Descrição de chapéu Governo Biden

Putin ironiza ofensa de Biden e propõe debate ao vivo com líder americano

Presidente russo reage a fala do democrata depois de ter sido chamado de assassino

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Moscou | Reuters

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, reagiu com ironia nesta quinta-feira (18) às declarações feitas por seu homólogo americano durante entrevista à rede de TV ABC News. Ao ser questionado se o líder russo é um assassino, Joe Biden assentiu e disse que sim.

"Sempre observamos nos outros nossas próprias qualidades e pensamos que eles são iguais a nós", afirmou Putin durante um pronunciamento transmitido pela televisão.

“Lembro-me de minha infância. Quando discutíamos no quintal, costumávamos dizer: é preciso ser um para reconhecer o outro. E isso não é uma coincidência, não é apenas um ditado ou uma piada de criança.”

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante videoconferência transmitida pela TV, em Moscou - Alexei Druzhinin - 18.mar.21/AFP

Segundo Putin, a Rússia quer trabalhar com os EUA, mas em áreas que atendam a seus interesses e em condições que o Kremlin considere benéficas. "Eles terão que levar isso em consideração", disse. ​"Eles pensam que somos iguais a eles, mas temos um código genético, cultural e moral diferente e sabemos defender os nossos próprios interesses."

Mais tarde, o líder russo voltou a comentar a contenda e propôs uma discussão ao vivo com Biden, num evento que poderia ocorrer nesta sexta ou na próxima segunda-feira. "Seria interessante para as populações da Rússia, dos EUA e de muitos outros países", disse Putin. A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, limitou-se a dizer que o presidente americano viaja nesta sexta e está "muito ocupado".

As declarações de Biden que geraram a reação de Putin foram dadas após agências de inteligência dos EUA divulgarem, na terça (16), um relatório segundo o qual a Rússia teria tentado ajudar o ex-presidente Donald Trump a se reeleger. Biden afirmou que Putin "pagará um preço", sem detalhar qual seria a consequência, dizendo a seu entrevistador apenas "você saberá em breve". O americano repetiu ainda a afirmação de que o russo "não tem alma", retomando um episódio relatado no livro "Promessa de Pai".

Ainda que tenha atacado o líder russo, o democrata disse durante a entrevista que os EUA estão envolvidos com temas de interesse mútuo nos quais os dois países podem trabalhar juntos, como ocorreu na renovação do acordo nuclear Novo Start. Biden acrescentou que conhece Putin "relativamente bem" e que "a parte mais importante ao lidar com líderes estrangeiros é saber quem é o outro cara".

"O que eu responderia a ele?", disse Putin, em sua fala nesta quinta. "Eu diria: desejo-lhe saúde. Desejo-lhe saúde. Digo isso sem nenhuma ironia ou piada."

Os comentários de Biden instauraram uma crise diplomática entre EUA e Rússia. Moscou convocou seu embaixador em Washington, Anatoli Antonov, para consultas, embora a chancelaria russa tenha afirmado que o objetivo é evitar a degradação irreversível das relações com os americanos.

Durante uma entrevista coletiva nesta quinta, Psaki, a porta-voz da Casa Branca, foi questionada se o presidente tinha algum receio de que suas declarações fossem as responsáveis por uma escalada na tensão entre os dois países. Em resposta curta, Psaki afirmou que Biden não se arrepende do que disse.

Já o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, classificou a postura do presidente americano como um claro sinal de que Biden não estaria preocupado em estabelecer laços com a Rússia. "Essas são observações realmente ruins do presidente dos EUA. É claro que isso nunca aconteceu antes na história", disse Peskov durante uma entrevista coletiva em que descreveu o estado das relações bilaterais como "muito ruim".

Outras lideranças políticas russas lamentaram as palavras de Biden. Konstantin Kosachiov, vice-presidente da Câmara alta do Parlamento —equivalente ao Senado—, disse que os comentários do líder americano eram inaceitáveis e acabam com qualquer esperança de Moscou de uma mudança na política dos EUA sob a nova administração.

"Esse tipo de avaliação não é permitida da boca de um estadista dessa categoria", acrescentou. Para ele, a convocação do embaixador russo foi a única medida razoável a ser tomada nessas circunstâncias. "Suspeito que não será a última vez, caso nenhuma explicação ou pedido de desculpas vier do lado americano", escreveu Kosachiov em um post no Facebook.

A discórdia entre os dois países pode piorar ainda mais devido às disputas em torno do Nord Stream 2, gasoduto que liga a Rússia à Alemanha e que visa duplicar o transporte do produto por vias que não passem por áreas turbulentas, como a Ucrânia. Ele vem sendo boicotado pelos EUA, que criticam a presença de empresas europeias no consórcio que banca o projeto, já em fase final.

Nesta quinta, o chefe da diplomacia americana, Antony Blinken, pediu a todas as entidades envolvidas no projeto que se retirem "imediatamente" —ou enfrentarão sanções dos Estados Unidos. O secretário de Estado afirmou em um comunicado que o governo Biden está "determinado a cumprir" a lei adotada em 2019 e prolongada em 2020 pelo Congresso americano, que prevê sanções.

Em outros episódios que mergulharam ambos os países em tensão, Moscou já havia sido acusada de influenciar a eleição americana de 2016, outra vez para favorecer Trump, cujo mandato foi marcado por investigações sobre a questão. Uma apuração de três anos, feita pelo Departamento de Justiça dos EUA, no entanto, isentou a campanha do republicano de ter se aliado à Rússia para vencer o pleito, embora indícios apontassem para envolvimento russo em vazamentos de dados e de conversas sigilosas que ajudaram a minar a campanha da rival de Trump, Hillary Clinton.

Em episódios mais recentes, a inteligência americana passou a investigar a Rússia devido a um ataque cibernético de grande escala a sistemas do governo dos EUA no final de 2020 e ao pagamento de recompensas a membros do grupo extremista Taleban para matar soldados americanos no Afeganistão.

Como Biden, Trump também foi questionado, no início do mandato, sobre o que achava de Putin. Em entrevista à Fox News em fevereiro de 2017, o republicano disse que o respeitava. "Se eu vou me dar bem com ele? Não tenho ideia. É bem possível que não." Em seguida, o entrevistador Bill O’Reilly disse: "Ele [Putin] é um assassino". Trump retrucou: "Há um monte de assassinos. Nós temos um monte de assassinos. Você acha que nosso país é tão inocente?".


ATRITOS ENTRE EUA E RÚSSIA NOS ÚLTIMOS ANOS

Interferência nas eleições

Agências de inteligência dos EUA concluíram que a Rússia interferiu na campanha presidencial de 2016, com o objetivo de eleger o republicano Donald Trump. Moscou teria envolvimento no ataque contra o email da então candidata democrata, Hillary Clinton, e no vazamento das informações confidenciais. O Kremlin nega todas as acusações.

Já no pleito de 2020, as agências de inteligência americanas produziram um relatório no qual afirmam que o presidente russo, Vladimir Putin, autorizou esforços para interferir na campanha presidencial americana em benefício de Trump, operação que contou com ações de inteligência para influenciar pessoas próximas ao agora ex-presidente e para prejudicar a imagem de Joe Biden.

Ataques hackers

Doze agentes de inteligência russos foram acusados de promoverem um ataque hacker aos computadores do Partido Democrata e da campanha de Hillary em 2016. Segundo denúncia do Departamento de Justiça, que isentou a campanha do republicano de ter se aliado à Rússia, eles trabalhavam para o GRU, o departamento central de inteligência do governo Putin.

Os agentes chegaram, sem sucesso, a tentar invadir os sistemas dos órgãos eleitorais que comandam a votação nos estados americanos. Em um deles, os russos conseguiram roubar nomes, endereços, data de nascimento e número de documento de 500 mil eleitores.

No fim de 2020, o governo Trump reconheceu que hackers agindo sob comando de um governo estrangeiro —provavelmente uma agência de inteligência russa, de acordo com especialistas federais e privados— invadiram uma série de redes governamentais, incluindo as dos departamentos de Tesouro e do Comércio, e tiveram livre acesso aos seus sistemas de email.

Sanções no caso Alexei Navalni

O governo Biden anunciou, no início deste mês, sanções contra autoridades acusadas de tramar a prisão de Alexei Navalni, opositor russo detido assim que voltou à Rússia após tratar-se por 150 dias na Alemanha. As medidas incluem o banimento de viagem aos EUA e o congelamento de bens no exterior.

O grupo inclui o diretor do Serviço Federal de Segurança, apontado pela Casa Branca como responsável pelo envenenamento de Navalni, dois ministros-adjuntos da Defesa, dois responsáveis por política doméstica do Kremlin, o procurador-geral e o administrador do Serviço Penitenciário Federal, Alexander Kalachnikov.

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