Exaustos após um ano de Covid, muitos prefeitos dos EUA se afastam de seus cargos

Políticos citam estresse e necessidade de tomar decisões difíceis durante pandemia como principais motivos para deixar comando de municípios

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Ellen Barry
Newburyport (EUA) | The New York Times

Donna Holaday é o tipo de prefeita que não costuma recusar um convite.

Ela comparece a cerimônias de inauguração de pequenos comércios, como a do spa Radiant U Esthetics e a da doceria Angry Donut. Assiste a pequenos desfiles que percorrem três ou quatro quadras até a praia. Funerais, eventos de caridade, cerimônias de entrega de medalhas estudantis –ela faz tudo isso.

Ao longo de quatro mandatos como prefeita de Newburyport, cidade litorânea com 17 mil habitantes no estado de Massachusetts (na Costa Leste dos EUA), Holaday aprendeu que sempre podia se animar subindo em um pódio e retribuindo a vibração que recebia de uma plateia cheia.

Mas não foi o que aconteceu neste último ano.

Donna Holaday, prefeita de Newburyport, é uma mulher branca e de cabelo preto; usando uma blusa cinza, ela está apoiada em uma mesa enquanto observa uma janela
Donna Holaday, prefeita de Newburyport, observa a vista de seu escritório; ela decidiu deixar o comando do município - Damian Strohmeyer/The New York Times

“Não há nada na minha agenda, nada. É assim que tem sido há um ano”, disse a prefeita, que tem 66 anos. Enquanto tudo esteve fechado, ela fez questão de passar seus dias dentro da sede vazia da prefeitura, nem que fosse apenas para que as pessoas pudessem ver a luz de seu gabinete acesa.

Mas foram dias longos em que, disse ela, “você cuidava de um problema apenas para ver outros 15 aparecerem”. E as ligações que ela atendia não eram sobre problemas normais, como a coleta de lixo ou remoção de neve, mas questões de sofrimento profundo: uma pessoa querida forçada a morrer sozinha ou famílias ficando sem ter o que comer. “Foi tão traumático. As pessoas nos telefonavam chorando, aflitas”, contou Holaday, que anunciou que não vai se candidatar a um quinto mandato.

“Eu estava sentada em meu gabinete me sentindo muito sozinha.”

Tem sido uma temporada exaustiva para os prefeitos americanos. Mesmo nos melhores momentos, os prefeitos costumam receber enxurradas de críticas e pedidos individuais de ajuda.

No último ano, eles se viram tendo que tomar decisões sobre questões de vida ou morte —prolongar lockdowns que devastavam empresas locais, cancelar encontros com os eleitores, não conseguir oferecer apoio comparecendo aos lugares pessoalmente. Agora, nesta primavera (que vai de março a maio no hemisfério Norte), muitos prefeitos americanos estão explicando sua decisão de deixar seus cargos usando o mesmo argumento: que a resposta à pandemia demandou tanto deles que eles não conseguiram cumprir seus deveres e ao mesmo tempo fazer campanha, ou então que seu trabalho se tornou tão estressante que seus familiares recomendaram que eles se afastassem.

“Eles estão esgotados, só isso”, disse Katharine Lusk, diretora executiva da Iniciativa para Cidades da Universidade de Boston, que realiza pesquisas anuais com prefeitos.

Os prefeitos entrevistados no verão passado (de junho a agosto no hemisfério Norte) manifestaram uma ansiedade profunda com os efeitos da perda de receita tributária sobre seus orçamentos, enquanto lutavam para coordenar a recuperação econômica da pandemia com suas responsabilidades principais.

Enquanto isso, disse Lusk, os aspectos positivos do trabalho dos prefeitos sumiram. “Eles costumam dizer que ser prefeito é o cargo político mais pessoal que existe”, disse ela. “Se um prefeito não consegue interagir com a comunidade, então todas as coisas que o energizam e o animam são tiradas.”

Não existem muitos dados nacionais sobre eleições locais, de modo que é impossível dizer se a rotatividade de prefeitos vista este ano é algo fora do comum. Como divulgou o jornal político CommonWealth, quase um quinto dos prefeitos do estado de Massachusetts anunciaram que não vão se candidatar para reeleição a seus cargos. Mas essa não é uma parcela incomum, segundo a Associação de Municípios do Massachusetts.

As decisões dos prefeitos de se afastarem dos cargos raramente são tomadas por uma única razão, e, durante o ano que passou, aumentou a pressão sobre eles vinda de muitas frentes, incluindo conflitos sobre policiamento e justiça racial.

Mas, entre os prefeitos que explicaram o que os motivou a não continuar, a fadiga da Covid é uma razão muito citada. A prefeita de Topeka, no Kansas, Michelle De La Isla, disse ao The Topeka Capital-Journal que, se tivesse que fazer campanha, sua carga de trabalho passaria dos limites. “De maneira alguma eu conseguiria fazer isso ao mesmo tempo” que comanda a resposta do coronavírus, explicou.

Depois de retornar de férias e de participar de mais uma reunião marcada por discussões polarizadas, o prefeito de Pensacola, na Flórida, Grover C. Robinson, disse que decidiu não se candidatar novamente por estar frustrado com a politização das reações às diretivas de saúde. Explicações semelhantes foram dadas pelos prefeitos de Highland (Illinois), Pascagoula (Mississippi) e Seattle (no estado de Washington).

Thomas M. McGee é prefeito de Lynn, no Massachusetts, cidade operária grande ao norte de Boston. Ele descreveu partes do ano passado como “um borrão” durante o qual o vírus se alastrou como fogo por bairros densamente povoados por famílias compostas por várias gerações.

Democrata, McGee se candidatou à prefeitura de Lynn, sua cidade natal, em 2016, depois de 22 anos na legislatura estadual. Mas disse que nada o preparou para as pressões intensas de ser prefeito no ano passado. “Depois de 27 anos e deste ano que sob alguns aspectos foi um ano perdido, minha família me disse ‘você está estressado, tudo isso teve um impacto grande sobre você. Vamos apoiá-lo 100% em qualquer coisa que você quiser fazer. Mas achamos que você deveria pensar em dar um passo para trás’.”

A descrição que McGee faz do ano passado é marcada pela frustração com o governo federal, que, segundo ele, deixou as autoridades municipais para enfrentar sozinhas uma emergência de saúde pública que avançava rapidamente, enquanto Donald Trump contradizia as mensagens básicas sobre segurança.

“Foi ficando claro que estávamos por conta própria, e eu dizia isso em telefonemas e quando tomávamos decisões”, disse. “Deixaram muitos de nós na mão. Fomos abandonados para nos virar sozinhos no meio de tudo isso.” Sua frustração foi ecoada por Joseph A. Curtatone, 54, prefeito de Somerville, no Massachusetts, cidade de 81 mil habitantes. Curtatone está deixando a prefeitura após quase 18 anos no cargo, em meio a especulações de que vai se candidatar a governador.

“Nós, prefeitos, somos os primeiros a ser informados quando alguém perde um ente querido. Somos os primeiros a ser chamados quando alguém está sendo despejado e não tem para onde ir”, disse. Brincando, comentou que seus momentos de descanso eram quando podia falar sobre tempestades de neve.

Segundo Curtatone, os prefeitos foram forçados a coordenar entre eles as políticas sobre questões de grande importância, como fechamentos de escolas e empresas, pondo pressão coletiva sobre o governo estadual para seguir seu exemplo.

“Trump passou a responsabilidade para os estados, e estes a passaram para as cidades”, disse ele.

Quase dois terços dos prefeitos de grandes cidades são democratas, muitos em estados controlados por republicanos, cujos líderes eram mais céticos em relação ao fechamento de empresas e à imposição do uso de máscaras. Essa tensão exacerbou a sensação dos prefeitos “de estarem travando uma batalha”, mesmo agora, quando os números de casos de coronavírus vêm caindo, disse Lusk, da Iniciativa para Cidades da Universidade de Boston. “Acho que devido ao caráter cíclico da pandemia, os prefeitos em momento algum conseguiram baixar a guarda. Em momento algum puderam dizer que o perigo havia ficado para trás”, disse ela.

Tradução de Clara Allain

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