Presidente da Tanzânia, negacionista da pandemia, morre aos 61 anos

John Magufuli não era visto desde fevereiro, o que gerou rumores de que estaria com Covid-19; vice diz que ele teve problema cardíaco

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Nairóbi | Reuters

O presidente da Tanzânia, John Magufuli, morreu nesta quarta (17) aos 61 anos em decorrência de um problema cardíaco, anunciou sua vice, Samia Suluhu Hassan, em comunicado na emissora estatal TBC.

Negacionista da gravidade da pandemia de Covid-19, Magufuli não era visto em público desde 27 de fevereiro, gerando especulações de que teria contraído o coronavírus.

Segundo a declaração de Hassan, ele estava internado em um hospital em Dar es Salaam, onde recebia tratamento para uma doença no coração. A vice-presidente anunciou luto nacional de 14 dias e disse que os preparativos para o enterro estão em andamento.

O governo sempre negou a narrativa de que Magufuli pudesse estar infectado pelo patógeno e insistiu que ele trabalhava normalmente. Durante uma visita a uma cidade costeira nesta quarta, Hassan mandou saudações em nome do presidente e não fez nenhuma menção ao estado de saúde do mandatário.

O presidente da Tanzânia, John Magufuli
O presidente da Tanzânia, John Magufuli - 29.jul.2020/AFP

Magufuli foi eleito para um segundo mandato de cinco anos em outubro, com 84% dos votos, numa eleição que opositores dizem ter sido marcada por irregularidades.

O ex-professor de química adotou uma política negacionista durante a pandemia —zombou de testes de coronavírus, denunciou as vacinas como parte de uma conspiração ocidental para tirar a riqueza da África e se opôs ao uso de máscaras e ao distanciamento social.

Ele chegou a dizer que Deus e inalação protegeriam a população. A Tanzânia parou de relatar dados de coronavírus em maio do ano passado, quando somava 509 casos e 21 mortes, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde).

O primeiro-ministro Kassim Majaliwa disse na sexta-feira (12) que havia falado com o presidente e culpou alguns tanzanianos "odiosos" que vivem no exterior pela narrativa de que ele estaria doente.

Tundu Lissu, o principal rival de Magufuli nas eleições de outubro, sugeriu que o presidente viajou para o Quênia para tratar a infecção por Covid-19 e depois foi transferido para a Índia em coma.

A Tanzânia, que faz fronteira com o Quênia, no norte, e com Moçambique, no sul, livrou-se do controle inglês no início dos anos 1960. A economia é essencialmente baseada no turismo —é lá onde fica o monte Kilimanjaro, o pico mais alto do continente africano— e nas exportações de ouro e de produtos agrícolas.

Quando assumiu o cargo pela primeira vez, em 2015, Magufuli exigiu que empresas estrangeiras que fizessem negócios no país pagassem impostos mais altos e lançou esforços ambiciosos para construir represas, estradas, ferrovias e estádios de futebol —antes de se candidatar à Presidência, ele havia sido ministro de Obras Públicas por dez anos.

Conhecido pelo apelido de “bulldozer” devido ao seu jeito dominador, ele também foi responsável por desmantelar um esquema de fraudes do governo com trabalhadores fantasmas. Amparado na popularidade conquistada com essas medidas, foi responsável por uma onda crescente de autoritarismo no país. Sob seu comando, o governo perseguiu a oposição e fechou jornais e canais de televisão.

Em 2017, o opositor Tundu Lissu teve que se mudar para a Bélgica depois de ser baleado 16 vezes em uma tentativa de assassinato. Conservador e católico, Magufuli vinha adotando uma postura cada vez mais linha dura contra a comunidade LGBT+. A homossexualidade ainda é crime no país —uma sentença por ter “relações carnais que vai contra a ordem natural” pode gerar até 30 anos na cadeia.

O presidente também proibiu anticoncepcionais femininos e ordenou que meninas que engravidassem fossem expulsas das escolas. Em dezembro de 2020, o Departamento de Estado dos Estados Unidos disse que a nação havia passado por uma "redução do espaço democrático e da sociedade civil".

John Pombe Joseph Magufuli nasceu em 29 de outubro de 1959, na cidade de Chato, quando o país ainda era governado pelos britânicos. Filho de agricultores pobres, formou-se na Universidade de Dar es Salaam em 1988, com especialização em química e matemática, e deu aulas por vários anos.

Em 1995, foi eleito para seu primeiro cargo político, no Parlamento do país. "A nação se lembrará dele por sua contribuição para o desenvolvimento de nosso país", disse o líder da oposição, Zitto Kabwe.

Segundo a Constituição da Tanzânia, a vice-presidente Hassan, 61, deve assumir pelo restante do mandato de Magufuli. Ela, que já foi a primeira vice mulher na história do país, agora será a primeira presidente. Nascida no arquipélago semi-autônomo de Zanzibar, Hassan estudou economia na Inglaterra, trabalhou na ONU e já ocupou vários cargos no governo.

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