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Ilha mais exótica da Dinamarca vira laboratório de retomada pós-pandemia

Com 40 mil habitantes, Bornholm reabriu no começo de março lojas e serviços que continuam fechados no resto do país

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Bruxelas

A máquina de café espresso de Johannes Nilsson, diretor de uma municipalidade dinamarquesa, quebrou na melhor hora possível, no domingo retrasado (28). No dia seguinte, sua cidade se transformou num laboratório de vida “quase normal” pós-pandemia de Covid-19.

Oficinas, cabeleireiros, tatuadores, massagistas, esteticistas, autoescolas e outros serviços interrompidos desde antes do Natal em toda a Dinamarca —para conter a infecção do coronavírus e sua variante britânica— foram autorizados a reabrir em Bornholm, ilha de 40 mil habitantes no mar Báltico.

Como cientistas têm repetido que o coronavírus não vai desaparecer, o “laboratório urbano” vai testar se uma vigilância bem feita pode ser uma ferramenta para evitar a transmissão —e não apenas acompanhar a epidemia— e permitir a reabertura, até que a vacinação global contenha o risco sanitário.

Com tudo em ritmo mais próximo do pré-Covid, também será mais fácil perceber gargalos e resolvê-los antes da reabertura nacional. Por exemplo, a necessidade de mais ônibus escolares para permitir o distanciamento necessário no trajeto até a escola ou o reescalonamento de horários para evitar aglomerações em repartições.

Bornholm foi considerado o local ideal não apenas pela insularidade (o país, afinal, tem outras 77 ilhas habitadas, num total de 400), mas também por apresentar números ainda melhores que a média da Dinamarca, um dos menos atingidos pela Covid-19 na Europa.

Desde o começo da pandemia, foram 3.700 casos por 100 mil dinamarqueses —cerca da metade do registrado na vizinha Suécia ou na Espanha— e, no final de fevereiro, os novos casos na Dinamarca se resumiram a 9/100 mil por dia; em Bornholm, ficaram perto de 1 por 100 mil.

Assim que a segunda (1º) amanheceu, Gitte Olsen foi retocar as raízes de seu cabelo no salão de sua cabeleireira Marianne. Lizzie Mauritsen pedalou até o centro comercial da cidade para olhar as novidades na loja Store Torv, e Finn Berg marcou hora para terminar a flâmula que tinha começado a tatuar no braço antes do confinamento. A primeira ação de Johannes Nilsson, porém, não foi levar sua cafeteira à assistência técnica nem aparar a barba. “Agendei um teste de coronavírus”, diz ele.

Para que as empresas possam continuar abertas na ilha, a contrapartida é que a população faça ao menos um exame semanal. Quem tiver resultado positivo ficará isolado, e seus contatos serão rastreados e instruídos a também fazer quarentena.

Ninguém é obrigado a se submeter aos testes, mas um certificado negativo será imprescindível tanto para entrar na balsa que leva à ilha (a cerca de 180 km a sudeste de Copenhague) como para qualquer serviço que exija proximidade física.

Na nova realidade de Bornholm, o uso de máscaras ainda é obrigatório e bares e restaurantes permanecem fechados, mas o número de pessoas permitidas em reuniões subiu de cinco para dez.

Para dar conta da carga de testes, a cidade multiplicou sua capacidade para 5.000 por dia. Na primeira semana, mais da metade dos moradores da ilha apareceu para a verificação, fazendo cerca de 3.000 testes por dia. Os resultados positivos se mantiveram no patamar anterior —até 1 por dia.

Após o último fim de semana, porém, duas mudanças preocuparam Nilsson. A primeira foi um aumento no número de positivos: na terça-feira, cinco pessoas descobriram estar contaminadas no mesmo dia.

“Uma elevação era esperada, porque estamos testando muito mais, e não somos uma bolha isolada. Mas queremos ser capazes de rastrear a origem das infecções e contê-las”, diz o administrador da cidade.

Impedir totalmente a entrada do coronavírus na ilha é impossível porque, mesmo que o embarque só seja permitido para quem tem um resultado negativo, o viajante pode ter se infectado na saída do laboratório.

Se ele seguir as novas orientações de Bornholm, porém, o teste semanal dará o alarme antes que a pessoa se torne num foco disseminador da doença.

A segunda preocupação de Nilsson nesta semana foi a queda na visita aos centros de testes. Ele agendou reuniões para entender o problema e descobrir soluções, mas supõe que a causa seja acomodação: “É preciso se deslocar até o centro, esperar 15 ou 30 minutos, ter um cotonete esfregado no fundo do nariz…”.

Dos bancos escolares virá outra informação relevante do teste que está sendo feito na ilha: estudar como se dá a transmissão do coronavírus entre os mais novos. Para os alunos, a rotina de testagem é diferente, diz o administrador de Bornholm.

A partir dos 12 anos de idade, eles fazem dois testes por semana, no próprio estabelecimento de ensino. Até os 16 anos, a participação deve ser autorizada pelos pais e é voluntária. No ensino médio e nas universidades, o certificado de testagem é pré-requisito para entrar na escola, assistir às aulas e fazer provas.

Na prefeitura há dez anos, Nilsson era diretor de saúde antes de se tornar o principal executivo do município, em 2018. Na pandemia, diz ele, teve que se adaptar a “desafios além de qualquer imaginação”.

A necessidade mostrou virtudes da administração pública, como a flexibilidade, mas também escancarou lacunas. “Ficou claro o quão vulneráveis as cidades são às mudanças globais. Temos que estar preparados para futuros impactos na nossa condição de vida.”

Bem antes disso, daqui a apenas três semanas, Nilsson vai precisar de sua máquina de café espresso a todo vapor para enfrentar a prova dos nove do “laboratório urbano”.

Com uma paisagem que inclui penhascos e uma natureza incomum, Bornholm é conhecida como “a ilha mais exótica do país” e, na Páscoa, deve receber cerca de 20 mil visitantes.

O afluxo equivale a um aumento de 50% na ocupação normal de seus 588 km² (pouco mais que a baía de Guanabara) e será preciso reforçar o planejamento e redobrar os cuidados para manter a liberdade recém-conquistada.

Pelas normas dinamarquesas, para não despertar preocupações das autoridades sanitárias é preciso manter abaixo de 20 a taxa de novos casos semanais por 100 mil habitantes —o que, no caso de Bornholm, equivale a apenas 8.

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