Descrição de chapéu Coronavírus

Merkel diz que errou, pede desculpas e revoga confinamento que seria imposto na Páscoa

Medida havia sido criticada por epidemiologistas, empresários e conservadores, contrários a cultos online em data importante do cristianismo

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Bruxelas

A primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, voltou atrás nesta quarta-feira (24) do confinamento total durante o feriado de Páscoa, que ela havia anunciado um dia antes.

A líder alemã afirmou que a decisão de elevar as restrições fazia sentido, “porque é absolutamente necessário desacelerar e reverter a terceira onda da pandemia”, mas não houve planejamento prévio suficiente.

Com o número de novos casos em alta há quatro semanas consecutivas, o governo havia decretado que todas as lojas ficariam fechadas de 1º a 5 de abril, com exceção de mercados no sábado, dia 3, e as cerimônias religiosas presenciais, suspensas.

Mas as medidas foram questionadas por epidemiologistas, políticos e empresários, por motivos diferentes, levando Merkel a recuar. “A ideia teve bons motivos, mas não conseguiu concretizar-se bem no curto espaço de tempo disponível”, disse ela.

A decisão havia sido tomada em conjunto com os governadores dos 16 estados, mas a primeira-ministra assumiu individualmente o erro —"porque a responsabilidade final é sempre minha"— e pediu desculpas à população por ter provocado incertezas.

De paletó amarelo e camiseta preta, a chanceler faz uma careta de desgosto
A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, em audiência no Bundestag (equivalente à Câmara dos Deputados) - Tobias Schwarz/AFP

No aspecto de saúde pública, epidemiologistas afirmaram que fechar todas as lojas, inclusive as de comida, e permitir que elas abrissem apenas no sábado poderia provocar corrida a mercados e mercearias antes do feriado ou no próprio sábado, levando a aglomerações e elevando o risco de contágio.

A paralisação de cinco dias também foi considerada curta para ter impacto significativo no número de novos casos de Covid-19.

Empresários, por sua vez, queixaram-se porque não estava claro se os dias de confinamento total seriam tratados como feriado e quem arcaria com os custos da paralisação. Associações empresariais também afirmaram que seria impensável paralisar fábricas inteiras por cinco dias seguidos.

Após o recuo, a Associação da Indústria Automotiva da Alemanha elogiou Merkel. “Admitir um erro é um sinal de grandeza. Nosso objetivo comum continua sendo conter a pandemia", afirmaram os representantes das montadoras.

O bloqueio recebeu oposição também de políticos conservadores da própria base do governo e das igrejas católica e evangélicas, devido à imposição de que as cerimônias de Páscoa fossem feitas online. A data, que representa a ressurreição de Jesus, é considerada por muitos cristãos a mais importante do ano.

Segundo a mídia alemã, Merkel se reuniu por teleconferência com os governadores dos 16 estados na manhã desta quarta e sugeriu rever a decisão. “Erros devem ser chamados de erros. E, mais importante, devem ser corrigidos, se possível a tempo. Acredito que ainda é possível”, afirmou, de acordo com jornalistas.

Merkel tem manifestado preocupação com o crescimento de novos casos, puxado pela variante B.117, mais contagiosa e mais letal. "Temos basicamente uma nova pandemia agora", disse ela na terça.

O número de novos testes positivos saltou 20% na décima semana deste ano, depois de oscilar entre altas de 2% a 5% nas três semanas anteriores. A primeira-ministra quer ao mesmo tempo segurar a transmissão e acelerar a campanha de vacinação no país.

"A ciência nos mostra claramente: quanto mais baixos os números de novas infecções, mais rapidamente a vacinação terá efeito. Quanto mais altas as novas infecções, mais tempo leva para as vacinações terem um impacto", disse.

Maior economia da Europa e fabricante de vacinas, a Alemanha administrou até agora pouco menos de 13 doses por 100 habitantes, bem abaixo dos 45/100 do Reino Unido e atrás de vários países menores da UE.

Os governos nacionais do bloco europeu têm atribuído à falta de vacinas a lentidão de suas campanhas, mas muitos deles ainda não usaram suas doses disponíveis —é o caso da Alemanha, que até agora aplicou 73% dos cerca de 14 milhões de doses disponíveis.

Além de falhas na organização, o país fez parte de um grupo de europeus que limitou o uso do imunizante da AstraZeneca mais de uma vez, gerando insegurança sobre o produto e resistências à vacinação.

No final de janeiro, as autoridades alemãs de saúde não permitiram a administração da vacina em idosos, por considerar que faltavam dados sobre sua eficácia nessa faixa etária, apesar da recomendação positiva da agência regulatória europeia.

A ressalva foi suspensa no começo de março, mas 15 dias depois o país interrompeu outra vez o uso do imunizante para avaliar os riscos de efeitos colaterais adversos. O resultado foi um tombo na confiança dos alemães, mostrou pesquisa feita pelo instituto YouGov no final da semana passada.

A parcela de alemães que consideram a vacina da AstraZeneca não segura subiu 15 pontos em um mês, para 55%, enquanto a dos que a consideram segura caiu para 32%, 11 pontos abaixo do registrado em fevereiro. Dos 3,4 milhões de doses deste imunizante disponíveis na Alemanha, só metade já foi usada.

Apesar da alta nos contágios, o país ainda tem conseguido manter o número de novas mortes sob controle. Ele vem caindo sucessivamente desde o começo deste ano, fechando a décima semana em menos de 1.500, após bater em 6.112 na primeira semana de janeiro.

A Alemanha conta com a maior infraestrutura hospitalar da Europa, o que ajuda a reduzir as mortes, mas o contágio acelerado com uma variante que produz doenças mais graves, como a B.117, já está colocando pressão sobre as UTIs, afirmou a primeira-ministra.

As infecções por coronavírus têm aumentado em vários países da Europa, principalmente pelo cansaço das populações com os confinamentos prolongados e pelo aumento da circulação e dos contatos.

Bélgica reaperta confinamento até 25 de abril

Os governos federal e regionais belgas endureceram as restrições de circulação no país, devido à duplicação no número quinzenal de novos casos e ao aumento no número de hospitalizações.

Segundo o conselho que orienta medidas contra a Covid-19 no país, a taxa de testes positivos aumentou na última semana, principalmente entre adolescentes (10-19 anos) e na faixa de 40 a 64 anos. A maioria das contaminações ocorreu em escolas e no trabalho, segundo o governo.

Até o dia 25 de abril, no máximo quatro pessoas de famílias diferentes podem se reunir ao ar livre, e lojas não essenciais só podem receber clientes com hora marcada e limite de ocupação, de acordo com o tamanho da loja.

As aulas foram suspensas em todos os níveis de ensino de 29 de março a 2 de abril, a não ser no caso das creches e de crianças cujos pais sejam trabalhadores considerados essenciais (como profissionais de saúde).

Serviços como cabeleireiros, manicures, massagistas e tatuadores voltaram a ser suspensos. O governo também vai aumentar a fiscalização sobre o trabalho remoto e exigir das empresas o registro sobre quem precisou ir ao escritório, quando e por quê.

Viagens não essenciais permanecem proibidas e o governo afirmou que, durante a Páscoa, "controles de fronteira serão significativamente fortalecidos".

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