Em reunião fechada, chanceler começa processo de pacificação de diplomatas insatisfeitos

França herda instituição em frangalhos, com cortes no orçamento e desalento

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São Paulo

Em cerimônia fechada no Itamaraty nesta terça-feira (6), o novo chanceler, Carlos Alberto França, iniciou um processo de pacificação em uma instituição que está em frangalhos após a turbulenta gestão de Ernesto Araújo. França abriu sua fala conclamando “o espírito de coesão institucional” e prometendo manter “um canal aberto de comunicação entre nós”, além de melhora no ambiente de trabalho.

O chanceler assume um ministério com o corpo diplomático fragmentado e desiludido. Muitos diplomatas de alto perfil refugiaram-se em consulados para não ter que participar da política externa, e outros tantos foram escanteados por não compartilharem da ideologia inspirada em Olavo de Carvalho.

O novo chanceler, Carlos França, durante cerimônia de transmissão de cargo no Palácio do Planalto
O novo chanceler, Carlos França, durante cerimônia de transmissão de cargo no Palácio do Planalto - Divulgação Presidência da República

O ex-chanceler dizia que os últimos 30 anos de política externa, sob governos do PT e PSDB, haviam sido um desastre e que era preciso começar do zero. Muitos viam um desrespeito de Ernesto às tradições diplomáticas e à história da política externa brasileira.

A insatisfação entre os diplomatas chegou a um nível que, em 27 de março, um grupo de mais de 300 deles publicou uma carta acusando a política externa atual de causar “graves prejuízos para as relações internacionais e à imagem do Brasil” e pedindo a saída de Ernesto da liderança do Ministério das Relações Exteriores. É muito raro diplomatas, de uma carreira altamente hierárquica, insurgirem-se contra a chefia.

Enquanto o ex-chanceler frequentemente criticava o Itamaraty, que classificava de elitista e alienado em relação aos desejos do povo brasileiro, França prestigiou a instituição, mencionando o orgulho de fazer parte da “família do Serviço Exterior Brasileiro", que integra há 30 anos, exaltando o “talento humano de nossa instituição” e afirmando que “o acervo diplomático é motivo de justificado orgulho”.

O novo chanceler também fez acenos para os que sentiam o Itamaraty desprestigiado —foi um dos ministérios que sofreram grandes cortes na proposta de Orçamento atual, e muitos postos no exterior estavam atrasando contas de luz e aluguéis por falta de verbas.

E, valendo-se de sua experiência no setor administrativo, falou de temas prosaicos —e muito importantes para os diplomatas. Mencionou dificuldades de lotação, particularmente nos postos C e D (os mais difíceis); participação e representação de mulheres na carreira; e limitações na remuneração. Eram assuntos considerados secundários por Ernesto, mais concentrado nas rixas com China e globalismo.

França falou ainda da experiência pessoal dele no departamento de administração, durante cinco anos no começo da carreira, em tempos de falta grave de dinheiro —semelhantes ao período atual. Prometeu enfrentar a crise com empenho pessoal e destacou que, na turma dele no Instituto Rio Branco, o primeiro diplomata a chegar ao posto de embaixador foi uma mulher, Gisela Padovan.

Por fim, disse que vai lutar por mais mulheres em posições de responsabilidade. “O patrimônio mais precioso do Itamaraty são as pessoas que o compõem. Quero dialogar com a Casa, na certeza de que o diálogo e o debate respeitoso são a chave para o nosso crescimento institucional”, encerrou, em abordagem bem recebida pelos diplomatas.

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