Após apagão em usina nuclear, Irã reage com fúria, e os EUA, com silêncio

Casa Branca negou envolvimento no ataque; suspeita é de que Israel seja responsável pela ação

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Patrick Kingsley David E. Sanger Farnaz Fassihi
Jerusalém | The New York Times

A última vez que centrífugas explodiram no centro subterrâneo iraniano de produção de combustível nuclear em Natanz, mais de uma década atrás, a sabotagem foi fruto de um ciberataque feito por Israel e EUA com o objetivo de impedir Teerã de construir armas nucleares. Quando as centrífugas explodiram outra vez neste fim de semana, a Casa Branca declarou não haver envolvimento de Washington.

A operação levantou a possibilidade de Israel ter agido por conta própria para solapar a diplomacia americana no momento em que a administração Biden quer reconstituir um acordo nuclear com o Irã —ou de Israel estar operando com uma bênção tácita dos Estados Unidos, fazendo um trabalho sujo que enfraquecerá a posição do Irã nas negociações.

Imagem divulgada pelo governo iraniano mostra um cientista dentro da usina de Natanz
Imagem divulgada pelo governo iraniano mostra um cientista dentro da usina de Natanz - 10.abr.21/Presidência do Irã via AFP

A Casa Branca não disse quase nada publicamente na segunda (12) sobre a aparente explosão no interior da usina de Natanz, que fica a quase oito metros abaixo da superfície. A explosão destruiu o fornecimento de energia que mantém as centrífugas girando a velocidades supersônicas, enriquecendo urânio.

“Os EUA não tiveram nenhum tipo de envolvimento”, disse na segunda a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki. “Não temos nada a acrescentar às especulações sobre as causas ou os impactos.”

Assessores de Joe Biden não comentaram se os EUA teriam sido notificados de antemão sobre o ataque.

O secretário de Defesa americano, Lloyd Austin, que estava em Israel quando o ataque ocorreu, conversou duas vezes com a imprensa antes de deixar o país, mas não proferiu a palavra “Irã”. A Casa Branca e representantes do Departamento de Estado disseram não ter ideia se os iranianos vão comparecer a Viena, na Áustria, outra vez na quarta (14), quando as discussões estão previstas para serem retomadas.

Em Teerã, parlamentares pediram ao chanceler Mohammad Javad Zarif para suspender as discussões, dizendo que o Irã não deveria estar participando de negociações quando está sob ataque.

“Negociações conduzidas sob pressão não significam nada”, disse Abbas Moghtadaie, vice-presidente do comitê de segurança nacional e política externa do Parlamento, numa conversa pelo Clubhouse. “Essa é uma mensagem que transmitimos com muita clareza hoje.”

A administração Biden quer reviver um acordo, rejeitado três anos atrás pelo presidente Donald Trump, pelo qual o Irã aceita restrições a seu programa nuclear em troca do levantamento de sanções. O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, se opôs ao acordo original e não tem feito segredo de seu desejo de detonar as negociações juntamente com as centrífugas.

Em declaração transmitida pela televisão estatal iraniana, Zarif disse que Israel “quer se vingar dos nossos avanços rumo ao levantamento das sanções”. “Mas nós nos vingaremos dos sionistas”, disse.

Suas declarações chamam a atenção para o risco de escalada na guerra clandestina travada há anos entre Irã e Israel, um conflito que vem acontecendo nos desertos de Natanz, nas rotas de transporte marítimo do Golfo Pérsico e nos subúrbios arborizados de Teerã.

Foi em um desses subúrbios que Mohsen Fakhrizadeh —líder do que funcionários da inteligência americana apontam como o programa secreto de armas nucleares do Irã— foi morto em dezembro por uma metralhadora controlada a distância quando viajava de carro para sua casa de campo.

Para os iranianos, o ataque deste fim de semana foi mais um indício humilhante de que seu programa nuclear foi infiltrado por espiões e sabotadores, que têm lançado uma série de ataques ousados.

Israel normalmente guarda silêncio quando acontecem ataques como este, mas dessa vez a imprensa local, citando fontes de inteligência, atribuíram a ação ao Mossad, a agência de espionagem do país.

Um funcionário de inteligência que pediu para não ser identificado para poder falar de operações clandestinas disse que um artefato explosivo introduzido de maneira escondida na usina de Natanz foi detonado remotamente e destruiu os sistemas elétricos primário e de reserva.

Funcionários de inteligência sugeriram que o Irã levará muitos meses para reparar os danos.

Ali Akbar Salehi, diretor da Organização de Energia Atômica iraniana, disse que o fornecimento elétrico emergencial foi restaurado em Natanz na segunda-feira e que o enriquecimento de urânio não parou na usina. Mas pode estar sendo realizado a uma fração do nível anterior. “Boa parte do que o inimigo sabotou poderá ser restaurado”, disse ele à mídia iraniana. “Não vão conseguir parar este trem.”

Mas o ataque, a violação de segurança mais recente em uma série de incidentes no ano passado, levou à atribuição de culpas em Teerã e a acusações de infiltração nos mais altos escalões do aparato de segurança. A unidade de inteligência da Guarda Revolucionária é responsável tanto pela segurança das usinas nucleares quanto pela proteção dos cientistas. Moghtdaie disse que seu comitê vai investigar o que ele descreveu como “infiltrações de segurança muito evidentes”.

Alguns funcionários dos EUA, negando-se a falar oficialmente, expressaram receio de que devido ao ataque o programa nuclear seja levado a um nível subterrâneo ainda mais profundo. O Irã já foi nessa direção anos atrás quando construiu uma usina pequena no interior de uma montanha próxima à cidade de Qum. Imediatamente, o vazamento de detalhes sobre o envolvimento de Israel causou temores de que o Irã, para não ser desmoralizado, possa tentar apresentar uma resposta militar mais forte que o usual.

“A partir do momento em que são citadas autoridades israelenses, isso requer uma vingança dos iranianos”, disse Danny Yatom, ex-chefe do Mossad, entrevistado na segunda-feira por uma rádio do Exército israelense. “Há ações que devem continuar em sigilo”, disse ele.

Em Israel, algumas pessoas questionaram se o ataque teria tido um objetivo doméstico para Netanyahu, e não apenas um objetivo de política externa. O premiê está sendo julgado por corrupção e enfrenta dificuldade em formar um novo governo de coalizão, após uma eleição geral no mês passado que não deu uma maioria clara a nenhum partido.

Alguns analistas afirmam acreditar que um confronto muito público com o Irã possa ajudar Netanyahu a persuadir parceiros indecisos de que agora não é a hora certa de afastar um primeiro-ministro experiente.

O Irã alega há muito tempo que seu programa nuclear é pacífico, tendo a finalidade de desenvolvimento energético. Mas Israel o enxerga como ameaça existencial, já que líderes iranianos defenderam muitas vezes a destruição de Israel. “Nossa posição conjunta é que o Irã nunca deve possuir armas nucleares”, disse Netanyahu na segunda-feira. “Como primeiro-ministro de Israel, minha política é clara. Jamais deixarei o Irã obter a capacidade nuclear de alcançar sua meta genocida de eliminar Israel. Israel vai continuar a defender-se contra a agressão e o terrorismo do Irã.”

Em Washington, Jen Psaki disse esperar que as discussões com o Irã recomecem na quarta-feira, conforme o planejado. “Prevemos que elas serão difíceis e longas”, disse ela. “Não recebemos nenhum indicativo de uma mudança na participação nessas discussões.”

Tradução de Clara Allain 

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