Descrição de chapéu Mundo leu

Historiador aponta componente racial presente no ideal de emancipação para todos

Tyler Stovall revela revela existência de padrão em que a liberdade branca foi sempre prioritária, e a de outros povos, acessória ou adiável

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Carlos Graieb
São Paulo

Presente dado pela França aos Estados Unidos, em 1886, a Estátua da Liberdade trazia correntes partidas nas mãos em seu desenho original. Depois de uma viagem pela América, contudo, o escultor Frédéric-Auguste Bartholdi julgou prudente suprimir de sua obra qualquer referência marcante ao tema da escravidão.

A estátua ganhou uma tocha e um livro de leis. As correntes, ele as escondeu sob os pés e a toga de Lady Liberty. Pouca gente vê.

Para o historiador americano Tyler Stovall, a estátua é o símbolo perfeito da "liberdade branca". No recém-lançado "White Freedom", ele pretende demonstrar que o ideal de emancipação universal nascido no Iluminismo e inscrito na Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776) e na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) não é vazio nem hipócrita, mas tem um inegável substrato racial.

Capa do livro 'White Freedom', de Tyler Stovall
Capa do livro 'White Freedom', de Tyler Stovall - Divulgação

Stovall (que é negro) não desbrava um território virgem. Seu livro está assentado no trabalho de outros historiadores e deve ser visto como síntese "das possibilidades e resultados de se pôr a raça no centro da história moderna". Digamos que funciona como um companheiro de "jornada", na era do cancelamento e da militância racial no Big Brother.

Estudos recentes como "Racismos", do historiador português Francisco Bethencourt, apontam traços de preconceito racial já na Idade Média. Stovall adota uma cronologia mais pacificada, segundo a qual a raça só se tornou um marcador essencial de diferenças no Renascimento, com as viagens de exploração.

No século 16, a palavra ganhou uso corrente e, no século 18, transformou-se num conceito burilado. É nesse ponto que Stovall começa sua narrativa, perseguindo o vínculo interno entre liberdade e racismo até o presente.

Há tempos não é segredo que os pais fundadores da democracia americana, como Thomas Jefferson e George Washington, eram todos donos de escravos. Stovall destaca alguns nomes menos lembrados no panteão dos paladinos da liberdade que também foram escravagistas, racistas, colonialistas —ou tudo isso junto. Por exemplo, os filósofos John Locke, David Hume e Immanuel Kant: o primeiro enriqueceu investindo em tráfico negreiro, os outros desafiaram o mundo a apontar "um único exemplo de negro que tenha exibido algum talento".

Mas seria errado sugerir que a missão do livro é arrancar heróis dos seus pedestais. Seu principal intuito é revelar a existência de um padrão histórico em que a liberdade branca foi sempre prioritária, e a de outros povos, acessória ou adiável.

Assim, a França alistou soldados de suas colônias para lutar contra os nazistas, invocando a defesa da liberdade, mas impediu que um batalhão negro fosse o primeiro a entrar na Paris desocupada e, no pós-guerra, frustrou a expectativa das colônias de serem recompensadas com maior autonomia. Da mesma forma, os Estados Unidos reverteram sua política pró-descolonização da Ásia na Guerra Fria e apoiaram operações militares francesas na Indochina, para deter o avanço do comunismo.

Um livro como "White Freedom" tende a atrair o aplauso de militantes identitários e o desprezo de conservadores. Há também o tédio instruído: no fundo, ela não traz nada de novo, e já passou da hora de encarar sem faniquitos as contradições perversas da história.

Creio que há um espaço para "White Freedom" na prateleira das obras úteis. Com seu tom ponderado, mas jamais indiferente, ele demonstra ainda uma vez que, se a modernidade é "um projeto inacabado", como disse o filósofo alemão Jurgen Habermas, realizar a promessa de igualdade racial é a maior das tarefas pendentes.

White Freedom

  • Preço R$ 121 a R$ 155 (e-book)
  • Autor Tyler Stovall
  • Editora Princeton University Press
  • Págs. 444
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