exortado Cuomo a apresentar sua renúncia.

outdoor em avenida traz os dizeres "RENUNCIE" em inglês
Outdoor em Albany, no estado de Nova York, exibe mensagem de pedido de renúncia do governador Andrew Cuomo - Mike Segar - 3.mar.21/Reuters

“Em vista das alegações múltiplas e dignas de crédito de assédio sexual e erros de conduta, está claro que o governador Andrew Cuomo perdeu a confiança de seus parceiros no governo e da população de Nova York”, disseram os senadores em comunicado conjunto emitido no final da tarde de sexta-feira. “O governador Cuomo deve renunciar.”

Foi um momento notável para Cuomo, democrata que cumpre seu terceiro mandato como governador e que foi aclamado nacionalmente no ano passado durante os primeiros meses da pandemia, mas agora enfrenta diversas investigações e a ameaça de impeachment devido a uma série de alegações de assédio sexual e a sua tentativa de ocultar o total de mortos pelo coronavírus em lares de idosos.

Quando o dia chegou ao fim, o governador estava quase totalmente isolado.

Ele respondeu em tom de desafio –uma surpresa, dado que outros políticos eleitos renunciaram quando se viram diante de uma rejeição muito menos unânime. Mas sua reação também marcou um retorno à atitude habitual do governador, normalmente combativo, mas que na semana passada adotara um tom mais conciliatório e arrependido ao falar das acusações de assédio.

Numa entrevista coletiva organizada às pressas depois de os deputados se manifestarem, Cuomo rejeitou imediatamente os pedidos de renúncia e negou ter assediado ou abusado de qualquer pessoa. Ele criticou os parlamentares por chegarem a conclusões apressadas, tachando-os de “insensatos e perigosos”.

“Não fiz o que foi alegado. Ponto final”, disse Cuomo.

A repentina deserção em massa de membros do próprio partido assinalou uma das críticas mais contundentes a um governador em exercício na história do estado, levando a novos questionamentos sobre sua capacidade de superar uma das crises políticas mais graves de sua década no poder.

Várias mulheres, algumas delas antigas ou atuais funcionárias do governo, acusam o governador de assédio sexual ou comportamento inapropriado; entre elas, uma assessora não identificada que nesta semana disse que Cuomo a apalpou na Mansão Executiva.

Na semana passada, Lindsey Boylan, ex-funcionária da administração, disse que o governador a beijou nos lábios sem que ela quisesse. E Charlotte Bennett, 25, ex-assessora de Cuomo, disse que o governador lhe fez perguntas invasivas, como, por exemplo, se ela fazia sexo com homens mais velhos.

Enquanto ex-aliados e membros de seu próprio partido se voltavam contra ele, Cuomo –presença política em Nova York há 40 anos e filho de um antigo governador— também buscou retratar seu isolamento como virtude, sugerindo que está sendo punido por “não fazer parte do clube político”.

“E sabe o que mais?”, disse ele. “Tenho orgulho disso.”

Cuomo disse que está determinado a continuar a “fazer seu trabalho”, mas esse trabalho parece estar em risco devido à oposição política de Albany [capital do estado de NY] e outros setores.

O dia começou com uma rápida sucessão de declarações emitidas pelos membros do Congresso por meio de comunicados enviados por email ou pelo Twitter. Muitos dos parlamentares citaram as alegações mais recentes de erros de conduta sexual feitas contra o governador para justificar os pedidos de renúncia.

A deputada veterana Carolyn Maloney, presidente do poderoso Comitê de Supervisão da Câmara, disse que admira as mulheres que vieram a público falar das alegações de assédio feitas contra o governador, vinculando as revelações delas ao movimento MeToo.

“A gente já avançou muito”, disse ela em comunicado. “É hora agora de assegurar que a coragem desta geração coloque um ponto final no assédio, de uma vez por todas.”

Outros que na sexta-feira pediram a renúncia de Cuomo foram os deputados Jamaal Bowman, Yvette Clarke, Antonio Delgado, Adriano Espaillat, Brian Higgins, Mondaire Jones, Sean Patrick Maloney, Grace Meng, Joe Morelle, Paul Tonko, Ritchie Torres e Nydia Velázquez. Outra deputada democrata, Kathleen Rice, de Long Island, já o havia feito antes.

Horas após a entrevista coletiva improvisada por Cuomo na sexta-feira, Schumer e Gillibrand emitiram seu comunicado conjunto para a imprensa. Ao todo, 16 dos 19 deputados democratas do estado pediram a renúncia de Cuomo, além dos dois senadores democratas.

A maioria dos oito deputados republicanos de Nova York já disse que o governador precisa renunciar.

Mesmo os que não chegaram a pedir diretamente sua renúncia expressaram dúvidas quanto à capacidade do governador de administrar o estado em meio à enxurrada de acusações, especialmente com a pandemia em curso e o prazo final para o orçamento, dentro de três semanas.

Alguns legisladores sugeriram que Cuomo pudesse simplesmente se afastar –não renunciar de fato— e deixar a vice-governadora Kathy Hochul tomar seu lugar até o término das investigações.

Outros, incluindo o presidente Joe Biden, ecoaram os pedidos de Cuomo para que se aguardem os resultados de uma investigação independente das acusações de assédio sexual comandada pela secretária estadual de Justiça, Letitia James. Conduzida por dois advogados independentes convocados por James, a investigação começou nesta semana.

A reação negativa dos democratas de Nova York é um sinal preocupante para Cuomo, que controla o partido no estado e é possivelmente o político mais famoso do estado, especialmente desde o início da pandemia, quando seus informes sobre o vírus viraram atrações imperdíveis na TV e seu nome começou a ser aventado como possível candidato à Presidência.

A coordenação dos chamados por sua renúncia também assinalou a deterioração repentina da reputação do governador. De fato, muitos dos deputados que emitiram comunicados na sexta-feira haviam dito anteriormente que eram a favor de investigações, não da renúncia de Cuomo.

Mas, nos últimos sete dias, enquanto os escândalos envolvendo o governador se aprofundaram, alguns dos democratas de Nova York começaram a trocar ideias informalmente sobre o que pensam sobre o destino de Cuomo. A informação é de duas pessoas familiarizadas com as discussões.

Com as acusações se multiplicando, segundo uma dessas pessoas, os deputados entenderam que era apenas questão de tempo até eles serem forçados a dar as costas ao governador. Isso ficou especialmente claro no domingo, quando a líder da maioria no Senado estatual, Andrea Stewart-Cousins, pediu a renúncia de Cuomo, tornando-se a democrata mais poderosa a tê-lo feito até então.

O momento de virada aconteceu nesta semana, quando uma assessora não identificada disse que Cuomo a apalpou na Mansão Executiva em Albany. Foi a acusação mais fortemente sexual feita contra o governador até agora. Deputados e seus assessores trocaram telefonemas nas últimas 24 horas, chegando a uma conclusão na noite de quinta, mas postergando suas declarações até a sexta para não disputarem espaço com o grande discurso de Joe Biden sobre o coronavírus, na quinta, disse uma pessoa.

Uma razão dos chamados unificados dos deputados foi assegurar que nenhuma pessoa individual atraísse muita ira de Cuomo, que poderia influenciar o traçado dos novos distritos congressionais no estado e poderia tentar punir uma ou duas pessoas, mas não uma dúzia, disse uma pessoa.

Cuomo nega terminantemente as alegações de ter tocado qualquer pessoa de modo inapropriado, mas admite que as coisas que ele disse a algumas funcionárias de sua equipe podem ter sido interpretadas equivocadamente como “flerte indesejado”.

“Compreendo agora que minhas interações podem ter sido muito insensíveis ou pessoais demais e que, dada a posição que ocupo, alguns dos meus comentários possam ter suscitado sentimentos que eu não pretendia em outras pessoas”, disse ele em declaração emitida em 28 de fevereiro, um dia depois de o New York Times ter noticiado uma série de comentários de natureza sexual e intensamente pessoal que o governador teria feito, segundo Bennett.

Os chamados pela renúncia vieram um dia depois de a Assembleia de Nova York ter anunciado um plano para abrir uma investigação que pode abrir caminho para o potencial impeachment de Cuomo.

Na noite de quinta-feira, depois de quase 60 deputados estaduais democratas terem assinado uma declaração pedindo a renúncia do governador, a Assembleia disse que abriria um inquérito sobre as ações do líder do estado, com margem de ação ampla que pode também incluir uma investigação sobre a tentativa de Cuomo de ocultar o número total de mortes entre os residentes em casas de repouso.

Na sexta-feira ainda não havia apoio suficiente para um impeachment (algo que ocorreu em Nova York pela última vez em 1913) entre os democratas na Assembleia. Na sexta-feira Cuomo disse: “As pessoas conhecem a diferença entre politicagem, render-se à cultura de cancelamento e a verdade”.

Ele pediu paciência à população, exortando-a “esperar pelos fatos” –a ser apurados pelas duas investigações pendentes sobre seu comportamento— antes de julgá-lo. “Ninguém mais do que eu quer que as investigações sejam rápidas e completas”, disse.

Tradução de Clara Allain

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