Resultado de eleição legislativa aponta maioria governista em El Salvador e fortalece presidente

Caso números sejam confirmados, Nayib Bukele terá caminho aberto para convocar Constituinte e nomear juízes da Suprema Corte

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Buenos Aires

Fogos de artifício agitaram a madrugada desta segunda (1º) em San Salvador, capital de El Salvador, quando foram divulgados os resultados preliminares das eleições legislativas no país.

Com metade das urnas apuradas, o recém-criado partido governista Nuevas Ideas aparecia com 65% dos votos. Se esses números de fato se confirmarem, o presidente Nayib Bukele terá a maioria absoluta do Congresso unicameral, sem a necessidade de montar uma aliança com partidos menores.

Entre outros temas, o presidente terá caminho aberto para nomear os juízes da Corte Suprema e convocar uma nova Assembleia Constituinte —um antigo projeto seu, que vinha sendo bloqueado pelo Congresso.

 Nayib Bukele está com a mão esquerda para cima enquanto fala em um púlpito
O presidente salvadorenho, Nayib Bukele, dá entrevista coletiva em um hotel em San Salvador - Stanley Estrada - 28.fev.2021/AFP

"Vitória!", postou o mandatário em suas redes sociais, com imagens dos fogos no céu da cidade.

A contagem oficial parcial também confirma o encolhimento dos partidos mais tradicionais do país, o direitista Arena (Aliança Nacional Republicana) e o esquerdista FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional), respectivamente com 7% e 2,2% dos votos até o momento.

Assim, o resultado causa uma transformação no mapa político do país, surgido após o acordo de paz que pôs fim à guerra civil (1980-1992).

Os dois partidos tradicionais, que representaram a via pacífica dos dois lados que participaram do conflito, dominaram a política salvadorenha por três décadas: a Arena comandou a Presidência de 1989 a 2009, enquanto a FMLN ficou no cargo de 2009 até 2019.

Os governos das duas siglas, porém, acabaram frustrando a população. Durante esse período, aumentou a violência causada pelas chamadas "maras" (gangues que dominam povoados e expulsam os camponeses de suas terras), o país não conseguiu realizar uma retomada econômica, e choveram denúncias de corrupção contra os dois lados, com vários líderes condenados ou sendo processados

Além disso, aumentou também o número de salvadorenhos que emigrou sem documentos para os Estados Unidos, o que causou uma fricção política com Washington.

Tudo isso criou o cenário para a chegada ao poder de Bukele, um representante da direita populista que já foi filiado ao FMLN e foi prefeito de San Salvador. Ele foi eleito em primeiro turno em 2019, derrotando tanto o candidato da Arena quanto o de seu ex-partido.

"Na parte interna, Bukele tem El Salvador nas mãos agora, já que deve ficar com o controle dos três poderes. Seu desafio é conseguir conquistar Joe Biden e ter um apoio político e financeiro dos EUA", diz à Folha o analista Óscar Picardo.

Durante o período no qual Donald Trump esteve na Casa Branca, Bukele recebeu apoio e verbas de Washington para reforçar o controle das fronteiras e reprimir tentativas de imigração sem documento.

Já com a nova gestão americana, o diálogo não avançou —a situação é semelhante à que acontece com Guatemala e Honduras, outros dois países da região que também são governados por políticos de direita.

Assim, no momento o presidente salvadorenho aguarda para saber qual será a nova política dos EUA para a América Central. "É provável que o democrata [Biden] opte por uma política menos repressiva, o que vai em direção contrária a como esses governos atuavam, usando mão dura na repressão à sua própria população", afirma Picardo.

Em fevereiro, Bukele viajou a Washington na tentativa de se encontrar com algum representante importante do novo governo americano, mas não obteve sucesso.

A vitória do partido de Bukele nas eleições legislativas aumentou o temor de uma escalada autoritária no país. Em uma ação em fevereiro do ano passado na qual teve apoio do Exército, ele chegou a cercar a sede do Legislativo e a se sentar na cadeira do presidente da casa.

Até aqui, a gestão do atual presidente tem sido marcada por polêmicas. Sua ação contra a pandemia do coronavírus é enérgica e rendeu frutos, a violência das maras diminuiu. O número de homicídios caiu em 60% e, com isso, aumentou o apoio a ele, principalmente nas áreas rurais, mais atingidas pela violência. Também houve avanços nas investigações de corrupção dos governos anteriores.

Por outro lado, Bukele vem sendo acusado de abusos de direitos humanos durante a pandemia, instalando centros de confinamento forçado a pessoas com suspeita de infecção ou de ter tido contato com alguém contagiado. Quarentenas localizadas foram aplicadas para abafar protestos contra o governo.

Jornais independentes que divulgaram esses abusos vêm sendo perseguidos ou ameaçados. O site El Faro, o mais importante do país, está sendo processado por expor publicamente o nepotismo do governo Bukele e ações irregulares na aplicação das medidas de quarentena.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.