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Mal completaram 1 ano de ócio improdutivo, Harry e Meghan foram fisgados pela máquina de fabricar dólares de Oprah

Segundo consta, casal não recebeu nada pela entrevista concedida à apresentadora

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Barbara Gancia

Jornalista

Bem fizeram os bolcheviques que liquidaram a família inteira do czar Nicolas de forma profissional e incontroversa diante de um pelotão de fuzilamento. Vapt, vupt. Agora estão aqui. Agora não estão mais.

De fato, como vimos na noite de domingo (7) na entrevista concedida pelo príncipe Harry e sua mulher, Meghan, à apresentadora Oprah Winfrey, a realeza desocupada é um perigo que não deve ser subestimado nem encarado com hesitação.

Basta ver o que aconteceu com o errante Edward 8°, tio de Elizabeth 2ª, que abdicou do trono e do Império Britânico (que, àquela altura, já começava a se pôr atrás de alguns cumes e colinas esparsos mundo afora) para ficar correndo atrás do rabo da saia da sirigaita Wallis Simpson (nenhum parentesco com os Simpson de Springfield).

Em vez de rei, Edward se transformou em bobo da corte do jet-set, prestando-se ao papel de figurinha fácil, animador de festas de qualquer milionário grego ou texano que lhe oferecesse um fim de semana agradável —e mais uma joia jabaculê para a mulher, de preferência da marca Cartier—, fosse a bordo de um barco luxuoso ou hospedado na suíte de uma vila reclusa em algum canto paradisíaco no Mediterrâneo ou Caribe.

Príncipe Harry e Meghan Markle, duques de Sussex, durante entrevista a Oprah Winfrey
Príncipe Harry e Meghan Markle, duques de Sussex, durante entrevista a Oprah Winfrey - Joe Pugliese/Harpo Productions/Reuters

Harry e Meghan repetem a saga do tataratio. Mal completaram um ano de ócio improdutivo vivendo da herança deixada pela mãe dele (estimados 18 milhões de libras esterlinas, R$ 143,8 milhões) em um dos lugares mais abençoados do planeta (Montecito, próximo de Santa Barbara, na Califórnia, onde são vizinhos de Oprah), e logo foram fisgados pela máquina de fabricar dólares da apresentadora, que teria vendido a entrevista para a CBS por US$ 7 milhões (R$ 40,4 milhões), sendo que a rede a revendeu para 60 países.

Segundo consta, Harry e Meghan nada receberam. Mas, a julgar pela repercussão que a entrevista teve na Inglaterra, terão de arcar com a ira do establishment inglês e com a mágoa da família real por muitos e muitos anos.

Se antes Elizabeth 2ª era a imagem de uma santa imaculada, após a entrevista concedida pelos duques (ex-duques?) de Sussex, nesta segunda (8) a rainha amanheceu como 1 dos 101 dálmatas, ou seja, salpicada de manchas.

Ninguém melhor do que a experiente Elizabeth 2ª para saber que com tipinhos como Harry e Meghan não se brinca. Nem sequer o castigo capital mais terrível do nosso tempo, o cancelamento, consegue dar jeito nesses dois.

A rainha falhou. Pela primeira vez, talvez devido ao fardo dos anos, quem sabe por conta da distância entre seu palácio e os gramados bem manicurados da Califórnia, Elizabeth 2ª não agiu com o punho forte que dela se exigia.

Veja: contemporânea de Florence Nightingale na Guerra da Crimea (ou quase), Elizabeth 2ª já lidou com o sapeca Churchill, o travesso Nixon, a bovina Thatcher, o suíno Ted Heath, o canino Tony Blair, aliás, pior, teve de tratar com a hidrófoba Cherie Blair, a cafajestíssima mulher do primeiro-ministro, além, é claro, dos inomináveis Melania e Donald, e outros tantos primeiros-ministros australianos que, assim como Meghan, não consultaram o Google para saber que existe uma diferença bastante específica entre uma celebridade de Hollywood como, digamos, Charlie Sheen, Sean Penn, Paris Hilton, Lindsay Lohan ou, quiçá, Tracy Morgan, e a rainha da Inglaterra.

Houve o caso de um fatídico primeiro-ministro australiano que saiu abraçando a rainha como se ela fosse o Nick Nolte num fim de festa em Beverly Hills, quando o protocolo estabelece claramente que membros da família real não devem ser tocados.

Na entrevista com Oprah, a princesa Meghan encheu a boca para dizer que mal tinha ouvido falar de Diana, Charles, cãezinhos corgis, troca da guarda, rainha Victoria, Royal Albert Hall, Palácio de Buckingham, Henrique 8º, torre de Londres e o escambau... e que —segure o seu cetro porque lá vem um tiro napoleônico de canhão pra cima do navio de Lord Nelson— até o momento em que estava dentro do carro, a caminho de ir ter com a rainha pela primeira vez, ela não sabia que teria de cumprimentar a soberana de maneira protocolar. Diz ela que achava que ia abraçar a avó do noivo como falava “oi” pra avó dela.

Eu pergunto: Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?, como diria o romano Cícero, até quando, Catilina, abusarás da nossa —no caso, da dos ingleses— paciência? Fala a verdade, a Meghan acha que a gente é tudo otário ou só os americanos é que são?

Ela foi adiante. Disse a Oprah, com olhar enternecido de Gato de Botas do Shrek, que não se deu ao trabalho de entrar na internet para saber mais sobre a família real britânica que, para ela, até aquela altura, era uma incógnita.

E essa desconhecida família Windsor, cujos proveitos advêm dos impostos dos ingleses há mais de cem anos e que, antes disso, famosamente pilhava e tolhia de seu povo e de suas colônias por mais de, sei lá, 1.200 anos, tendo invadido e povoado a contragosto da população, que já ocupava o território, a terra em que a própria entrevistada nasceu, sendo que George Washington, herói de seu país e que dá nome à capital do mesmo, posteriormente proclamou independência dessa monarquia que ela diz desconhecer até então, e que era liderada, na época de Washington, por um antepassado de Harry de nome George, por coincidência, veja você, o mesmíssimo nome do pai da vovozinha do noivo que dona madame estava indo conhecer, mas não tinha ainda se dado conta de onde estava se metendo.

É muita cara de pau, né não?

Eu poderia continuar aqui horas e horas pontuando outros tantos absurdos cometidos durante a entrevista, tanto por Meghan quanto pelo príncipe, mas vou nos poupar a todos porque tenho apenas um pedido a fazer, agora só entre mim e a rainha, por favor, leitor, retire-se que a conversa agora é particular.

Olá, Lilibeth: sei que você me lê e que vai me escutar. Você já deixou passar uma, depois outra e mais outra com esses dois. Está na hora de dar um basta, minha amiga. É com sororidade e muita empatia que eu lhe digo, a hora é agora. Corte-lhes a cabeça!

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