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Itamaraty senado

Queda de Ernesto atinge coração do bolsonarismo e revela governo acuado

Chanceler era a figura mais vistosa do grupo na Esplanada; próximo na fila é Ricardo Salles

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São Paulo

A queda de Ernesto Araújo é o mais duro golpe no bolsonarismo desde a demissão de Abraham Weintraub do Ministério da Educação, no ano passado. Mais do que isso, mostra um governo alijado de condições políticas que não passem pela mão do centrão, metaforicamente respirando por aparelhos no país onde eles faltam na vida real para pacientes de Covid-19.

A escolha do substituto dará a medida do comprometimento de Jair Bolsonaro com o plano de salvar o seu governo da entropia aguda na qual se encontra. Afinal, o Itamaraty sob o presidente tornou-se o templo maior do bolsonarismo.

Ernesto Araújo após encontro de Bolsonaro sobre a crise da pandemia, em Brasília
Ernesto Araújo após encontro de Bolsonaro sobre a crise da pandemia, em Brasília - Ueslei Marcelino - 24.mar.2021/Reuters

Assim, ao longo do fim de semana foi desidratado o nome de um outro bolsonarista, o embaixador nos EUA, Nestor Forster, em favor de nomes mais palatáveis para o centrão que emparedou Bolsonaro. Por outro lado, parece improvável que haja uma ruptura radical de orientação: o presidente segue o mesmo.

A política externa, historicamente ocupação de profissionais dada a falta de interesse dos políticos, tomou ares de trincheira durante os anos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 2003-10) no poder.

A gestão de Celso Amorim, um egresso do famoso grupo de "barbudinhos" formados nos anos da retórica terceiro-mundista do general Ernesto Geisel (1974-79), colocou o Itamaraty nas manchetes.

A proatividade tinha viés ideológico: a tal política Sul-Sul que acertadamente viu a China como o futuro do comércio exterior brasileiro e incorretamente virou as costas para Estados Unidos e Europa. Noves fora um chanceler que chamava seu chefe de "nosso guia" e a adulação constante de ditaduras, desde que fossem ou parecessem antiamericanas.

Naqueles anos, houve perseguição a diplomatas identificados com a gestão Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 1995-2002), que ganhavam postos em lugares distantes e pouco importantes. Exatamente como ocorreu sob Bolsonaro com os acusados de petismo. Nos governos de Dilma Rousseff (PT, 2011-16) e Michel Temer (MDB, 2016-18), houve uma reorientação mais profissional da pasta, devidamente ignorada pelos ascendentes bolsonaristas que a tomariam de assalto.

Na cabeça do presidente, a chancelaria de 2018 era um antro de comunistas empedernidos. "Libertaremos o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico a que foram submetidos nos últimos anos", disse na sua segunda fala no dia da vitória, em outubro daquele ano.

Ao escolher um obscuro diplomata para chefiar a pasta, Bolsonaro garantiu que ele fosse uma correia de transmissão da dita ala ideológica de seu governo. O filho presidencial Eduardo, deputado que chefiou a Comissão de Relações Exteriores da Câmara, e o assessor palaciano Filipe Martins, notório pelo episódio recente no Senado, tinham tanto ou mais poder que o chanceler em si.

Todos comungam as ideias do escritor radicado nos EUA Olavo de Carvalho. O olavismo sobreviveu à queda de seu fundador, rompido com Bolsonaro: Ernesto passou a pandemia falando que o Sars-CoV-2 era um "comunavírus" a serviço de uma trama globalista dedicada a impor uma agenda socialista ao mundo.

A marcha dos olavistas se anunciava triunfal, mas os primeiros sinais levaram a questionamentos sobre a sanidade do grupo, como no discurso inaugural de Ernesto, que teve até uma Ave Maria em tupi.

A realidade se interpôs. O alinhamento automático com Donald Trump não se reverteu em políticas favoráveis ao Brasil, os militares intervieram quando perceberam a trama de uma guerra com a Venezuela passada por procuração de Washington para Brasília e Bogotá, não há embaixada em Jerusalém e o agronegócio chiou toda vez que a canela chinesa era chutada. Pois o estrago não foi só de imagem, ainda que Ernesto tenha dito se orgulhar de ver o Brasil como pária mundial.

O grupo buscou fustigar a China sempre que pôde, como nas famosas altercações entre Eduardo e o embaixador do país no Brasil, irritou o supracitado pessoal do agro e só parou quando ficou evidente que, sem Pequim, não teríamos nem insumos para vacinas.

A piora da pandemia jogou o governo Bolsonaro nas cordas, com o centrão cobrando a fatura de sua aliança até com ameaça meio fajuta de impeachment. O ministro Eduardo Pazuello, da Saúde, foi o primeiro a ter sua cabeça entregue, ainda que a contragosto, pelo presidente.

A cabeça de Ernesto, grelhado numa das mais duras inquirições a que um ministro foi submetido na história do Congresso, foi então posta a prêmio. A degola se efetivou de forma voluntária, quando o chanceler resolveu insinuar que o Senado está no bolso dos chineses na questão do 5G.

Com sua entrega, o alvo da vez do consórcio liderado por Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) será Ricardo Salles. À frente do Meio Ambiente, ele é um olavista light, por assim dizer, sem a estridência e a presunção de dominar um arcabouço teórico de suas divagações como Ernesto.

Mas, assim como Ernesto, suas ideias no manejo da área ambiental também são universalmente condenadas como prejudiciais aos interesses do país —ainda que aqui as manipulações ocorrem de lado a lado, como nas sempre ácidas críticas vindas dos protecionistas franceses.

Como seu ex-colega, Salles é muito próximo de Bolsonaro e distante dos militares do governo, o vice Hamilton Mourão à frente. Com o salve-se quem puder instalado em Brasília, contudo, ninguém pode se dizer isento da guilhotina.

Mas a cabeça de Ernesto é simbolicamente maior, por encarnar a fé bolsonarista como poucos. Ele se esforçou, adulando o presidente e seu entorno até o paroxismo da cena em que ele gritava "mito!" enquanto o chefe sugeria usos pouco ortodoxos de latas de leite condensado a jornalistas.

Para Bolsonaro, ao fim há uma ginástica narrativa possível. Para sua base, ele sempre poderá dizer que Weintraub, Pazuello e Ernesto caíram por obra da mesma velha política da qual ele depende. Nas pouco reflexivas redes bolsonaristas, alguém certamente acreditará. Nunca houve um chanceler como Ernesto Araújo. Subvertendo o Livro das Revelações tão ao gosto do presidente ora no Planalto, o ex-ministro não foi morno, mas acabou vomitado pela boca do chefe do mesmo jeito.

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