Protestos no Paraguai pedem saída de presidente por má gestão da pandemia

Enquanto manifestações retornam neste sábado, Abdo Benítez anuncia trocas em ministérios

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Buenos Aires

Pelo menos 20 pessoas ficaram feridas nesta sexta (5) em Assunção após confrontos nas ruas entre policiais e manifestantes, que pedem a saída do presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, por conta da má gestão da pandemia.

O país vive seu pior momento da crise sanitária, com falta de insumos em hospitais, recorde de novos casos de Covid-19 e vacinação lenta.

Manifestante sobe em carro durante protesto em Assunção - Cesar Olmedo/Reuters

Durante o dia, houve protestos em Ciudad del Este e em Assunção. O ato na capital, perto do Congresso, começou pacífico por volta das 18h (mesmo horário em Brasília) desta sexta, reunindo jovens que usavam máscara para se proteger do coronavírus.

A confusão teve início perto das 20h, quando policiais começaram a reprimir os manifestantes em resposta à provocação de um grupo pequeno de homens encapuzados —participantes dizem que eles haviam sido infiltrados nos atos para disseminar a violência.

Forças de segurança dispararam balas de borracha e bombas de gás em grupos reunidos perto do Congresso. Os ativistas derrubaram barreiras de segurança, construíram barricadas e atiraram pedras nos agentes.

O confronto se espalhou pelas ruas do centro da cidade, que registrou cenas de batalha campal. Em alguns locais, os agentes agitaram panos brancos para pedir que os ativistas se acalmassem.

Após a confusão, parte dos manifestantes foi até a sede da Polícia Nacional, exigindo falar com o comandante da força, para saber quem deu a ordem para que os agentes os atacassem.

A polícia investiga a morte de um homem de 32 anos, ferido com uma arma branca na altura do coração. Segundo amigos, ele esteve nos protestos, mas não se sabe se o crime está relacionado aos confrontos nas ruas.

Os atos ganharam força após a saída do ministro da Saúde, Julio Mazzoleni, nesta sexta. Ele deixou o cargo após o Senado aprovar uma resolução que pedia seu afastamento. Sua gestão foi criticada por conta da falta de insumos nos hospitais, a demora na chegada de vacinas e por casos de corrupção que não foram punidos.

De acordo com o jornal local ABC, grupos de manifestantes permaneceram em vigília na madrugada diante do Congresso.

Na noite deste sábado (6), enquanto as ruas da capital paraguaia voltavam a ser tomadas por uma multidão pacífica, o presidente do país publicou uma mensagem gravada, às 20h, em que disse lamentar a violência "que nunca é um caminho".

Abdo Benítez também afirmou que respeita o protesto pacífico, mas que condena os atos de violência realizados por "pequenos grupos" e pediu que as pessoas não se aglomerem nas ruas. "Não precisamos de marchas e contramarchas nesse contexto delicado." Ele disse ainda que "o coronavírus não tem cura, é preciso ter confiança de que as vacinas continuarão chegando".

Sobre trocas no governo, o mandatário disse ter entendido que uma mudança é necessária. "Informei a todo o gabinete que entreguem seus cargos e nas próximas horas serão publicados os decretos das novas nomeações", anunciou no vídeo. "Vou nomear autoridades em áreas de pacificação, à frente de pastas como saúde, educação, mulher e no gabinete civil."

Abdo Benítez também prometeu que sua equipe irá avaliar mais mudanças ao longo desta semana.

Segundo o jornal ABC, também houve novos protestos neste sábado na Ciudad del Este.

​O senador Hugo Richer, da coalizão de esquerda Frente Guasu, pediu a renúncia do presidente e do vice e a convocação de novas eleições.

"Precisamos de um governo que lidere o processo [da crise econômica, sanitária e social], e não acredito que Abdo Benítez tenha essa capacidade", disse.

Segundo o governo paraguaio, há quase 300 pacientes de Covid-19 em UTIs. Até quinta (4), o país somava 164 mil casos da doença e 3.256 mortes desde o começo da crise sanitária.

Nos últimos dias, a média de casos ficou em 115 a cada 100 mil pessoas. O país vacinou menos de 0,1% da população, de cerca de 7 milhões de habitantes.

O presidente Abdo Benítez tomou posse em 2018. Um ano depois, ele escapou de um processo de impeachment, motivado pela revelação de um acordo secreto entre Brasil e Paraguai sobre a energia gerada em Itaipu, que foi considerado prejudicial aos paraguaios. O termo acabou sendo cancelado.

Na Cúpula do Mercosul, realizada em Bento Gonçalves (RS) em 2019, Abdo Benítez agradeceu ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por seu “apoio quando houve uma ameaça à nossa democracia”, referindo-se ao processo de impeachment. O Planalto atuou para arrefecer o processo, como acabou acontecendo. Na ocasião, Bolsonaro chamou o mandatário de “meu irmão paraguaio”.

Antes do pronunciamento do presidente paraguaio neste sábado, a Folha ouviu de políticos que, por ora, o setor majoritário do partido Colorado, dominado por Horacio Cartes, não votaria por sua saída.

Abdo, 49, integra o Partido Colorado, legenda que governa o país de forma quase ininterrupta desde os anos 1940, inclusive durante a ditadura de Alfredo Stroessner, que governou de 1954 a 1989.

Os protestos atuais estão sendo chamados de Março Paraguaio 2021. Em 2017, neste mesmo mês, manifestantes incendiaram o Congresso, em meio a um protesto contra a aprovação da reeleição presidencial.

Com AFP e Reuters

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