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EUA e China jogam bruto no Alasca, mas com as cartas colocadas à mesa

Reunião de cúpula das diplomacias rivais acaba em tom mais ameno; obstáculos são claros

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São Paulo

A primeira cúpula entre as diplomacias americana e chinesa após a posse de Joe Biden, em janeiro, terminou nesta sexta (19), em Anchorage (Alasca), com um tom bem mais ameno do que seu explosivo começo. Foi um teste de forças, no qual a nova China preconizada por Xi Jinping encarou os EUA de Biden, ainda buscando modular seu lugar no mundo após os turbulentos anos de Trump na Casa Branca.

Foram abertas cartas de um jogo bruto para o rival e para os públicos internos, que não se queixarão do desempenho de seus representantes. Mas ao menos houve a conversa, algo que estava interditado pelo acirramento da Guerra Fria 2.0 promovida em todas as áreas possíveis por Trump.

Blinken fala com a delegação chinesa no primeiro dia de conversas em Anchorage, Alasca
Blinken fala com a delegação chinesa no primeiro dia de conversas em Anchorage, Alasca - Frederic J. Brown - 18.mar.2021 /Pool viaAFP

A delegação dos EUA, liderada pelo secretário de Estado, Antony Blinken, e pelo assessor de Segurança Nacional, Jake Sullivan, falou com repórteres após o fim dos dois dias de conversas.

“Nós esperávamos conversas diretas e duras numa grande gama de assuntos, e foi exatamente isso o que tivemos”, afirmou Sullivan logo depois que os chineses, sem conceder entrevistas, foram embora.

A seu lado, Blinken disse que não houve surpresas acerca da reação da dupla de Pequim, o chanceler Wang Yi e o diplomata principal do Partido Comunista, Yang Jeichi.

O secretário de Estado afirmou que, apesar de divergências óbvias em temas como a liberdade em Hong Kong, o status de Taiwan e o tratamento aos muçulmanos da província chinesa de Xinjiang, foram tratadas questões comuns: mudança climática, Afeganistão, Coreia do Norte e Irã.

Qualquer avanço nesses itens, em especial o clima, já seria um bom começo. Significativamente, o manejo da pandemia que tanto dividiu os países não foi citado. A visão chinesa, menos detalhada nesta sexta, emergiu por um meio heterodoxo: postagens no Twitter, que é proibido na China, de citações de seus enviados ao Alasca colhidas pela rede internacional estatal de TV CGTN.

Segundo elas, Wang afirmou que “a soberania é uma questão de princípios, e os EUA não devem subestimar a determinação da China em defendê-la”. Muito bem, dentro do previsto. Yang deu um passo além, repetindo a parte leve da discussão da quinta (18): “Os dois lados têm de seguir a política da não confrontação para guiar nosso caminho rumo a uma trajetória saudável e estável à frente”.

Os comentários deveriam ser repetidos na mídia chinesa logo na manhã de sábado, cortesia do fuso horário. Seja como for, até porque ocorreram a portas fechadas no hotel Captain Cook, as conversas desta sexta parecem ter sido menos arestosas do que as realizadas na véspera.

Houve uma grande confusão protocolar. Os chineses se sentiram ofendidos pela preparação americana ao encontro: um dia antes, os EUA aplicaram sanções a 24 autoridades chinesas devido à repressão contínua aos movimentos pró-democracia de Hong Kong.

Nas palavras de Yang, foi descortesia com os convidados, que nem ficaram para jantar com os hóspedes. Distantes são os tempos de Richard Nixon e Mao Tsé-Tung dividindo a mesa.

A abertura feita pela dupla americana foi um espetáculo pouco visto na diplomacia: ambos falaram claramente os itens que incomodam os EUA, que seriam detalhados a seguir. Os chineses retrucaram com uma retórica fortíssima, na qual até o movimento Black Lives Matter foi evocado para espicaçar os americanos. Foram acusados nos bastidores devidamente ventilados à imprensa de arrogância.

Nada que não tenha acontecido antes de lado a lado, mas sentados frente a frente e com repórteres presentes, isso foi inédito. Os relatos posteriores falaram de quatro horas de conversas francas, mas em tom mais tranquilo.

Isso reforça a ideia de que todos jogavam para as plateias interessadas em saber como será desfeito o nó que Biden chamou de principal disputa geopolítica do século 21, sem exagero retórico algum quando se vê o que está em jogo. Durante décadas, a tradição diplomática chinesa foi a da cautela e a da observação. Xi, que assumiu em 2012 e só fez crescer seus poderes desde então, introduziu o conceito dos “guerreiros lobos”, diplomatas com visões bem agudas e sem medo de se expressar.

Um dos exemplares mais notórios da espécie está aqui no Brasil, com Yang Wanming e seus embates diretos com os filhos do presidente Jair Bolsonaro, que custaram muita diplomacia telefônica para serem superados. No recente encontro anual do Congresso Nacional do Povo, em Pequim, Xi afirmou numa sessão lateral que o mundo teria de se acostumar com “a nova China”, liberta enfim da subserviência que marcou os séculos que antecederam a ascensão de sua versão como ditadura comunista.

Anchorage provou que ele vai levar a retórica adiante, colocando à prova o apetite do Ocidente de questionar os valores autocráticos do regime e sua repressão ao dissenso, algo que se choca com a interdependência econômica entre a China e o mundo.

Hong Kong, que recebeu bilhões de dólares estrangeiros em investimento de empresas chinesas listadas em sua Bolsa, é um bom exemplo dessas contradições de fundo.

Já para o time de Biden, o jogo também pode ter sido dado como vencido, apesar da pancadaria verbal. Em começo de mandato, o democrata quer afastar de si a pecha de titubeante que lhe era impingida por Trump. Não por acaso, nesta semana ele chamou na TV o presidente russo, Vladimir Putin, de assassino.

Com os chineses, ao criar um clima de animosidade na recepção no frio congelante do Alasca, Biden estabelece sua posição. Se ele poderá mantê-la, e por quanto tempo, é uma questão que fica no ar.

Como era esperado, não houve grandes avanços no encontro, mas a abertura de cartas tão explícitas em uma mesa acostumada a blefes parece estabelecer um novo parâmetro mais aberto nas relações.

Que, ressalve-se, são colocadas como tal. Nos anos Trump, a agressividade de mascate, visando extrair vantagens em negociações comerciais nunca finalizadas, não levou a lugar algum a não ser ao risco de um conflito acidental em algum canto do mar do sul da China.

Esse perigo talvez esteja ainda mais presente com a insistência de Biden em manter uma política de confronto, até para, nas palavras de Blinken nesta sexta, “defender o interesse do trabalhador americano” ameaçado pelo rival. De todo modo, algo foi colocado em movimento. Para bem ou para mal.

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