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Governo Biden

Em seus primeiros 100 dias, Biden tenta enterrar décadas de reaganismo

Com pacotes ambiciosos de trilhões de dólares, democrata vai ressuscitando o 'governo grande'

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São Paulo

“O governo não é a solução do nosso problema, o governo é o problema” é a famosa frase do ex-presidente americano Ronald Reagan em seu discurso de posse, em 1981. Aquele foi o início de 40 anos de ojeriza ao “governo grande” e ao aumento do papel do Estado na economia nos EUA. Até presidentes democratas como Bill Clinton e Barack Obama evitaram implementar políticas mais ambiciosas para ampliar o Estado de bem-estar social em um país onde não há acesso universal à saúde nem licença maternidade obrigatória.

O presidente dos EUA, Joe Biden, fala sobre atualização de orientação do CDC sobre máscaras
O presidente dos EUA, Joe Biden, fala sobre atualização de orientação do CDC sobre máscaras - Brendan Smialowski/AFP

Coube a um senhor de 78 anos, moderado a ponto de ser entediante, propor uma revolução: ressuscitar o papel do Estado como grande provedor de serviços e enterrar o reaganismo nos Estados Unidos. A pandemia do coronavírus, que deixou patente a diferença entre governo ausente e administração eficiente, foi essencial.

Em seus primeiros cem dias, Joe Biden conseguiu aprovar um pacote de US$ 1,9 trilhão de resgate a famílias americanas afetadas pela pandemia de Covid-19, com distribuição de cheques de US$ 1.400, propôs um programa de infraestrutura estimado em US$ 2,25 trilhões e se prepara para anunciar um plano para famílias no valor de US$ 1,8 trilhão.

O desempenho de Biden na administração da pandemia tem ajudado a combater a demonização do papel do governo. Quando ele assumiu a Presidência, em 20 de janeiro, os EUA tinham uma média diária de 195 mil novos casos e 3.000 mortes por Covid. Agora, a média diária de novos casos caiu para cerca de 57 mil, e a de mortes, para 700. O democrata prometeu aplicar 100 milhões de doses de vacina em seus primeiros cem dias. Dobrou: chegou a 200 milhões uma semana antes do prazo.

O democrata teve a sorte de herdar do antecessor um programa avançado de desenvolvimento de vacinas. Mas a logística foi mérito de Biden —Donald Trump deixara a distribuição totalmente a cargo dos estados.

Biden, que colocou um grande retrato do ex-presidente Franklin Delano Roosevelt (FDR) na frente de sua mesa no Salão Oval na Casa Branca, não esconde qual é sua inspiração. Em recente encontro com historiadores, foi flagrado dizendo à autora Doris Kearns Goodwin, uma das biógrafas de Roosevelt: “Eu não sou um FDR, mas....”.

Reagan e seus seguidores passaram décadas revertendo as políticas do New Deal, programa de obras públicas, reforma financeira e regulamentação adotado por FDR para tirar o país da Grande Depressão dos anos 1930, e do Grande Sociedade, plano de Lyndon Johnson que introduziu atendimento médico para idosos e pobres (Medicare e Medicaid), assistência alimentar (Cupons de Alimentos) e outros programas de combate à pobreza. Foram sucessivos governos focados em reduzir o déficit orçamentário e cortar impostos, na crença de que a iniciativa privada faria quase tudo de forma mais eficiente do que o Estado.

Biden sabe que não basta limitar a expansão do governo ao combate à Covid. Seu plano de infraestrutura visa a transformar o Estado como indutor de investimentos não apenas em estradas e pontes, mas na reinvenção dos EUA como uma potência da economia sustentável. Ele anunciará em breve o seu Plano da Família Americana, que mira investimentos em educação, assistência a crianças e licenças maternidade e paternidade, com grande influência na sociedade americana.

Os republicanos, como esperado, não se converteram ao credo de FDR. O republicano Mitch McConnell, líder da minoria no Senado, diz que o plano de Biden é um cavalo de Troia para uma gastança de esquerdistas que querem elevar impostos.

Mas Biden abandonou qualquer intenção de bipartidarismo. Está passando as legislações só com apoio democrata, com manobras como a da reconciliação, que permite aprovação de lei com maioria simples, em vez de 60 votos no Senado, como na maioria dos casos.

Ele não quer repetir o fracasso de Obama, que, à espera de apoio republicano, limitou-se a um pacote de estímulo mais tímido em 2009 —e, depois de perder a maioria na Câmara em 2010, teve grande parte de suas iniciativas bloqueadas.

Mas, ao contrário de FDR, que chegou a ter uma maioria de quase 200 assentos na Câmara e de 58 a 37 no Senado, Biden só controla o Senado (50-50) pelo voto de minerva da vice-presidente, Kamala Harris, e tem uma minúscula maioria na Câmara. É uma aposta muito arriscada tentar aprovar essa enorme expansão do Estado sem nenhum apoio republicano.

As pesquisas mostram como é difícil essa agenda em um país altamente polarizado, em que o oponente teve 74 milhões de votos e a maioria dos eleitores republicanos acham que a eleição foi fraudada, embora inúmeros tribunais tenham atestado o contrário.

Biden acumulou capital político com sua ação na pandemia. Segundo a mais recente pesquisa ABC News/Washington Post, 65% dos entrevistados aprovam o pacote de resgate da pandemia e 64% aprovam sua gestão durante a crise da Covid.

Mesmo assim, a mesma pesquisa mostra que 52% dos entrevistados aprovam a gestão de Biden —ele só não perde em popularidade para Gerald Ford (48% no mesmo estágio do mandato) e Trump (42%).

Por mais que ele tenha boa aprovação em relação à Covid, há flancos importantes em sua agenda. Suas ações em relação à crise da imigração na fronteira com o México, por exemplo, tiveram aprovação de apenas 37%.

Biden reverteu uma série de medidas de Trump cujo objetivo era bloquear a entrada de migrantes e refugiados. Mas isso ajudou a gerar uma explosão no número de crianças cruzando a fronteira, com enorme dificuldade para abrigá-las em meio à pandemia. Também a separação de famílias ainda não foi equacionada.

No seu boletim de promessas de campanha, ele ainda é cobrado por sua base por medidas mais assertivas em relação à desigualdade racial e econômica e restrição à posse de armas. Parte dos economistas aponta que a enorme injeção de dinheiro na economia com os programas estatais, e o aumento do déficit, pode gerar inflação no médio prazo. E Biden ainda não assegurou apoio nem entre os moderados de seu partido para elevação significativa dos impostos sobre empresas para bancar seus programas.

Ainda assim, a aposta é em rapidez. Se os democratas não conseguirem manter o controle da Câmara e do Senado nas eleições legislativas de 2022, algo bastante possível, tudo isso ficará ainda mais difícil. Sua equipe encara o governo como uma corrida contra o tempo —ao fim de cem dias, estão vencendo no quesito ambição. A ver se conseguem aprovar todos esses planos.

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