Pacheco afirma que política externa do Brasil falhou na pandemia e cobra mudanças

Presidente do Senado também considerou 'totalmente inapropriado' gesto de assessor e repudiou 'qualquer ato que envolva racismo'

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Brasília

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), defendeu nesta quinta (25) uma mudança na política externa do Brasil, considerada por ele um dos pontos falhos do país no combate à pandemia da Covid-19.

Pacheco, porém, disse que cabe ao presidente decidir se substitui ou não o chanceler Ernesto Araújo. O parlamentar ainda considerou “totalmente inapropriado” o gesto do assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, durante sessão do Senado e repudiou com veemência qualquer ato que “envolva racismo”.

Ao lado do presidente do STF, Luiz Fux, à esq., e de Jair Bolsonaro, ao centro, Rodrigo Pacheco participa de entrevista coletiva em Brasília
Ao lado do presidente do STF, Luiz Fux, à esq., e de Jair Bolsonaro, ao centro, Rodrigo Pacheco participa de entrevista coletiva em Brasília - Evaristo Sá - 24.mar.21/AFP

Pacheco concedeu entrevista a jornalistas ao chegar para a Sessão do Congresso Nacional que vai votar o orçamento 2021. O presidente do Senado foi questionado sobre as duras críticas dos senadores ao ministro das Relações Exteriores, que participou de sessão na Casa no dia anterior. Os parlamentares foram quase unânimes ao pedirem a demissão do chanceler e atacar a condução da política externa.

“Muito além da personificação ou do exame do trabalho específico de um chanceler, o que tem que mudar é a política externa do Brasil. Evidentemente ela precisa ser aprimorada, melhorada”, afirmou Pacheco.

“As relações internacionais precisam ser mais presentes, num ambiente de maior diplomacia. Isso é algo que está evidenciado a todos, não só no Congresso Nacional, mas a todos os brasileiros que enxergam essa necessidade de o Brasil ter uma representatividade externa melhor do que tem hoje”, completou.

A pressão dos senadores se soma às críticas feitas pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Nos bastidores, interlocutores afirmam que Lira e Pacheco exercem grande pressão pela substituição de Ernesto, ainda que, publicamente, o presidente do Senado evite opinar sobre a permanência do chanceler.

“Essa questão de saída ou de entrada de ministros eu considero que só pode demitir aquele que admite. Esse é o papel do presidente da República, é uma prerrogativa do presidente da República, e ele há de tomar as melhores decisões para melhorar o governo”, afirmou. “Obviamente que há críticas, e as críticas estão externadas em relação à política externa do Brasil, e cabe ao presidente decidir quem é o melhor nome para ser o chanceler do Brasil, se é o ministro atual ou outro ministro”, completou.

Questionado sobre que percepção tem da atuação do ministro, Pacheco afirmou que houve muitos erros no combate à pandemia de coronavírus e que um deles foi a condução da política externa, que atrapalhou o relacionamento com países que poderiam colaborar com o Brasil.

“Considero que tivemos muitos erros no enfrentamento da pandemia, um deles foi o não estabelecimento de uma relação diplomática, de produtividade, com diversos países que poderiam ser colaboradores nesse momento agudo de crise que temos no Brasil”, afirmou.

“Ainda está em tempo de mudar para salvar vidas. Infelizmente nós perdemos muitas vidas no Brasil, em razão de uma conjuntura que é muito variada, que não é uma responsabilidade única de alguém ou de um ministério. É um problema nacional que temos que enfrentar. E o que temos que fazer agora é mudar o rumo dessa política externa para termos parcerias internacionais”, completou.

O presidente do Senado também criticou o comportamento do assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, que acompanhou Ernesto na sessão do Senado nesta quarta (24). Martins foi flagrado em imagens, sentado atrás de Pacheco, fazendo um gesto com as mãos, com o dedo indicador e o dedão formando um círculo, enquanto os demais dedos ficaram esticados.

Em países que vivenciam o crescimento de movimentos de extrema direita, esse gesto é ligado ao movimento supremacista branco. Os três dedos esticados simbolizam a letra "w", que seria uma referência à palavra em inglês "white" (branco). O círculo formado representa a letra "p", para a palavra "power" (poder). Ou seja, o símbolo é apontado como simbolizando "poder branco".

Pesquisadores que estudam símbolos da extrema direita alegam que o gesto vem sendo utilizado como uma mensagem codificada com o intuito de que membros de grupos racistas possam se identificar. A obscenidade também associada ao gesto vem de seu uso no Brasil, como uma forma de dizer "vai tomar no c.". Nesta quinta (25), Pacheco considerou o gesto “totalmente inapropriado”.

“Não podemos ter pré-julgamentos em relação ao fato, mas, vendo as imagens, nós identificamos um gesto completamente inapropriado para o ambiente do Senado”, afirmou. “Queremos aqui, uma vez mais, repudiar todo e qualquer ato que envolva racismo ou discriminação de qualquer natureza, repudiar qualquer tipo de ato obsceno também, caso tenha sido essa a conotação, no Senado ou fora dele."

Em suas redes sociais, Martins disse que estava apenas ajeitando a lapela de seu terno e que iria processar aqueles que o associaram ao movimento supremacista. Por determinação de Pacheco, o caso foi levado para a Secretaria-Geral da Mesa do Senado e também envolverá uma diligência da Polícia Legislativa. O assessor deve ser convocado nos próximos dias para dar explicações à polícia.

A investigação se dá em modo parecido com um caso conduzido pela Polícia Civil.

“Era um trabalho muito sério que estávamos desenvolvendo, e esse tipo de conduta não pode estar presente num ambiente daquele. Mas obviamente sem pré-julgamentos, garantindo a ampla defesa, o contraditório, o devido processo legal, deve-se apurar esse fato, inclusive ouvindo o assessor, permitindo que ele dê a versão sobre esse fato."

Há um movimento de pressão por parte dos senadores para a demissão de Martins.

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