China lança musical em resposta a críticas contra tratamento dado a uigures

Filme distorce realidade ao retratar minoria muçulmana em harmonia com outros grupos étnicos chineses

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Amy Qin
The New York Times

Em uma cena, mulheres uigures dançam no estilo de Bollywood, de frente a um grupo de homens uigures. Em outra, um homem cazaque sentado numa tenda típica toca para um grupo de amigos com um alaúde tradicional de duas cordas.

Bem-vindo a “The Wings of Songs” (as asas de canções), musical patrocinado pelo Estado chinês. É o acréscimo mais recente à campanha de propaganda de Pequim para defender suas políticas em Xinjiang.

A campanha se intensificou nas últimas semanas, enquanto políticos e organizações ocidentais de direitos humanos acusam Pequim de sujeitar uigures e outras minorias muçulmanas na região a trabalhos forçados e genocídio.

Lançado nos cinemas chineses na semana passada, o filme traz um vislumbre da visão alternativa de Xinjiang que o Partido Comunista chinês quer promover para o público dentro e fora do país.

Longe de serem oprimidos, o musical parece dizer, uigures e membros de outras minorias estão cantando e dançando, felizes, trajando roupas alegres e coloridas. É uma versão vistosa de um estereótipo chinês desacreditado sobre as minorias da região, algo que ativistas que lutam pelos direitos dos uigures denunciaram imediatamente.

Torre de vigilância em instalação considerada centro de detenção para uigures em Dabancheng, na região chinesa de Xinjiang - Thomas Peter - 4.set.18/Reuters

“A ideia de que uigures podem cantar e dançar e, por isso, não ocorre genocídio simplesmente não funciona”, afirma o advogado uigur-americano Nury Turkel, membro sênior do Instituto Hudson, em Washington. “O genocídio pode acontecer em qualquer lugar bonito.”

Na esteira de sanções ocidentais, o governo chinês vem reagindo com uma nova onda de propaganda sobre Xinjiang divulgada em um espectro grande de mídias. A abordagem varia desde a divulgação de uma versão saneada e bonitinha da vida em Xinjiang, como, por exemplo, no musical, até a presença de autoridades chinesas em sites de mídia social para atacar os críticos de Pequim.

Para reforçar sua mensagem, o partido vem enfatizando que seus esforços anularam a suposta ameaça de terrorismo violento. Segundo a versão do governo, Xinjiang agora é um lugar pacífico onde chineses da etnia han, o grupo étnico dominante no país, convivem em harmonia com as minorias étnicas muçulmanas da região, “como as sementes de uma romã”.

É um lugar onde o governo emancipou as mulheres dos grilhões do pensamento extremista. E as minorias étnicas da região são retratadas como estando gratas pelos esforços do governo. O musical conduz a narrativa para um novo nível de falsidade do tipo que suscita repúdio. O filme conta a história de três rapazes, um uigur, um cazaque e um chinês han, que se unem para tentar realizar seus sonhos musicais.

Xinjiang, região de maioria muçulmana situada no extremo oeste da China, é mostrada no filme como tendo sido “purificada” da influência islâmica. Os rapazes uigures aparecem barbeados e tomando cerveja, livres das barbas e da abstinência de álcool que as autoridades enxergam como sinais de extremismo religioso. As mulheres uigures são mostradas sem os lenços de cabeça tradicionais.

Vistos pela lente do filme, uigures e outras minorias étnicas centro-asiáticas estariam inteiramente assimilados à maioria. Eles são fluentes no chinês, e ouve-se pouco ou nada de seus idiomas nativos. Eles se dão bem com os chineses da maioria étnica han –não há qualquer indício do ressentimento presente há muito tempo entre uigures e outras minorias devido à discriminação sistemática à qual são sujeitos.

A narrativa apresenta um quadro fortemente diferente da realidade na região, onde as autoridades conservam controle rígido por meio de uma rede densa de câmeras de vigilância e postos policiais, além de manter muitos uigures e outros muçulmanos em prisões e campos de internamento de massa.

Até a segunda-feira (5), segundo a Maoyan, empresa que monitora as vendas de ingressos, o filme havia arrecadado meros US$ 109 mil (R$ 617,4 mil) nas bilheterias.

As autoridades chinesas inicialmente negaram a existência dos campos de internamento. Depois, descreveram os campos como “escolas em regime de internato” em que a frequência era completamente voluntária. Agora, o governo vem adotando abordagem cada vez mais combativa, procurando justificar suas políticas, dizendo que são necessárias para combater o terrorismo e o separatismo na região.

Autoridades chinesas e a mídia oficial divulgam a narrativa do governo sobre suas políticas em Xinjiang, em parte por meio da difusão de narrativas alternativas (incluindo desinformação) em redes sociais americanas como Twitter e Facebook. Essa abordagem chegou ao auge no ano passado, segundo relatório publicado na semana passada por pesquisadores do Centro Internacional de Política Cibernética do think tank Instituto Australiano de Política Estratégica (ASPI) .

Os pesquisadores do instituto constataram que a campanha nas redes sociais é centrada em diplomatas chineses no Twitter, contas pertencentes ao Estado, influenciadores pró-Partido Comunista e bots. As contas enviam mensagens com desinformação sobre uigures que fizeram denúncias ou mensagens que difamam pesquisadores, jornalistas e organizações que trabalham com questões ligadas a Xinjiang.

Anne-Marie Brady, professora de política chinesa na Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, e não envolvida com o relatório do ASPI, descreveu a ofensiva chinesa sobre Xinjiang como a maior campanha internacional de propaganda sobre um único tópico que ela já viu em seus 25 anos estudando o sistema de propaganda política da China. “É uma campanha dogmática, estridente e cada vez mais agressiva”, comentou ela por e-mail. “E vai continuar, quer seja efetiva ou não.”

Em comunicado, o Twitter disse que suspendeu várias contas citadas pelos pesquisadores do ASPI. O Facebook divulgou em comunicado que tirou do ar recentemente um grupo de hackers mal-intencionados que vinha atacando uigures que deixaram a China. As duas empresas começaram no ano passado a rotular as contas de veículos de mídia filiados ao Estado.

O Partido Comunista afirmou que teve que empreender ações firmes depois de uma onda de ataques letais ter abalado a região alguns anos atrás. Críticos disseram que a extensão da violência ainda não está clara, mas que a agitação não justifica a abrangência ampla e indiscriminada das detenções de uigures.

Na semana passada, o regime chinês difundiu com destaque que teria descoberto um complô de intelectuais uigures para semear o ódio étnico. A CGTN, braço internacional da emissora estatal chinesa, lançou um documentário na última sexta-feira (2) acusando os intelectuais de escreverem livros didáticos repletos de “sangue, violência, terrorismo e separatismo”.

Os livros foram aprovados para uso em escolas primárias e secundárias de Xinjiang por mais de uma década. Mas, de repente, em 2016, pouco depois do início da repressão aos uigures, foram qualificados como subversivos. O documentário acusa os intelectuais de terem distorcido fatos históricos, citando, por exemplo, a inclusão de uma foto histórica de Ehmetjan Qasim, líder de um estado independente em Xinjiang que existiu brevemente no final da década de 1940.

“É simplesmente absurdo”, falou Kamalturk Yalqun, cujo pai, Yalqun Rozi, acadêmico uigur renomado, foi sentenciado em 2018 a 15 anos de prisão por tentativa de subversão, devido a seu envolvimento com os livros didáticos. Yalqun disse que uma foto de Rozi vista no filme foi a primeira vez em que ele viu seu pai em cinco anos. “A China simplesmente quer inventar qualquer coisa que puder para desumanizar os uigures e fazer esses livros didáticos parecerem materiais perigosos”, disse, falando de Boston por telefone. “Meu pai não era extremista, apenas um acadêmico tentando fazer seu trabalho corretamente.”

Tradução de Clara Allain

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