Descrição de chapéu The New York Times

Forças pró-Trump usaram mentiras para culpar movimento antifa pela invasão do Capitólio

Mesmo sem provas, máquina de informações da direita promoveu a ficção e alcançou milhares nas redes sociais

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Michael M. Grynbaum Davey Alba Reid J. Epstein
The New York Times

Às 13h51 de 6 de janeiro, um apresentador de rádio de direita chamado Michael D. Brown escreveu no Twitter que agitadores tinham invadido o Capitólio dos Estados Unidos —e imediatamente especulou sobre quem era o verdadeiro culpado.

"[Apoiadores do movimento] Antifa [antifascistas] ou Black Lives Matter ou outros insurgentes poderiam estar disfarçados de apoiadores de Trump", escreveu Brown. "Escuta, cara, você nunca ouviu falar em 'operações psicológicas'?"

Só 13 mil pessoas seguem Brown na rede social, mas seu tuíte chamou a atenção de outro guru conservador: Todd Herman, que estava apresentando como convidado o programa de rádio nacional de Rush Limbaugh.

Minutos depois, ele repetiu a afirmação infundada de Brown para a multidão de ouvintes de Limbaugh: "Provavelmente não são apoiadores de Trump que fariam isso. Antifa, Black Lives Matter, são eles que fazem isso. Certo?"

O que aconteceu nas 12 horas seguintes ilustrou a velocidade e a escala da máquina de desinformação de direita para pegar uma mentira que servia a seus interesses políticos e rapidamente a espalhar para um público receptivo.

A ficção durante uma semana sobre a eleição roubada que o ex- presidente Donald Trump atirou sobre seus milhões de apoiadores havia montado o palco para uma iteração nova e igualmente falsa: a de que agitadores de esquerda eram os responsáveis pelo ataque ao Capitólio.

Na verdade, a turba que invadiu a cidadela da democracia americana naquele dia eram acólitos de Trump, decididos a impedir que o Congresso confirmasse sua derrota eleitoral. Detenções posteriores e investigações não encontraram evidências de que pessoas que se identificam com o movimento "antifa", um grupo informal de ativistas antifascistas, estivessem envolvidas na insurreição.

Mas enquanto os americanos assistiam a imagens ao vivo dos revoltosos —usando bonés "MAGA" (Make America Great Again) e carregando bandeiras da campanha de Trump— invadirem o Capitólio, estimulados minutos antes pelo ainda presidente que denunciava falsamente uma eleição fraudada e exortava seus seguidores a lutarem por justiça, a história era reescrita em tempo real.

Em poucas horas, uma narrativa construída sobre rumores e conjecturas partidárias tinha alcançado os megafones de políticos pró-Trump no Twitter. No fim do dia, Laura Ingraham e Sarah Palin a haviam compartilhado com milhões de espectadores da Fox News, e o deputado Matt Gaetz, da Flórida, se ergueu no plenário saqueado da Câmara e afirmou que muitos rebeldes "eram membros do violento grupo terrorista antifa".

Quase dois meses depois do ataque, a alegação de que o antifa participou foi repetidamente derrubada pelas autoridades federais, mas se firmou como um evangelho entre os apoiadores linha-dura de Trump, por eleitores e sacramentada por autoridades eleitas do Partido Republicano.

Mais da metade dos eleitores de Trump em uma pesquisa da Universidade de Suffolk e da USA Today disseram que o tumulto foi "principalmente um ataque inspirado pelo antifa". Em audiências no Senado na semana passada, dedicadas a falhas de segurança no Capitólio, o senador republicano Ron Johnson, de Wisconsin, repetiu a mentira de que "falsos manifestantes pró-Trump" fomentaram a violência.

Para os que esperavam que a tática de "não acredite no que você vê" de Trump poderia perder vigor depois de sua derrota, a entrada da conspiração antifa na corrente dominante é um sinal de que a verdade continua sendo um conceito variável entre seus seguidores mais ardorosos.

Reforçado por uma poderosa rede de mídia de direita que havia passado oito meses divulgando as afirmações infundadas de Trump sobre fraude eleitoral, os republicanos pró-Trump conseguiram distorcer a realidade de seus eleitores, exibindo puro rancor enquanto tentam minimizar um tumulto violento cometido por seus próprios apoiadores.

Se alguém foi responsável por profanar o Capitólio, disse Johnson em uma entrevista no rádio enquanto a violência se desenrolava naquele dia, "eu realmente indagaria se é um verdadeiro apoiador de Trump ou um verdadeiro conservador".

Uma mentira ganha mais likes

Uma revisão da atividade da mídia logo depois do tumulto de 6 de janeiro revela como a máquina de informações da direita promoveu a ficção, primeiro online e depois no rádio e na TV a cabo, sobre o suposto envolvimento dos antifa.

A conspiração ganhou novo ímpeto depois que o jornal The Washington Times, de direita, publicou um artigo pouco antes das 14h30, afirmando que uma empresa de reconhecimento facial tinha identificado ativistas antifa na multidão no Capitólio.

O jornal corrigiu a reportagem menos de 24 horas depois, quando suas afirmações foram desbancadas —mas não antes que a história causasse enorme impacto. A reportagem acabou reunindo 360 mil likes e compartilhamentos no Facebook, segundo a CrowdTangle, ferramenta da plataforma usada para analisar redes sociais.

Das 16h às 17h, a falsidade sobre os antifa foi mencionada cerca de 8.700 vezes na TV a cabo, nas redes sociais e em canais de notícias online, segundo a empresa de percepções da mídia Zignal Labs. "Lembre-se, os antifa planejavam abertamente se vestir como apoiadores de Trump e causar o caos hoje", disse um tuíte que recebeu 41 mil likes e compartilhamentos.

Snopes, o canal de checagem de fatos online, já tinha denunciado a falsa narrativa antifa, mas sua reportagem só atraiu 306 likes e compartilhamentos no Twitter nesse horário —um indício de como é difícil as iniciativas de checagem de fatos ganharem impulso contra a falsidade original.

Gaetz, o congressista pró-Trump, foi um superdisseminador do artigo do Washington Times; seu post no Facebook recebeu 27 mil interações. E Ingraham citou o artigo no Twitter e em seu programa em horário nobre na Fox News.

Em comparação, um artigo no BuzzFeed News que refutava a reportagem do Washington Times teve só 18 mil interações no Facebook.

Os boatos precisam de um público receptivo para se espalharem, e os apoiadores de Trump há muito foram treinados para aceitar uma afirmação infundada de que os antifa —retratados incansavelmente pelo então presidente como um grupo terrorista perigoso— tinham instigado a violência, e não seus colegas torcedores do MAGA.

Em maio, Trump tinha anunciado que os EUA declarariam o antifa um grupo terrorista doméstico, apesar de ele não ter autoridade para isso. Mentiras sobre ônibus e aviões carregados de ativistas antifa viajando pelo país para semear a violência tornaram-se um discurso comum nos sites de direita na internet, levando até alguns americanos a pedir ajuda à polícia.

No primeiro debate presidencial, em setembro, visto por 73 milhões de pessoas, Trump disse: "Alguém tem de fazer alguma coisa sobre o antifa e a esquerda" —a mesma resposta, Trump não quis condenar os Proud Boys, grupo de extrema-direita que endossa a violência.

Esse rufar de tambores significava que a ideia de ativistas de esquerda perturbarem o Colégio Eleitoral para atrapalhar Trump talvez não parecesse bizarra para os apoiadores do presidente —mesmo para os do Congresso.

Horas depois do ataque, o deputado republicano Mo Brooks, do Alabama, que tinha falou antes de Trump no comício que antecedeu tumulto no Capitólio, promoveu as falsas alegações sobre o movimento antifa na televisão nacional.

"Nós tínhamos alguns avisos de que poderia haver elementos antifa mascarados de apoiadores de Trump antes do ataque ao Capitólio", disse Brooks a Lou Dobbs, apresentador do Fox Business. Ele reiterou sua afirmação sem fundamento na manhã seguinte em uma publicação no Twitter que foi compartilhada quase 19 mil vezes.

"Há evidências surgindo de que muitos atacantes no Capitólio eram antifas fascistas, e não apoiadores de Trump", escreveu Brooks, sem oferecer evidências. "O tempo revelará a verdade. Não façam julgamentos apressados."

Em uma entrevista na semana passada, Brooks admitiu que não tinha verificado sua informação antes de divulgá-la ao público. Mas insistiu que vários membros do Congresso —que ele não identificou— o haviam avisado sobre uma presença antifa em Washington, o que o levou a dormir em seu gabinete no Congresso durante duas noites antes de 6 de janeiro.

Agora Brooks diz que o papel dos antifa e dos apoiadores do movimento Black Live Matter "parece ser relativamente mínimo comparado com os papéis de elementos mais militantes de outros grupos".

Ele disse na entrevista que tinha "muito frequentemente advertido que a informação que estamos recebendo é incompleta, preliminar" —detalhe que não foi mencionado em seus tuítes incendiários na época.

Ingraham, que falou aos espectadores da Fox News sobre "simpatizantes antifa" no tumulto, mais tarde compartilhou no Twitter que o artigo do Washington Times que ela citou tinha sido derrubado; ela não emitiu uma correção no ar.

Herman, o convidado de Limbaugh que especulou sobre os antifa, escreveu em um email que "estava claro que um grande grupo de apoiadores de Trump entrou no Capitólio e atacou pessoas". Mas ele continuou afirmando, falsamente, que ativistas antifa tinham planejado imitar apoiadores de Trump.

Das 290 pessoas que foram denunciadas no ataque, pelo menos 27 são conhecidas por ter laços com grupos de extrema-direita como os Oath Keepers ou os Proud Boys . Outros têm ligações com entidades confederacionistas e supremacistas brancas, ou são claros apoiadores do movimento conspiratório QAnon. A grande maioria expressou a crença fervorosa de que Trump foi o verdadeiro vencedor da eleição.

Em 8 de janeiro, o FBI disse que não há evidências de que apoiadores do antifa, que são conhecidos por se manifestar agressivamente contra demonstrações racistas brancas, tinham participado do tumulto no Capitólio.

E em 13 de janeiro o deputado Kevin McCarthy, líder da minoria republicana na Câmara, declarou no julgamento de impeachment de Trump: "Alguns dizem que os tumultos foram causados pelo antifa. Não há absolutamente evidência disso, e os conservadores deveriam ser os primeiros a dizê-lo".

Mas no dia seguinte, a prisão de um manifestante chamado John Sullivan provocou mais um surto na mídia de direita sobre o antifa e o tumulto.

Sullivan chamou a si próprio de "ativista" de Utah, e a CNN o apresentou, de modo inexato, como "ativista de esquerda" quando ele apareceu na rede em 6 de janeiro —ele tinha vendido vídeos à CNN e a outros canais mostrando o ataque a tiros contra Ashli Babbitt, uma manifestante que morreu no interior do Capitólio.

O site de conspiração Gateway Pundit, assim como Rudy Giuliani, o advogado de Trump, aproveitaram a prisão de Sullivan para mais uma vez culpar os antifa em posts que tiveram dezenas de milhares de likes e compartilhamentos no Facebook e no Twitter.

Na realidade, Sullivan era alguém que buscava chamar atenção e cuja política era oscilante e aparentemente mudava conforme o protesto de que ele participava no momento, segundo ativistas de Seattle, Salt Lake City e Portland, no Oregon, que tinham emitido avisos sobre ele meses antes do tumulto no Capitólio.

Em 8 de janeiro, o fundador do Black Lives Matter em Utah disse que Sullivan "nunca foi e nunca será" um membro do grupo —"John não é afiliado a qualquer organização", disse na sexta-feira Steven Kiersh, advogado de Sullivan.

Mas os fatos sobre Sullivan não alcançaram tão longe quanto as mentiras.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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