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Cúpula do Clima exigia mais Turner e Monet e menos coelhinhos fofos

É penoso ver os ternos ruins, os interiores de repartição e a gravata verde água de Bolsonaro

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​O azul iridescente da gigantesca bola de pedra voando pelo espaço, vulgo Terra. As lembranças dos astronautas que puderam atestar que ela, ao contrário de muitos hoje em altos cargos do poder público no país, é mesmo redonda e assombrosa abrem a transmissão da Cúpula de Líderes sobre o Clima, o convescote virtual de Joe Biden para defender o meio ambiente.

Só que a exuberância das imagens e o poder de fogo de um discurso que narra o mundo em chamas param por aí. Direto da Casa Branca, a vice americana Kamala Harris e o presidente Biden fizeram discursos ladeados por arranjos de plantas que lembravam caixões abertos postos de pé.

Leaders Summit on Climate
Líderes de diferentes países participam de cúpula virtual organizada pelos EUA - Cúpula de Líderes sobre o Clima

Na grande sala dos âncoras da reunião, digamos, chama a atenção um enorme vaso de grama sob os lustres de cristal do palácio, talvez um triste sinal que o que resta de nossas florestas pode ser sintetizado por um duvidoso artigo de decoração na casa do homem mais poderoso da Terra.

Os líderes mundiais ali falam do apocalipse a ser evitado sem economizar nas imagens catastróficas. O descabelado premiê britânico, Boris Johnson, bem lembrou que a agenda do clima não pode se ater à ideia de que estamos falando em abraçar coelhinhos.

Seria simpático ter ao menos um de pelúcia ao lado dele para contrastar com a tosca imagem de uma Terra estilizada em tons de verde limão, quase um mapa oitentista da previsão do tempo visto num VHS que envelheceu —e mal.

O ponto é que o anódino protocolo dessas cúpulas, o mandatário flanqueado por bandeiras de seu país atrás de uma mesa robusta, não chega aos pés de ilustrar o drama que se tenta descrever e evitar com promessas grandiosas.

É penoso ver os ternos ruins, os interiores de repartição, a gravata verde água de Bolsonaro rebatendo um tom abaixo a cor das duas bandeiras nacionais logo atrás dele, o verde e amarelo que já não correspondem às riquezas do país a caminho da destruição.

Políticos, mesmo os mais populistas, não costumam ter um senso estético muito apurado, haja vista o exemplo do nosso maior executivo, fã do pão com leite condensado sobre a prancha de surfe e camisas falsificadas de futebol, sem falar no look escolhido para esta cúpula em questão.

Imagens, no entanto, ajudam. O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, discursou ao lado de um modelo de turbina eólica sobre a mesa. Também montou um jogo de câmeras que o mostrava de perfil com imagens de verdes plantações de arroz passando no telão.

Menos alusivo ao ponto central do encontro mas um tanto mais lúdico, o premiê australiano, Scott Morrison, estampou as famosas velas da Ópera de Sydney como imagem de fundo —legal, mas fake como prateleiras de livros ready-made que se multiplicaram no Zoom na pandemia.

Talvez faltasse aos líderes, ou ao menos a seus assessores, um pouco de repertório visual para além dos coelhinhos de Boris Johnson. Não que obras de arte ou filmes fossem ser mostrados ali, mas deveriam estar um pouco na cabeça dos políticos ao nos convencer que vão evitar o pior.

Pense no mundo como retratado por românticos como o alemão Caspar David Friedrich, o pequeno homem diante dos abismos de uma natureza sublime, ou os mares revoltos de um Turner, da mesma terra de Boris, ou ainda a suave gradação das sombras na fachada da catedral de Rouen, obsessão de Monet, disposto a provar que o sol nasce mesmo a cada dia para nos aquecer e iluminar.

Hollywood também cansou de imaginar a Terra se rebelando contra a fúria e a ganância do homem, do deserto de “Mad Max” aos furacões superlativos de “Twister” e afins. Não é coisa para ternos, tailleurs e vasos de grama tamanho jumbo na Casa Branca.

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