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China e EUA concordam em estabelecer compromissos mais audaciosos para o clima

Países divulgam comunicado após dois dias de reuniões entre John Kerry e seu contraparte chinês

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Xangai e São Paulo | Reuters

A China e os Estados Unidos divulgaram comunicado na noite de sábado (17) no qual afirmam ser necessário estabelecer compromissos mais audaciosos para o combate às mudanças climáticas antes da rodada de negociações internacionais marcada para o final do ano.

A nota foi divulgada após dois dias de reuniões entre o enviado dos EUA para o clima, John Kerry, e seu contraparte chinês, Xie Zhenhua, em Xangai. "Os EUA e a China se comprometem a cooperar bilateralmente e com outros países para enfrentar a crise do clima”, afirmaram os dois países, em nota. Washington e Pequim vão continuar a discutir “medidas concretas nesta década para reduzir emissões e manter viável o limite de aumento de temperatura estabelecido no Acordo de Paris”.

Kerry chegou a Xangai na quarta-feira (14) e seguiu protocolos estritos devido à Covid-19. Foi transferido para um hotel isolado, fechado para o público, e, de lá, viajou para Seul, capital da Coreia do Sul.

O enviado dos EUA para o clima, John Kerry, durante entrevista coletiva na Casa Branca, em Washington
O enviado dos EUA para o clima, John Kerry, durante entrevista coletiva na Casa Branca, em Washington - Kevin Lamarque - 27.jan.21/Reuters

A ida de Kerry a Xangai foi a primeira visita de um alto funcionário do governo Biden à China desde que o democrata assumiu a Casa Branca, em 20 de janeiro, e ocorreu depois de uma atribulada reunião entre autoridades dos dois países no Alasca, em março.

Os encontros no país asiático marcam a retomada das negociações climáticas entre os maiores emissores de gases do efeito estufa do mundo. As negociações bilaterais haviam sido interrompidas durante o governo de Donald Trump, que retirou os EUA do Acordo de Paris, afirmando que o tratado penalizava de forma injusta empresas americanas.

Na última semana, a China fez cobranças públicas aos americanos na questão ambiental. "Os Estados Unidos não têm autoridade moral ou poder real para dar ordens à China em questões ambientais", defendeu um editorial do jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista Chinês, que governa o país.

"As autoridades dos EUA não devem se esquecer da saída [do país sob Donald Trump] do Acordo de Paris, em 2017. Seu retorno não é, de forma alguma, uma volta gloriosa, mas, sim, a volta de um estudante que faltava às aulas. Ainda tem de mostrar como compensará [o que não fez] nos últimos quatro anos", disse Lijian Zhao, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, em entrevista coletiva na sexta (16).

Os EUA devem anunciar na Cúpula do Clima organizada por Biden, marcada para os próximos dias 22 e 23, uma nova meta de redução de emissões, na tentativa de reconquistar a confiança de seus aliados. Com o democrata no poder, o país voltou a fazer parte do pacto climático de Paris e quer assumir o papel de líder global no combate às mudanças climáticas.

O evento organizado por Biden com dezenas de líderes mundiais será online e transmitido ao vivo. Cada representante terá três minutos para se pronunciar. Ao todo, há 40 líderes convidados, incluindo o presidente francês Emmanuel Macron, a primeira-ministra alemã Angela Merkel e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido). O Brasil discursará na sessão de abertura, assim como a China. No entanto, não há confirmação se o dirigente chinês, Xi Jinping, de fato irá participar.

A cúpula de Biden é uma etapa preparatória para a COP26, que será uma nova rodada de negociações globais do clima, marcada para novembro, em Glasgow, na Escócia.

A meta dos encontros é catalisar o trabalho conjunto dos países para conter o aquecimento global a um limite de 1,5 °C. Assim, Biden quer mobilizar financiamento público e privado para impulsionar a transição energética internacional e ajudar nações vulneráveis a lidar com impactos climáticos.

Li Shuo, consultor sênior para o clima do Greenpeace, afirmou que a China também pode anunciar novas metas de redução, em resposta aos novos compromissos americanos, aproveitando o embalo das negociações em Xangai. "O comunicado é o mais positivo possível, dadas as condições políticas", disse ele, em referência às querelas entre os dois países, que vão de questões econômicas a direitos humanos.

"Manda uma mensagem inequívoca de que, nesse tema específico, EUA e China vão cooperar. Antes das reuniões de Xangai, não era uma mensagem que poderíamos dar como certa”, acrescenta.

O comunicado conjunto de Washington e Pequim afirma também que os países concordam em discutir ações específicas para a redução de emissões, incluindo armazenamento de energia, captura de carbono e hidrogênio. Eles também se comprometeram a aumentar o financiamento para que nações em desenvolvimento façam a transição para fontes de energia de baixo uso de carbono.

O Acordo de Paris, firmado em 2015, encoraja os países a apresentarem compromissos mais ambiciosos para o clima. A China já anunciou mais ações para tentar zerar as emissões de carbono até 2060 e diz que irá começar a reduzir sua geração de poluentes antes de 2030.

O Brasil também está sendo pressionado pelos EUA a ampliar suas metas e busca um acordo em troca de mais verbas. Em carta enviada a Biden, Bolsonaro se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal em território brasileiro até 2030 e ponderou que a meta "exigirá recursos vultosos e políticas públicas abrangentes".

Zerar o desmatamento até 2030 foi um compromisso feito pelo Brasil em 2015, no âmbito do Acordo de Paris, mas essa foi a primeira vez que Bolsonaro se comprometeu com o número, em promessa considerada de alto nível diplomático, feita diretamente a Biden.

Em resposta, Kerry pressionou por mais resultados. "O novo compromisso do presidente Jair Bolsonaro de eliminar o desmatamento ilegal é importante. Esperamos ações imediatas e engajamento com as populações indígenas e sociedade civil para que seu anúncio possa gerar resultados tangíveis", escreveu ele, em uma rede social, na sexta (16).

A política ambiental de Bolsonaro é considerada negligente por ambientalistas e coleciona recordes de desmatamento, queimadas e sucateamento de órgãos fiscalizadores. Em seus dois primeiros anos de mandato, o presidente brasileiro acusou governantes estrangeiros de questionarem a soberania brasileira sobre a Amazônia, atacou ONGs e criticou líderes indígenas.

Também na sexta, senadores democratas enviaram uma carta a Biden pedindo que a Casa Branca só libere fundos ao Brasil para ajudar na preservação da Amazônia se houver um compromisso sério do governo Bolsonaro com a redução do desmatamento e punição a crimes ambientais. Como mostrou a Folha, Bolsonaro avalia anunciar, na cúpula de Biden, um aumento da verba para o Ministério do Meio Ambiente, principalmente para agências como Ibama e ICMBio, na tentativa de sinalizar ações concretas.

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